Sons da Escrita 357

27 de Agosto de 2011

Primeiro programa do ciclo Abel Neves

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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AbelNeves

Quatro vezes sete versos para aquela rapariga

Enquanto não vens  

nem tu sabes  

é assim
uma casa que só cheirasse a uvas de setembro
Este quarto  

esta sala onde o som contínuo é Out of
Nowhere soprado pelo Charlie Parker
Há calma com vento que vem quente enquanto não vens
e podes ter a certeza que o soalho vai ter aroma de estações
A que menos entenderes para melhor a desejares


Entretenho-me com uma breve meditação
sobre o perfil de um velho índio apsaroke
e tenho-te  

rapariga  

na visão do vale dos bisontes
onde esperas o bafo morno do fim da tarde
ajeitando o lenço na cabeça e sorrindo
entre o voo de alguns insectos
e a recordação destes dedos que te escrevem


Não me leves a mal se te falo de coisas tão domésticas
mas neste falar assim é que as plantas destes vasos
crescem para o tecto e é lá que está o éden delas
ainda que o vá sendo sempre o ar e
a luz que tomam
cada dia  

perto  

muito perto das menores palavras
com que te aviso do paraíso tão à mão


Hoje sinto-me lesma  

será isto lucidez?
e não tenho sexo nem para as horas
nem lei para esta coisa suave
que é dançar na metafísica como astronauta para lá da gravidade
Cá vou indo  

menina  

cá vou indo
e não me peças versos que os não dou
por os não saber fazer ou ler ou nada


Nothing in my way (Keane)

A turning tide
Lovers at a great divide
Why d'you laugh?
When I know that you're hurt inside? 

And why'd you say
It's just another day, nothing in my way
I don't wanna go, I don't wanna stay
So there's nothing left to say?
And why'd you lie
When you wanna die, when you're hurt inside
Don't know what you lie for anyway
Now there's nothing left to say 

A tell-tale sign
You don't know where to draw the line 

And why'd you say
It's just another day, nothing in my way
I don't wanna go, I don't wanna stay
So there's nothing left to say
And why'd you lie
When you wanna die, when you're hurt inside
Don't know what you lie for anyway
Now there's nothing left to say 

Well for a lonely soul, you're having such a nice time
For a lonely soul, you're having such a nice time
For a lonely soul, it seems to me that you're having such a nice time
You're having such a nice time

(Just...)
For a lonely soul, you're having such a nice time
(...another day, nothing in my way, I..)
For a lonely soul, you're having such a nice time
(...don't wanna go, I don't wanna stay. just..)
For a lonely soul, it seems to me that you're having such a nice time
(... another day, nothing in my way; Don't know what you lie for...)
You're having such a nice time
(...anyway)


AbelNeves

Amando a agilidade das ervas

Amando a agilidade das ervas
outra planta domina o calor
A água ilumina-se
Eis-nos  

eternos retratos do espanto
Como  

finalmente  

se dão as mãos à terra?
Este é o silêncio da boca
e  

como dizê-lo?  

a exacta solenidade do seu recorte
Fulgor de quem confunde?
Ardor de quem espera?
Esta é a consciência dos dias


Vejo-te ainda na coroa da luz
a navegar por cima do tempo
sacudindo os panos  

gozando a cerimónia do riso
Digamos que a tragédia é toda tua
inteiro pano de incendiadas rendas
Não se demora o olhar
sobre esse tempo
porque tudo arde
a carne  

o lugar  

os dedos
Mesmo que mortes houvesse
tudo continuaria assim
à flor dos lábios
rompendo da altura do silêncio


Shadows in silence (Enigma)

Give me release
witness me
I am outside
give me peace

Heaven holds a sense of wonder
and I wanted to believe
that I'd get caught up
when the rage in me subsides

In this white wave
I am sinking
in this silence
in this white wave
in this silence
I believe

Passion chokes the flower
'til she cries no more
possessing all the beauty
hungry still for more

Heaven holds a sense of wonder...

I can't help this longing
comfort me
I can't hold it all in
if you won't let me

Heaven holds a sense of wonder...

In this white wave
I am sinking
in this silence
in this white wave
in this silence
I believe

I have seen you
in this white wave
you are silent
you are breathing
in this white wave
I am free


AbelNeves

Dispõem os rios

Dispõem os rios
de um silêncio argênteo  

lunar
Dentro
há leitos repousantes  

violentos
e uma água
que só vidoeiros tocam
Dos vidoeiros sabe-se o branco
gosta-se a seiva
E nessa seiva
ponho a boca  

devagar
para o silêncio dos rios


Há uma lenda
que entra nesta luz
a dos animais refugiados
Há também as sombras
e a lenda reduz-se ao pó
à terra dos animais
Não haverá espanto
tão breve é a nossa passagem
sobre os ramos  

fáceis

da memória


River of you (Trisha Yearwood)

I told myself I'd stay away...
I got no business 'round here today.
You're so not good for me, and everybody knows,
The way you break my heart again and again.
But before I know, I'm too close
One sweet look...

And then you pull me under,
With a touch that's like no other.
I'm drifting, drowning...
There's nothin' I can do but fall into the river of you.

Well, I thought I saw love's reflection,
Just to feel your cold rejection.
Every tear adds to the water that I keep swimmin' in.
Even I know, I'm a fool; a reckless fool for you.
'Cause I keep comin' 'round here,
Like I got nothin' to lose.

An' you pull me under,
With a touch that's like no other.
I'm drifting, drowning...
There's nothin' I can do but fall into the river of you.

Well, you pull me under,
With a touch that's like no other.
I'm drifting, drowning...
There's nothin' I can do but fall into the river of you.

You pull me under,
With a touch that's like no other.
I'm drifting, drowning...
There's nothin' I can do but fall into the river of you.

Yeah, I fall into the river of you. 

Well, you pull me under,
Fall into the river.
You pull me under.


Não sei quantas águas tem este rio ou
sei que outro é o rio
que estas mãos aquecem
E outras são as mãos


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Secret Garden

Ligações
Keane, Enigma, Trisha Yearwood

Textos:
Abel Neves

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012