Sons da Escrita 358

3 de Setembro de 2011

Segundo programa do ciclo Abel Neves

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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AbelNeves

Os olhos são o céu

Os olhos são o céu muito cuidado onde
pousam os ventos  

as areias  

as saborosas coisas
Tudo está dentro desses olhos  

o mar
barcos  

o desejo
Foi na infância que umas águas tocaram
as velhas mãos que de tão leves alguém lhes chamou
penas de dourar o silêncio
E vieram as estações delicadamente descansar
sobre as bocas
e fazer das palavras o ninho azul das brincadeiras


O canto da ave é a carta
das origens do mundo  

orgulho do sol e dos dias
O som
O trabalho das aves é um ofício preciso
sempre renovador
nos ramos  

no canto e no ar


No fresco dos céus
rompem as palavras para cairem
no teu peito que se abre para elas
Quase um beijo  

dizes
E uma espuma aumenta nos teus lábios
Breve  

que só se dá por ele no som da palavra
o rosto
e depois o amor cobrindo tudo


No canteiro as rosas ainda são rosas
No limiar da porta o mês cuidava ser maio
Dentro de casa era inverno  

a cal menos pura
Via-se a toalha de azul e vermelho
a toalha sobre a mesa
Nem uma palavra
assim esperando o triunfo das horas
ou o milagre da cal


Um fio de amor
quando eram quentes as tardes de outrora
Os nomes usam ainda o calor desses dias
Morrer não era ali  

lábios soltos  

voz
exposição do riso


Apple of my eyes (Badfinger)

Oh, I'm sorry, but it's time to move away
Though inside my heart, I really want to stay
Believe the love we have is so sincere
You know, the gift you have will always be

You're the apple of my eye
You're the apple of my heart
But now, the time has come to part

Oh, I'm sorry, but it's time to make a stand
Though we never meant to bite the lovin' hand
And now, the time has come to walk alone
We were the children, now we've overgrown

Now, the time has come to part
Now, the time has come to part


AbelNeves

Havia quem dissesse

Havia quem dissesse que a manhã
seria luz quando uma ave  

uma só ave que fosse
entrasse em todas as casas e nós  

atentos
acordássemos dentro dos rios 


Soubera-se o teu desejo
As barcas haviam levado a dor dos continentes
as nuvens eram uma flutuação tremenda
e só tu o sabias
Tinhas por esse tempo o gosto das coisas efémeras
A manhã continuava a ser o perfume da fome
uma flor de sofrimento


Reúnem-se os passos onde
já não há caminho
O corpo desce vertical sobre si mesmo
as estrelas divididas
Não há secretas paixões ao encargo dos dias


Talk about the passion (REM)

Empty prayer, empty mouths, combien reaction
Empty prayer, empty mouths, talk about the passion
Not everyone can carry the weight of the world
Not everyone can carry the weight of the world

Talk about the passion
Talk about the passion

Empty prayer, empty mouths, combien reaction
Empty prayer, empty mouths, talk about the passion
Combien, combien, combien de temps?

Not everyone can carry the weight of the world
Not everyone can carry the weight of the world
Combien, combien, combien de temps?


AbelNeves

Abandonado ao descanso

Abandonado ao descanso
nada pedes à ressurreição
Restos de antigas palavras
tornam-te rude e ao mesmo tempo
o mais terno animal conhecido


Tarda o entendimento das coisas
provavelmente nunca chegará
O mel do vento é a frescura  

é o que tu sabes
quando o físico não pensa
Acariciar um fruto
sem a vontade de o possuir  

a verdade é isto
insinuando-se no teu exílio 


Há um pequeno terror que se instala
onde não devia instalar-se terror algum
Aproximas do espelho o rosto faminto
e pensas na paz depois do fim da fome


Estendes a carne sobre a forma da terra
e sentes o gosto vago de uma ave que passa
Nunca poderias desistir do amor  

tu
que além de possuires o ouro das manhãs
bebias a noite com a tua sede
Morria-se  

é certo  

longe das palavras
mas no acerto das mãos com as águas
Amor de todos os fogos  

diz-se 


O que morrer será solene
aos olhos dos ficam
Os que te julgam imortal
de qualquer modo vão esquecer-te
Os outros compreendem
Não levarás nenhum verso
coisa alguma
que estes dedos pudessem restaurar
Sim  

a voz dos poetas é uma única voz
Talvez por isso tenhas agora que voltar à eternidade


Eternity road (Moody Blues)

Hark listen here he comes
Hark listen here he comes
Turning, spinning, catherine wheeling
For ever changing
There's no beginning
Speeding through a charcoal sky
Observe the truth we cannot lie

Travelling eternity road
What will you find there?
Carrying your heavy load
Searching to find a peace of mind.

You'll see us all around
You'll see us all around
Turning, spinning, catherine wheeling
For ever changing
There's no beginning
You're so very far from home
And so very much alone

Travelling eternity road
What will you find there?
Carrying your heavy load
Searching to find a peace of mind.

Travelling eternity road
What will you find there?
Carrying your heavy load

Searching to find a peace of mind.


Às vezes a grandeza de um homem pode conter-se num verso
e é disso que muitas vezes se alimentam os versos
Mas as outras grandezas  

um rio que conhecemos
e reconhecemos
um tufo de ervas
raramente se deixam conter num verso


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Kevin Kern

Ligações
Badfinger, REM, Moody Blues

Textos:
Abel Neves

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012