Sons da Escrita 359

10 de Setembro de 2011

Terceiro programa do ciclo Abel Neves

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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AbelNeves

Outrora carregava o saco

Outrora carregava o saco como um caçador
Em vez de tordos e galinholas misturava ameixas
com rolos de papiro
Numerados de um a cinquenta transportava
colunas de versos ainda frescos
da tinta púrpura e do cheiro
forte da resina  

não tão frescos  

no entanto
que não pudesse a cada um passear-lhe
em cima os dedos
As ameixas comia-as demoradamente  

silabando o sumo
e os versos deitava-os a seu lado sobre a lájea
e ao sol esperavam a sua hora  

Trocava-os depois
por uma moeda ou bolos de mel ou algumas ameixas
um elogio até


Another man’s prize (Al Kooper)

Sand in the heat and the sun in her hair
Ocean at her feet
There was no one else there
And I silently wept as she turned me away
The tears on my face?
Salt-water, I prayed...

Daughter of a banker with the green in her blood
And me such a failure — just a poor fool in love
Recommendations;
Everyone said:
You've just one thing in common,
You're both out of your heads

How could I be with another man’s prize?
How could I possibly rationalize?
Blinded by beauty in a web spun full of lies
She was not my possession
But another man’s prize

He was born into high stock of privilige and class
And there but for fortune still I never will pass
But he took for granted what I treasured for life
And all his trappings and riches
Nearly cost him his wife

He couldn't tell she was another man’s prize
She just slipped through his fingers
neath the glaze in his eyes
And as I was about to reach that very highest of highs
It was my miscalculation
Cause she was another man’s prize

The worst feeling on earth is to know you've been used
Specially after that moment when two bodies are fused
When you build a false heaven — you've the devil to pay
And now that I know how I wound up this way

How could I be with another man’s prize?
How could I possibly rationalize?
Blinded by beauty in a web spun full of lies
She was not my possession
But another man’s prize
She was not my possession
another man’s prize


AbelNeves

Fala-me da imortalidade

Fala-me da imortalidade  

tu que escreves
e diz-me se tenho ou não razão
A madeira arde e uma alma desprende-se do fogo
Diversas são as almas e algumas são nada  

eu sei
mas essa  

essa que teima em soltar-se
da forma vegetal
não é aquilo que fui outrora quando
a luz visitou o húmus?
Se isto é verdade
por que
hás-de escrever sobre as coisas imortais?


Luz negra sobre a obra  

A obra
é uma camisa branca de linho  

É brancura
que queima nos bares à beira rio
Jamaica  

Texas  

Cais Bar
um copo de vinho contra o peito e outro e mais outro
e o branco é tão branco
que mal se abrem os lábios é o branco dos dentes
é o branco das horas e a luz é branca
E na saída dos bares a noite é dia


Daylight again (Crosby, Stills & Nash)

Daylight again
Following me to bed
I think about a hundred years ago
How my father's bled

I think I see a valley
Covered with bones in blue
All the brave soldiers that cannot get older
Been asking after you

Hear the past a' calling
From Armageddon's side
When everyone's talking and no one is listening
How can we decide

Do we find the cost of freedom
Buried in the ground
Mother Earth will swallow you
Lay your body down


AbelNeves

Estão recuperados os olhos

Estão recuperados os olhos largaram  

o cansaço
e procuram a paz abaixo das geografias
Falar de uma geografia
é nomear a matéria do cansaço
e por baixo dela há a calma  

por baixo da geografia
Procuram os olhos a outra matéria
e quase estão casados os olhos nessa calma
A pedra é então pedra  

talvez coisa antes vegetal
o vento uma soma de ventos
e nada diz  

nada lhe diz que seja agora a paz
O cansaço recupera os olhos
e armados de muita luz  

muita  

muita luz
de novo são guerreiros toda a noite


The man with the child in his eyes (Kate Bush)

I hear him, before I go to sleep
And focus on the day that's been.
I realise he's there,
When I turn the light off and turn over. 

Nobody knows about my man.
They think he's lost on some horizon.
And suddenly I find myself
Listening to a man I've never known before, 

Telling me about the sea,
All his love, 'til eternity. 

Ooh, he's here again,
The man with the child in his eyes.
Ooh, he's here again,
The man with the child in his eyes. 

He's very understanding,
And he's so aware of all my situations.
And when I stay up late,
He's always waiting, but I feel him hesitate. 

Oh, I'm so worried about my love.
They say, "No, no, it won't last forever."
And here I am again, my girl,
Wondering what on Earth I'm doing here.
Maybe he doesn't love me.
I just took a trip on my love for him. 

Ooh, he's here again,
The man with the child in his eyes.
Ooh, he's here again,
The man with the child in his eyes.


Se te perguntarem
dirás que não preferes os versos
antes a melodia anterior  

a suspeita da calma
Mas eles são os espalhados ícones
a derradeira hipótese no lado esquerdo do peito
A página é um tecido intenso

tenso como a lira
e seria belo que entrasses na página
como o pássaro no arvoredo


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Ralf Illenberger

Ligações
Al Kooper, Crosby, Stills & Nash

Textos:
Abel Neves

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012