Sons da Escrita 052

11 de Março de 2006

Primeiro programa do ciclo Adolfo Casais Monteiro

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Adolfo Casais Monteiro

Castelos tombados (Adolfo Casais Monteiro)

Altos castelos tombados de sonhos desiludidos, arquitecturas tamanhas, tecidas por mãos estranhas juncam o chão.
Nasce outro dia, sobre as ruínas de há pouco.
E no tempo, essas ruínas tão grandes, de sonhos tão desmedidos, fazem apenas figura de um grão de areia sem peso, leve ao acaso do vento...


The windmills of your mind (José Feliciano)

Round Like a circle in a spiral
Like a wheel within a wheel
Never ending nor beginning
On an ever-spinning wheel
Like a snowball down a mountain
Or a carnival balloon
Like a carousel that's turning
Running rings around the moon
Like a clock whose hands are sweeping
Past the minutes of its face
And the world is like an apple
Whirling silently in space
Like the circles that you find in the windmills of your mind
Like a tunnel that you follow
To a tunnel of its own
Down a hollow to a cavern
Where the sun has never shone
Like a door that keeps revolving
And a half-forgotten dream
Or the ripples from the pebble
Someone tosses in a stream
Keys that jingle in your pocket
Words that jangle in your head
Why did summer go so quickly
Was it something that you said
Lovers walk along the shore
Leaving footprints in the sand
Is the sound of distant drumming
Just the fingers of your hand
Pictures hanging in a hallway
And the fragments of a song
Half-remembered names and faces
But to whom do they belong?
When you knew that it was over
You were suddenly aware
That the autumn leaves were turning
To the color of her hair


Adolfo Casais Monteiro

Eu falo das casas e dos homens (Adolfo Casais Monteiro)

Eu falo das casas e dos homens, dos vivos e dos mortos: do que passa e não volta nunca mais.. .
Não me venham dizer que estava materialmente previsto, ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome, as angústias sem nome, os pavores marcados para sempre nas faces trágicas das vítimas. E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima, uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava. Se visse, dava em louco ou em profeta, dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada, - mas não acreditava!
Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites, e fico sem palavras, na dor de serem homens que fizeram tudo isto: esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira, esta lama de sangue e alma, de coisa a ser, e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança, se o ódio sequer servirá para alguma coisa...
Deixai-me chorar — e chorai! As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição, e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama, por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio, por um segundo seremos os mortos e os torturados, os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados, seremos a terra podre de tanto cadáver, seremos o sangue das árvores, o ventre doloroso das casas saqueadas, sim, por um momento seremos a dor de tudo isto. . .
Eu não sei porque me caem as lágrimas, porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra, eu que sou estrangeiro diante de tudo isto, eu que estou na minha casa sossegada, eu que não tenho guerra à porta, — eu porque tremo e soluço?
Quem chora em mim, dizei — quem chora em nós?
Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros: as ruas são ruas com gente e automóveis, não há sereias a gritar pavores irreprimíveis, e a miséria é a mesma miséria que já havia...
E se tudo é igual aos dias antigos, apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir, eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente, sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos, sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta, uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...


House of broken dreams (Crosby Stills & Nash)

Living in a house of broken dreams,
Where shadows throw shadows on the wall,
And memories are mountains to climb
Knowing everyone can fall.

And here where the cobwebs count the hours.
Since we let the laughter clear the air,
Painfully trying to touch
Knowing that we used to care.

Separate houses, separate hearts,
It's hard to face the feelings tearing us apart.
And in this house of broken dreams love lies.

Can we keep our castles in the air
While we're keeping both feet on the ground?
`Cos if your heart can touch another heart
Love can turn it all around.

Get rid of those empty glances and empty sighs
Or tears of longing will fill your eyes.
In this house of broken dreams love hides.


Adolfo Casais Monteiro

Permanência (Adolfo Casais Monteiro)

Não peçam aos poetas um caminho. O poeta não sabe nada de geografia celestial.
Anda aos encontrões da realidade, sem acertar o tempo com o espaço.
Os relógios e as fronteiras não têm tradução na sua língua. Falta-lhe o amor da convenção em que, nas outras, as palavras fingem de certezas.
O poeta lê apenas os sinais da terra. Seus passos cobrem apenas distâncias de amor e de presença. Sabe apenas inúteis palavras de consolo e mágoa pelo inútil. Conhece apenas do tempo o já perdido; do amor a câmara escura sem revelações; do espaço o silêncio de um vôo pairando em toda a parte.
Cego entre as veredas obscuras é ninguém e nada sabe — morto redivivo.
Tudo é simples para quem adia sempre o momento de olhar de frente a ameaça de quanto não tem resposta
Tudo é nada para quem descreu de si e do mundo e de olhos cegos vai dizendo: não há o que não entendo.


Standing in the doorway (Bob Dylan)

I'm walking through the summer nights
Jukebox playing low
Yesterday everything was going too fast
Today, it's moving too slow
I got no place left to turn, I got nothing left to burn
Don't know if I saw you, if I would kiss you or kill you
It probably wouldn't matter to you anyhow
You left me standing in the doorway, crying
I got nothing to go back to now
The light in this place is so bad
Making me sick in the head
All the laughter is just making me sad
The stars have turned cherry red
I'm strumming on my gay guitar, smoking a cheap cigar
The ghost of our old love has not gone away
Don't look like it will anytime soon
You left me standing in the doorway crying
Under the midnight moon
Maybe they'll get me and maybe they won't
But not tonight and it won't be here
There are things I could say but I don't
I know the mercy of God must be near
I've been riding the midnight train got ice water in my veins
I would be crazy if I took you back
It would go up against every rule
You left me standing in the doorway, crying
Suffering like a fool
When the last rays of daylight go down
Buddy, you'll roll no more
I can hear the church bells ringing in the yard
I wonder who they're ringing for
I know I can't win but my heart just won't give in
Last night I danced with a stranger
But she just reminded me you were the one
You left me standing in the doorway crying
In the dark land of the sun
I'll eat when I'm hungry, drink when I'm dry
And live my life on the square
And even if the flesh falls off of my face
I know someone will be there to care
It always means so much even the softest touch
I see nothing to be gained by any explanation
There are no words that need to be said
You left me standing in the doorway crying
Blues wrapped around my head line
For us to find that love is over


A poesia não é voz — é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso nada se acrescenta a nada, somente um jeito impalpável dá figura ao sonho de cada um, expectativa das formas por achar. No verso nasce à palavra uma verdade que não acha entre os escombros da prosa o seu caminho. E aos homens um sentido que não há nos gestos nem nas coisas: vôo sem pássaro dentro.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Mike Oldfield

Ligações
José Feliciano, Crosby, Stills & Nash, Bob Dylan

Textos:
Adolfo Casais Monteiro

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012