Sons da Escrita 053

18 de Março de 2006

Segundo programa do ciclo Adolfo Casais Monteiro

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Adolfo Casais Monteiro

Madrugada (Adolfo Casais Monteiro)

Ah! Este poema das madrugadas, que há tanto tempo enrodilhado num sem-fim de estados de alma me obcecava, tirânico, sem se deixar fixar! ...

Madrugada... e esta solidão crescendo, esta nostalgia maior, e maior, e maior, de não se sabe o quê — nunca se sabe o quê... que haverá nestas horas sozinhas e geladas, para assim trazer à tona as indefinidas mágoas, as saudades e as ânsias sem motivo — de que não sabemos o motivo?...

Vieram as saudades do tempo de menino — ou dum paraíso lá não sei onde?
Ah! que fantasmas pesaram sobre os ombros, que sombras desceram sobre os olhos, que tristeza maior fez maior o silêncio?
A que vem esse calor distante e absorto, esse calar, esses modos distraídos?
Meu pobre sonhador! a esta hora porventura se desvenda a Suprema Inutilidade?  e a definitiva ilusão de tantos gestos?

Interroga, interroga... vai sonhando, sem que saibas sequer o caminho que segues vai, distraído e pensativo,  alheio de hoje, vivendo já o derradeiro segundo...

Que a madrugada tem o pungir das agonias, mas alheio, como o fim dum pesadelo...


Dawn is a feeling (Moody Blues) 

Dawn is a feeling
A beautiful ceiling
The smell of grass
Just makes you pass
Into a dream

You're here today
No future fears
This day will last
A thousand years
If you want it to

You look around you
Things they astound you
So breathe in deep
You're not asleep
Open your mind

Do you understand
That all over this land
There's a feeling
In minds far and near
Things are becoming clear
With a meaning

Now that you're knowing
Pleasure starts flowing
It's true life flies
Faster than eyes
Could ever see


Adolfo Casais Monteiro

Aço (Adolfo Casais Monteiro)

Quebre-se de encontro à dureza das arestas cada desregrada ilusão da minha vida. 
Que os bichos vão roendo o vão caruncho da inútil poeira de astros que imagino. 
Que — sei-o bem! — lá no mais fundo, forte e imarcescível sob os golpes resiste a minha força verdadeira.  

E o poema sempre novo no meu sangue conhece também sua glória de aço que vê sem dor as pobres farsas e os caminhos cruéis em que me perco.  

Veio da luz inutilizando os laços armados no caminho à minha espera, mão de ferro erguendo-se dos limbos e mandando-me fitar o sol em face!


Steeel and glass (John Lennon)

(This is a story about your friend and mine
Who is it, who is it, who is it?) 

There you stand with your L.A. tan
And your New York walk and your New York talk
You're mother left you when you were small
But you're gonna wish you wasn't born at all 

Steel and glass
Steel and glass
Steel and glass
Steel and glass 

Your phone don't ring no one answers your call
How does it feel to be off the wall 

Well your mouthpiece squawks as he spreads your lies
But you can't pull strings if your hands are tied
Well your teeth are clean but your mind is capped
You leave your smell like an alley cat 

Steel and glass
Steel and glass
Steel and glass
Steel and glass


Adolfo Casais Monteiro

A palavra impossível (Adolfo Casais Monteiro)

Deram-me o silêncio para eu guardar, dentro de mim, a vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar, dentro de mim, as vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar, dentro de mim, a impossível palavra da verdade.
 
Deram-me o silêncio como uma palavra impossível, nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível, para eu guardar, dentro de mim, para eu ignorar, dentro de mim, a única palavra sem disfarce — a Palavra que nunca se profere.


Song with no words, tree with no leaves (David Crosby)


Poeta: uma criança em face do papel.
Poema: os jogos inocentes, invenções de menino aborrecido e só.
A pena joga com palavras ocas, atira-as ao ar a ver se ganha o jogo;
os dados caem: são o poema. Ganhou.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Patrick O'Hearn

Ligações
Moody Blues, John Lennon, David Crosby

Textos:
Adolfo Casais Monteiro

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012