Sons da Escrita 054

25 de Março de 2006

Terceiro programa do ciclo Adolfo Casais Monteiro

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Adolfo Casais Monteiro

Vem vento, varre (Adolfo Casais Monteiro)

Vem vento, varre sonhos e mortos.
Vem vento, varre medos e culpas.
Quer seja dia, quer faça treva, varre sem pena, leva adiante paz e sossego; leva contigo nocturnas preces, presságios fúnebres, pávidos rostos, só cobardia.
Que fique apenas, erecto e duro, o tronco estreme da raiz funda.
Leva a doçura, se for preciso: ao canto fundo, basta o que basta.
Vem vento, varre!


I talk to the wind (King Crimson) 

Said the straight man to the late man
Where have you been
I've been here and I've been there
And I've been in between.

I talk to the wind
My words are all carried away
I talk to the wind
The wind does not hear
The wind cannot hear.

I'm on the outside looking inside
What do I see
Much confusion, disillusion
All around me.

You don't possess me
Don't impress me
Just upset my mind
Can't instruct me or conduct me
Just use up my time

I talk to the wind
My words are all carried away
I talk to the wind
The wind does not hear
The wind cannot hear.

Adolfo Casais Monteiro

Ode ao Tejo e à memória de Álvaro de Campos.1 (Adolfo Casais Monteiro)

E aqui estou eu, ausente diante desta mesa — e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.
Passei e não me lembrei de voltar a cabeça, e saudá-lo deste canto da praça: "Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!"
Não, não olhei. Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado me lembrei que estavas aí, Tejo.
Passei e não te vi. Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!
Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa em que Fernando Pessoa se sentava contigo e os outros invisíveis à sua volta, inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.
Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo, tudo indiferença e falta de resposta.
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória, e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados, Tejo que não és da minha infância, mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável, majestade sem par nos monumentos dos homens, imagem muito minha do eterno, porque és real e tens forma, vida, ímpeto, porque tens vida, sobretudo, meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado...
Eu que me esqueci de te olhar.


Hey, you looking at the moon (Graham Nash)

Hey you (looking at the moon)
waiting for the stars to give you answers,
eating in your cars and building fences,
is this what we've come to?

Hey you, wailing by the wall,
hoping it'll fall in their direction,
you're waiting for another resurrection
is this what we've come to?
Tell me how come everything appears to be hazy,
there's nothing left to see
Tell me how come everyone appears to be crazy too

Well, maybe it's me there, shaking at the gate
can I bear the weight of all you borrow
you know it never comes, so pay back tomorrow.
How come if it ain't you, this is what we've come to?


Adolfo Casais Monteiro

Ode ao Tejo e à memória de Álvaro de Campos.2 (Adolfo Casais Monteiro)

O meu mal é não ser dos que trazem a beleza metida na algibeira e não precisam de olhar as coisas para as terem.
Quando não estás diante dos meus olhos, estás sempre longe.
Não te reduzi a uma ideia para trazer dentro da cabeça, e quando estás ausente, estás mesmo ausente dentro de mim.
Não tenho nada porque só amo o que é vivo, mas a minha pobreza é um grande abraço em que tudo é sempre virgem, porque quando o tenho, é concreto nos braços fechados sobre a posse.
Não tenho lugar para nenhum cemitério dentro de mim… é por isso que fiquei a pensar como era grave ter passado sem te olhar.


If I could change your mind (Alan Parsons Project/Lesley Duncan)

I prefer to spend my time in solitary ways
Keeping myself to myself
Can't pretend that it's been easy since you went away
Living with somebody else

If you should change your mind
If you should turn around and look behind
If you could see me the way I used to be
At the risk of bringing back the sorrow and despair
I would do it all again
Holding on to memories and pretending not to care
Knowing that the show was soon to end
If only I could change your mind
If only you would change
If I had the chance I'd do it all again
I would do it all again

I remember windy shores on menancholy days
Drifting along with the tide
And the joy of simple things and ordinary ways
Taking it all in my stride

If you should change your mind
If I could let you see what lies behind
If you could need me the way it used to be

Even for the moment of the happy times we shared
Living in my dreams since then
At the risk of losing only castles in the air
Come with me and we can try again
Oh, if I could change your mind

Can't pretend it's been lonely since you went away
Oh, if I could change your mind


Pelo que não fiz, perdão! 
Pelo tempo que vi, parado, correr chamando por mim, pelos enganos que talvez poupando me empobreceram, pelas esperanças que não tive e os sonhos que somente sonhando julguei viver, pelos olhares amortalhados na cinza de sóis que apaguei com riscos de quem já sabe, por todos os desvarios que nem cheguei a conceber, pelos risos, pelas lágrimas, pelos beijos e mais coisas, que sem dó de mim malogrei — por tudo, vida, perdão!


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Alan Parsons Project

Ligações
King Crimson, Graham Nash, Lesley Duncan

Textos:
Adolfo Casais Monteiro

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012