Sons da Escrita 307

3 de Dezembro de 2010

Primeiro programa do ciclo Afrânio do Amaral

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Afrânio do Amaral

Sim, escuto vozes

Sim,
escuto vozes,
vozes que me falam com uma língua que não se fala,
vozes que me dizem que diga o que não sei dizer,
vozes que me chegam desde mim,
que têm a ver com as coisas que não penso,
que não calculo,
vozes que não rejeita a minha alma,
que desejam gritar um grito apagado.

Sim,
escuto vozes que se vêem com os dedos,
com a boca,
com a capacidade de cheirar
e com nada disso.

Uma sinestesia determinada pela realidade oculta,
um paroxismo em que perco sensação e acção
exaltando os sentidos que me accionam,
ressonância de ecos imortais, eternos e inexplicáveis.

Sim,
escuto vozes que após um intervalo lúcido,
alteram o nível de consciência até ao assombro,
até um coma induzido que o descarta como traumatismo
e que faz a sinapse mais eficiente e verdadeira.

Sim,
escuto vozes que me levam a voar,
que me evitam ser somente um homem
e me transformam num arcanjo,
num espírito bem-aventurado
que oscila na vida que não sei se vivo
ou apenas escuto as vozes que falam de mim.

De qualquer modo,
sim,
escuto vozes
e elas são as vozes que tenho,
as vozes que me restam,
as vozes que dou na minha voz,
esta voz que talvez diga a poesia.


Soñé que tú me llevabas (Amancio Prada)

Soñé que tú me llevabas
por una blanca vereda,
en medio del campo verde,
hacia el azul de las sierras,
hacia los montes azules,
una mañana serena.
 Sentí tu mano en la mía,
tu mano de compañera,
tu voz de niña en mi oído
como una campana nueva,
como una campana virgen
de un alba de primavera.
¡Eran tu voz y tu mano,
en sueños, tan verdaderas!...
Vive, esperanza, ¡quién sabe
lo que se traga la tierra!


Afrânio do Amaral

Afrânio sabe que no nome que não tem

Afrânio sabe que no nome que não tem
cabem todas as letras do seu nome,
como cabe o rio da sua aldeia no seu leito.

No tempo em que a chuva
com seu monótono som nos telhados
adormece e acorda os aldeões,
é costume o rio transbordar,
mas ainda assim cabe o rio na terra
e a água sempre volta ao seu leito.

Quando sente demais
e o sentir lhe bate insistentemente na alma,
como a chuva no telhado,
transborda-se o nome de Afrânio
e com todas as letras estendidas sobre a terra,
entende transformar-se numa espécie de poeta.

Mas sempre volta ao leito o seu nome
e ele volta a respirar-se como um filho morto,
algo que nem ele mesmo entende,
e regressa a habitá-lo a sua própria inexistência.

Ele sabe que a sua vida é assim,
como sabe que a sua vida não o é,
como sabe que ninguém sabe
até onde vai o rio da sua aldeia.

Afrânio sente tudo isto,
enquanto adormece na sua cama,
escutando a chuva no telhado.


Starálfur (Sigur Rós)

(english lyrics)

Blue night over the sky
Blue night over me
Dis-appeared out of the window
Me with hands
Hidden under my cheek
I think about my day
Today and yesterday
I put on my blue nighties
Go straight to bed
I pull the soft covers over
Close my eyes
I hide my head under the covers
A little elf stares at me
Runs towards me but doesn’t move
From place - himself
A staring elf
I open my eyes
Take the crusts out
Stretch myself and check (if i haven’t)
Returned again and everything is okay
Still there is something missing
Like all the walls


Afrânio do Amaral

Afrânio acredita na poesia escura e na poesia da luz

Afrânio acredita na poesia escura e na poesia da luz.

Entre elas, sabe que há um mundo de matizes,
uma paleta de tonalidades que abrange todas as cores conhecidas
e ainda aquelas que estão por conhecer,
como as aparências dos dias que ele acha viver e as dos que vive.

Afrânio não é um teórico da poesia,
nada está mais longe de seu sentir que a estética,
a métrica, a economia da linguagem, a lírica,
a definição ou a estrutura.

Nos dias da cor do Outono,
quando as castanhas e as nozes são alimento,
e são cores e são poesia,
Afrânio vê que não há um fruto igual a outro,
vê que não é possível a sua análise para além do olhar,
do tacto, do gosto, do olfacto
e de todos os sentidos que vêm até ele quando os recolhe
e os saboreia.

Claro que Afrânio vive na sua aldeia
e não sabe nada de organolética, laboratórios
ou análises de características físico-químicas.

Ele sente sombras,
sente luzes,
sente claros-escuros
e sabe transparentemente
que a poesia está aí,
como os frutos do castanho Outono estão,
como estão seus dias,
todos os seus dias,
fugindo ele deles e eles dele,
como fogem de tudo o vento e a poesía

Afrânio sente tudo isto,
enquanto assa castanhas no fogo da lareira,
vê nele e nelas cores que não sabe decifrar,
e sente o vento fora , passando.


I talk to the wind (King Crimson)

Said the straight man to the late man
Where have you been
I've been here and I've been there
And I've been in between.

I talk to the wind
My words are all carried away
I talk to the wind
The wind does not hear
The wind cannot hear.

I'm on the outside looking inside
What do I see
Much confusion, disillusion
All around me.

You don't possess me
Don't impress me
Just upset my mind
Can't instruct me or conduct me
Just use up my time

I talk to the wind
My words are all carried away
I talk to the wind
The wind does not hear
The wind cannot hear.


Não direi que o que escrevo é o que mais sinto,
sou o colibri da palavra,
o que voa em marcha à ré.

Porque os sentimentos mais sentidos
sempre estão fora do cálice do alimento,
flutuando no ar que voo,
onde nunca a palavra chegará.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Roger Subirana, Maíre Breatnach

Ligações
Amancio Prada, Sigur Rós, King Crimson

Textos:
Afrânio do Amaral

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012