Sons da Escrita 309

17 de Dezembro de 2010

Terceiro programa do ciclo Afrânio do Amaral

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Afrânio do Amaral

Estou farto de medir o tempo

Estou farto de medir o tempo nos caramelos de cores,
dos laços feitos de fitas espalhados pelo mundo inteiro,
de gerir a vida como se a vida fosse a minha empresa,
da mecânica dos fluidos que explica o voo dos pássaros inexplicáveis.

Estou farto de tudo o que não escolhi,
de tudo o que me foi dado sem eu o querer receber,
farto da devoção fingida da bondade dos homens e mulheres bondosos,
dos sofismas tópicos,
dos eufemismos disfémicos,
das perífrases verbais onde a palavra não se faz carne.


I’m so tired (Beatles)

I'm so tired, I haven't slept a wink
I'm so tired, my mind is on the blink
I wonder should I get up and fix myself a drink
No,no,no.

I'm so tired I don't know what to do
I'm so tired my mind is set on you
I wonder should I call you but I know what you would do

You'd say I'm putting you on
But it's no joke, it's doing me harm
You know I can't sleep, I can't stop my brain
You know it's three weeks, I'm going insane
You know I'd give you everything I've got
for a little peace of mind

I'm so tired, I'm feeling so upset
Although I'm so tired I'll have another cigarette
And curse Sir Walter Raleigh
He was such a stupid get.

You'd say I'm putting you on
But it's no joke, it's doing me harm
You know I can't sleep, I can't stop my brain
You know it's three weeks, I'm going insane
You know I'd give you everything I've got
for a little peace of mind
I'd give you everything I've got for a little peace of mind
I'd give you everything I've got for a little peace of mind


Afrânio do Amaral

Tanto na escrita como no vivido

Tanto vivo na escrita como no vivido,
às vezes sinto que é o mesmo,
mesmo que não  seja.
Sinto-me vivo ao escrever,
escrevo o que vivo
e sei que não vivo enquanto escrevo.

Mas não posso negar o que sinto
e sinto em mim este peso da vida
e o peso de viver escrevendo
Tão vivo!


Como poderia explicar-te

Como poderia explicar-te,
que sou todos os aviões
e o aeroporto a que chegam,
para depois partir de mim,
levando-me?


Love will keep us alive (Eagles)

I was standing
All alone against the world outside
You were searching
For a place to hide

Lost and lonely
Now you've given me the will to survive
When we're hungry...love will keep us alive

Don't you worry
Sometimes you've just gotta let it ride
The world is changing
Right before your eyes
Now I've found you
There's no more emptiness inside
When we're hungry...love will keep us alive

I would die for you
Climb the highest mountain
Baby, there's nothing I wouldn't do

Now I've found you
There's no more emptiness inside
When we're hungry...love will keep us alive

I would die for you
Climb the highest mountain
Baby, there's nothing I wouldn't do

I was standing
All alone against the worl outside
You were searching
For a place to hide
Lost and lonely
Now you've given me the will to survive
When we're hungry...love will keep us alive


Afrânio do Amaral

Ninguém fala meu idioma

Ninguém fala meu idioma e somente eu o habito.
Minha identidade ressente-se disso,
porque apenas  eu me digo
porque só eu me escuto
e ainda não sei quem sou.

Vivo nesta suposta conjectura hipotética,
falando com todos de nada,
escutando nada de todos,
tão perfeitamente destinado a morrer como estes versos,
que só eu escrevo,
como se eu fora tu,
ou ao contrário.


If everyone was listening (Supertramp)

The actors and jesters are here
The stage is in darkness and clear
For raising the curtain
and no-one's quite certain whose play it is
How long ago, how long
If only we had listened then.
If we'd known just how right we were going to be.
For we dreamed a lot
And we schemed a lot
And we tried to sing of love before the stage fell apart.

If everyone was listening you know
There'd be a chance that we could save the show
Who'll be the last clown
To bring the house down?
Oh no, please no, don't let the curtain fall

Well, what is your costume today?
Who are the props in your play?
You're acting a part which you thought from the start
was an honest one.
Well how do you plead?
An actor indeed!
Go re-learn your lines,
You don't know what you've done
The finale's begun.

If everyone was listening you know
There'd be a chance that we could save the show,
Who'll be the last clown
To bring the house down?
Oh no, please no, don't let the curtain fall.


A palavra flutuando no ar

A palavra flutuando no ar
e o vento soprado em silêncio,
o eco da minha voz vai-se afastar,
voando num espaço sem tempo.

Ao lugar donde partiram voltarão,
a palavra e a voz, lentamente,
mil ecos novamente chegarão
e voarão com o vento para sempre.

Seja, pois, aquilo que há-de ser,
aquilo que foi, o que está sendo
e que volte a palavra a nascer
e retorne minha voz ao seu silêncio.

Que os poetas digam o que outros calam,
que nunca calem o que digam outros,
que voem as palavras que os embalam,
que a sua voz grite o silêncio dos mortos.

A palavra flutuando no ar
e o vento soprando em silêncio,
sempre há uma porta a espreitar,
por onde tudo o que há dentro há-de escapar
e que se volta a fechar com tudo dentro.


Floating (Julee Cruise)

When you told your secret name
I burst in flame and burned
I’m floating
Love has set our hearts aflame
Burn like the sun
We’re floating as one...

Floating
Floating
Floating with you.

Ever since you kissed my eyes
I find myself alive
I’m floating
Ever since I held your face
I soar through space,
I’m floating with you...

Floating
Floating
Floating with you.

Why don’t you come over to my house?
Please...

Love has set our hearts aflame
Burn like the sun
We’re floating as one...

Floating
Floating
Floating with you.


Escrevo com uma profundidade superficial.

A tinta afunda-se e entranha-se no papel,
mas só para além dele pode ser lida.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Quantic, George Davidson, Maya Filipic, Dan Gibson

Ligações
Beatles, Eagles, Supertramp, Julee Cruse

Textos:
Afrânio do Amaral

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012