Sons da Escrita 299

8 de Outubro de 2010

Terceiro programa do ciclo Agostinho da Silva

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Agostinho da Silva

Portugal foi formado na beira de um oceano

Portugal foi formado na beira de um Oceano, não nas margens do Danúbio ou nas escuras florestas góticas da Escandinávia ou nas cinzentas colinas dos Países Baixos. A viva luz ambiente, a pressão
por vezes esmagadora
imposta pela presença de uma imensa e turbulenta massa oceânica imprimiu desde cedo um carácter muito especial aos povos que foram chegando a este extremo europeu, que aqui se foram mesclando, camada após camada, até enformarem aquilo que hoje conhecemos como o “português” e que espalhando-se pelo mundo fora, haveria de botar sementes de Lusofonia no Brasil, em África e na Oceânia que ainda hão de frutificar e unir
nesse carácter aventureiro comum
todos estes povos dispersos pela geografia e pelos acasos da Historia.
Foi a paixão pela aventura, que nunca existiu num formato tão essencial e absoluto em nenhum outro povo além, talvez, excepto, nos gregos e nos fenícios, de que a portugalidade é plena herdeira, quer geneticamente, quer em termos de temperamento e alma. Se holandeses, ingleses e alemães se bastam e satisfazem como formiguinhas metódicas e organizadas, o português aborrece-se de morte nessas tarefas contabilistas e contadoras e sonha com mares abertos, com aventuras em terras distantes e feitos únicos. Por isso, um país tão pequeno conseguiu colonizar um país continente tão extenso e diverso como o Brasil, por isso o regime de Salazar fez tudo quanto pôde para travar os fluxos migratórios para África, por isso a emigração portuguesa foi sempre tão intensa ao longo de tantas décadas (e por isso mesmo regressa agora em plena força). O português não se fez para viver em Portugal. O português é acima de tudo um cidadão do mundo, fiel à aventura do Descobrimento e do Desbravamento e sonhando com novos mares e terras renovadas. Quando tentaram fazer de nós um “país europeu” entrámos em longa depressão colectiva numa Europa de germânicos e eslavos com quem não nos identificamos nem na alma profunda, nem no temperamento superficial. Os nossos irmãos mediterrâneos, espanhóis, italianos e gregos comungam connosco deste sentido sentimento de inferioridade em relação aos Senhores do norte da Europa, mas não têm a força anímica que já revelámos ter, resistindo a duas perdas de independência e mantendo as fronteiras mais estáveis de todo o continente.
Portugal tem a missão e o dever históricos de liderar os povos mediterrâneos, da margem nortenha deste mar, até um ponto comum, que os separe dos povos do norte que sempre cobiçaram os seus Estados e solarengas paragens, que os afaste para as escuras e húmidas florestas do norte e que refundem em torno dos conceitos mediterrâneos de “vida conversável” e aventura empolgante as formas de vida que os neo-germânicos tornaram em contabilidade e aforramento financeiro. O Homem mediterrâneo não foi formado para contar e somar, o mediterrâneo, de onde brota em primeira linha o português e através dele, o lusófono, fez se para viver e contar o que viveu, não para somar o número de pregos que usou na sua caravela, nem os quilos de pimenta que embarcou em Cochim. Foi quando o passámos a fazer que desenhámos o fim de Portugal e preparámos
séculos depois
a adesão a uma Comunidade europeia com a qual nada temos a ver.


Aegian sea (Aphrodite’s Child)

I saw the souls
I saw the martyrs
I heared them crying
I heard them shouting
They were dressed in white
they've been told to wait 

The sun was black
the moon was red
the stars were falling
the earth has trembling 

And then a crowd impossible to number
Dressed in white
carrying palms
shouted amid
the hotless sun
the lightless moon
the windless earth
the colourless sky ... 

They'll no more suffer from hunger
they'll no more suffer from thirst
They'll no more suffer from hunger
they'll no more suffer from thirst
They'll no more suffer from hunger
they'll no more suffer from thirst


Agostinho da Silva

O povo culto

Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem; dos que se mantêm sempre vigilantes em defesa dos oprimidos não porque tenham este ou aquele credo político, mas por isso mesmo, porque são oprimidos e neles se quebram as leis da Humanidade e da razão; dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, não também porque saem de um dos campos em luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo defendem o direito de pensar e de ser digno.


Dignity (Deep Forest)

Pull the sword from the sheath
Place the wreath beneath the tree of life
Honor in the dust the final thrust
In which the trust once thrived
Now dies


Pull the sword from the sheath
Place the wreath beneath the tree of life
Honor in the dust the final thrust
In which the trust once thrived
Now dies

Honor in the dust the final thrust
In which the trust once thrived
Now dies

Lift your head in prayer
Only if you dare
You can speak to your God
Hold him in your heart
Roots in the ground
Winding down around the feet of time
Poverty and pain
The ball and chain tradition claims the right
Honor in the dust the final thrust in which the trust has died
Lift your head in prayer
Only if you dare
You can speak to your God
Hold him in your heart


Agostinho da Silva

Tolerância às opiniões

Para que os homens possam sentir-se felizes com a minha companhia, é necessário antes de tudo que eu tenha a grande força de ver como prováveis as opiniões a que aderiram, desde que as não venham contradizer os factos que posso observar; não devo supor-me infalível; não devo considerar-me a inteligência superior e única entre o bando de pobres seres incapazes de pensar; cumpre-me abafar todo o ímpeto que possa haver dentro de mim para lhes restringir o direito de pensarem e de exprimirem, como souberem e quiserem, os resultados a que puderam chegar; de outro modo, nada mais faria do que contribuir para matar o universo: porque ele só vive da vida que lhe insufla o pensamento poderoso e livre.


When you’re a free man (Moody Blues)

Time... quickly passes by
If only we could talk again
Someday I know I'll see you smiling
When you're a free man again

High... on a mountain side
We laughed and talked of things to come
Someway I know I'll see you shining
When we're all free men again

You left your country for peace of mind
And something tells me you're doin' alright
How are the children and Rosemarie
I long to see you
And be in your company

Someday I know I'll see you smiling
When you're a free man again
I often wonder why
Our world has gone so far astray
Someway I know I'll see you shining
When we're all free men again

You gave love freely to those with tears
Your eyes were sad then you saw the need
You know that love lasts for eternity
Let's be God's children
And live in perfect peace
Peace perfect peace
Perfect peace
Peace
Someway I know I'll see you shining
When you're a free man
When we're all free men again

When you're a free man


Realização e êxtase

Conviria distinguir bem um do outro o caminho para o êxtase e o próprio êxtase; o primeiro ainda pode ter algum interesse por todas as lutas interiores, por todas as incertezas, por todo o esforço de pensar amplamente a que em geral dá origem; no entanto já nele mesmo poderíamos ver, além de uma preocupação egoísta, uma alternativa de esperança e desespero, um gosto da revelação e dos auxílios sobrenaturais que não poderão talvez classificar-se como superiores.
Do êxtase, porém, não alimentamos grandes desejos; o amor que nele descobrimos não pertence à categoria do amor que mais nos interessa — o que eleva o amado acima de si próprio, o que se esforça por esculpir uma alma com entusiasmo e paciência; é um amor a que se chega como recompensa de tarefa cumprida; não marca as delícias do caminho difícil, apaga-as da memória; faz desaparecer do peito do homem o seu único motivo de alegria, a sua única fonte de verdadeira glória.
Viver interessa mais que ter vivido; e a vida só é vida real quando sentimos fora de nós alguma coisa de diferente; se a diferença se tornar oposição, se o que era caminho diverso se transformar em muro de rocha, então no duelo que se trava, no instável equilíbrio que a cada momento se pode romper e precipitar-nos das alturas, nesta batalha em que não há um minuto de rancor pelo adversário, encontraremos a grande e forte vida; ora o êxtase consiste realmente no apagar das distinções, na identificação perfeita de dois termos.


You and I (Queen)

Music is playing in the darkness
And a lantern goes swinging by
Shadows flickering my heart's jittering
Just you and I
Not tonight come tomorrow
When ev'rything's sunny and bright (sunny and bright)
No no no come tomorrow 'cause then
We'll be waiting for moonlight

We'll go walking in the moonlight
Walking in the moonlight
Laughter ringing in the darkness
People drinking for days gone by
Time don't mean a thing
When you're by my side
Please stay awhile

You know I never could forsee the future years
You know I never could see
Where life was leading me
But will we be together forever?
What will be my love?
Can't you see that I just don't know

No not tonight not tomorrow
Ev'rything's gonna be alright (sunny and bright)
Wait and see if tomorrow we'll be
As happy as we're feeling tonight
We'll go walking in the moonlight (we'll be happy)
Walking in the moonlight

I can hear the music in the darkness
Floating softly to where we lie
No more questions now
Let's enjoy tonight
(Just you and I) just you and I
Just you and I
Can't you see that we've gotta be together
Be together just you and I just you and I
No more questions just you and I


Nem verdade nem mentira
uma coisa assim assim
e se queres saber mais
não mo perguntes a mim.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Dan Gibson

Ligações
Aphrodite’s Child, Deep Forest, Moody Blues, Queen

Textos:
Agostinho da Silva

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012