Sons da Escrita 068

24 de Junho de 2006

Segundo programa do ciclo Al Berto

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Al Berto

Enquanto falavas (Al Berto)

Enquanto falavas de um mar
derramei sobre o peito os escombros da casa
reconheci-te nos alicerces devorados pelas raízes das palmeiras
na sombra da ave deslizando junto à parede
no foco de luz rompendo o tijolo onde estivera a chaminé
vivemos aqui com o ruído dum cano ressumando água
até que o frio nos fez abandonar o lugar e o amor
não sei para onde foste morrer
eu continuo aqui... escrevo
alheio ao ódio e às variações do gosto e da simpatia
continuo a construir o relâmpago das palavras
que te farão regressar... ao anoitecer
há uma sensação de aves do outro lado das portas
os corpos caídos
a vida toda destinada à demolição
tento perder a memória
única tarefa que tem a ver com a eternidade
de resto... creio que nunca ali estivemos
e nada disto provavelmente se passou aqui


Talk to me while I'm listening (Frances Black) 

I should have known that you were gone back in Germany
You told me in the dark while I was sleeping
Then you slept through the sunrise
As it washed across your face
And all that I had heard were our hearts beating

Talk to me while I'm listening
While this love has a voice that we both
Can hear
Before you let it go...
The greatest love I've ever known
Won't you please
Talk to me
While I'm listening 

I cannot find a place to put this love away
Or lose the thought of sunlight on your face
I thought I heard your voice
Say I love you today
But it was only the sound of my heart breaking

How I wish that I could take us back to Germany
I would stay awake and you would talk to me
Yet for every drop of rain I hear
There's bound to fall another tear
Upon this page of song of my heart aching

Before you let it go...
This greatest love I've ever known
Won't you please
Talk to me
While I'm listening
Talk to me
Talk to me


Al Berto

Os amigos (Al Berto)

no regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias
tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite
prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-se de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume
ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em retoma e resignada ausência


Old friends (Simon & Garfunkel)

Old friends, old friends,
Sat on their parkbench like bookends
A newspaper blown through the grass
Falls on the round toes
of the high shoes of the old friends

Old friends, winter companions, the old men
Lost in their overcoats, waiting for the sunset
The sounds of the city sifting through trees
Settle like dust on the shoulders of the old friends

Can you imagine us years from today,
Sharing a parkbench quietly
How terribly strange to be seventy

Old friends, memory brushes the same years,
Silently sharing the same fears


Al Berto

O silêncio tem (Al Berto)

o silêncio tem a espessura das papoulas murchas
e os objectos parecem aproximar-se do sono
inclinam-se para o lado onde se situam os moinhos as ermidas os bosques diluídos
o nítido ladrar dos cães
que horas serão para lá desta fotografia?
  


com uma grande angular circundo o mosteiro ao morrer do dia
perto dos jardins cheira a laranjas orvalhadas na tua respiração
tenho uma iluminação de astros rebentando do arco-íris da noite
quando abro o diafragma todo para as linhas oblíquas do rosto em telha quase rubra
 
o dia desaguou ao fundo das ruas desertas
apresso o passo debaixo do voo das aves
recolho o olhar
onde um fauno vem beber a nocturna nudez das aves


Silence is golden (Brian Poole & The Tremeloes)

Oh, don't it hurt deep inside
To see someone do something to her
Oh, don't it pain to see someone cry
Oh, especially when someone is her

Silence is golden, but my eyes still see
Silence is golden, golden
But my eyes still see

Talking is cheap, people follow like sheep
Even though there is nowhere to go
How could she tell, he deceived her so well
Pity, she'll be the last one to know

Silence is golden, but my eyes still see
Silence is golden, golden
But my eyes still see

How many times will she fall for his line
Should I tell her or should I keep cool?
And if I tried, I know she'd say I lied
Mind your business, don't hurt her, you fool

Silence is golden, but my eyes still see
Silence is golden, golden
But my eyes still see


desprende-se do teu olhar o magnífico abandono dos animais adormecidos
recordo tuas mãos gretadas pelos sóis oblíquos destes dias
do corpo esquecido jorram resinas
retenho ainda os mais íntimos desejos de me confundir com a paisagem
ou de viver precariamente no outro lado do seu silêncio enrubescido


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
David Lanz

Ligações
Mark Knopfler, Frances Black, Simon & Garfunkel, Brian Poole & The Tremeloes

Textos:
Al Berto

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012