Sons da Escrita 069

1 de Julho de 2006

Terceiro programa do ciclo Al Berto

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Al Berto

Que longevidade (Al Berto)

que longevidade terá a morte das aves no âmbar da noite?
e os passos envenenados de quem fere as palavras?
que horas serão para lá desta precária sílaba?
ouço a voz estonteante dos guardadores de fogos
a suave fala de marítimas estrelas... a lua rente à parede
a fuligem da memória... o susto
nada me ensinaram
e no entanto aprendi a viver com este zumbido no coração
nada me contaram
mas suspeito que continuarei sozinho até ao fim
nada me disseram
tenho 35 anos... ainda bem que voltaste!
não
não tenho fome... repara
a noite insinua-se na pele e dilui a loucura
calemo-nos um instante
o susto cresce
da tua voz de ontem no gravador


The voice (Alan Parsons Project) 

It's almost a feeling you can touch in the air
You look all around you but nobody's there
It's been a long time now since you've been aware
That someone is watching you (he's gonna get you)

Sooner or later when your big chances come
You'll look for the catches but there will be none
Remember before you grab the money and run
That someone is watching you (he's gonna get you)

Before you run and hide
He's gonna get you
You got no choice
Because you can't escape the voice

Jumping at shadows that come up from behind
Scared of the darkness that's there in your mind
You're frightened to move because of what you might find
That someone is watching you (he's gonna get you)

Before you run and hide
He's gonna get you
You got no choice
Because you can't escape the voice


Al Berto

Se um dia (Al Berto)

se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida
sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor
depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo
mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar morro de aflição


Sometimes when I'm dreaming (Art Garfunkel)

All the friends I believed in
I believed in for a while
They had their flair
They had their style
But nobody quite got it right
Nobody knew just how it feels to dream
Dream...

But sometimes when I'm dreaming
And I dream a lot these days
I need someone who understands
Who leads me through the haze
It's only when I'm dreaming
That I fall in love for real
But I wake up screaming
Sometimes when I'm dreaming

And it's now that I need a friend
I reach out for the phone
Nobody's there, nobody's home
Though it may not be right to give up the fight
I'm sailing away
Now I'm on my own
Alone...


Al Berto

Hoje à noite avistei (Al Berto)

hoje à noite avistei sobre a folha de papel
o dragão em celulóide da infância
escuro como o interior polposo das cerejas
antigo como a insónia dos meus trinta e cinco anos
dantes eu conseguia esconder-me nas paisagens
podia beber a humidade aérea do musgo
derramar sangue nos dedos magoados
foi há muito tempo
quando corria pelas ruas sem saber ler nem escrever
o mundo reduzia-se a um berlinde e
as mãos eram pequenas
desvendavam os nocturnos segredos dos pinhais
não quero mais perceber as palavras nem os corpos
deixou de me pertencer o choro longínquo das pedras
prossigo o caminho com estes ossos cor de malva
som a som o vegetal silêncio sílaba a sílaba o abandono
desta obra que fica por construir... o receio
de abrir os olhos e as rosas não estarem onde as sonhei
e o teu rosto ter desaparecido no fundo do mar
ficou-me esta mão com a sua sombra de terra
sobre o papel branco... como é louca esta mão
tentando aparar a tristeza antiga das lágrimas


The tracks of my tears (Justin Hayward)

People say I'm the life of the party
Cause I tell a joke or two
Although I might be laughing loud and hearty
Deep inside I'm blue

So take a good look at my face
You'll see my smile looks out of place
Just look closer, it's easy to trace
The tracks of my tears

Since you left me if you see me with another girl
Seeming like I'm having fun
Although she may be cute she's just a substitute
'Cause you're the permanent one

So take a good look at my face
You'll see my smile looks out of place
Just look closer, it's easy to trace
The tracks of my tears

Outside, I'm masquerading
Inside, my hope is fading
Just a clown, oh yeah since you put me down
My smile is my make-up I wear since my break-up with you

So take a good look at my face
You'll see my smile looks out of place
Just look closer, it's easy to trace
The tracks of my tears


eis o espólio:
um papel embrulhando um pedaço de sabonete.
uns óculos de sol
dois lenços sujos de esperma
uma nota de cem escudos com uma morada escrita
um berlinde
duas canetas de tinta permanente
cinco lâminas de barbear
uma página de livro rasgada
uma faca
um bilhete postal


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
New American Orchestra

Ligações
Alan Parsons Project, Art Garfunkel, Justin Hayward

Textos:
Al Berto

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012