Sons da Escrita 091

1 de Dezembro de 2006

Primeiro programa do ciclo Albert Camus

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Albert Camus

O estrangeiro.1 (Albert Camus)

Caminhamos ao encontro do amor e do desejo. Não buscamos lições, nem a amarga filosofia que se exige da grandeza. Além do sol, dos beijos e dos perfumes selvagens, tudo o mais nos parece fútil. Quanto a mim, não procuro estar sozinho nesse lugar. Muitas vezes estive aqui com aqueles que amava, e discernia nos seus traços o claro sorriso que neles tomava a face do amor. Deixo a outros a ordem e a medida. Domina-me por completo a grande libertinagem da natureza e do mar.
Aqui, compreendo o que se denomina glória: o direito de amar sem medida.
Existe apenas um único amor neste mundo: estreitar um corpo de mulher e também reter de encontro a si essa alegria estranha que desce do céu para o mar. Daqui a pouco, quando me atirar no meio dos absintos, a fim de que o seu perfume penetre o meu corpo, terei consciência, contra todos os preconceitos, de estar a realizar uma verdade que é a do sol e que será também a da minha morte.
Em certo sentido, é justamente a minha vida que estou a representar aqui, uma vida com sabor de pedra quente, repleta de suspiros do mar e de cigarras, que agora começam a cantar. A brisa é fresca e o céu, azul. Gosto imensamente desta vida e desejo falar sobre ela com liberdade: dá-me o orgulho da minha condição de homem.
Sobre o mar, o silêncio enorme do meio-dia. Todo o ser belo tem o orgulho natural da sua beleza, e o mundo, hoje, deixa o seu orgulho destilar por todos os poros. Diante dele, por que haveria de negar a alegria de viver, se conheço a maneira de não encerrar tudo nessa mesma alegria de viver?
Não há vergonha alguma em querer ser feliz.


Happiness is a warm gun (Beatles) 

She's not a girl who misses much
Do do do do do do- oh yeah!
She's well acquainted with the touch of the velvet hand
Like a lizard on a window pane

The man in the crowd with the multicoloured mirrors
On his hobnail boots
Lying with his eyes while his hands are busy
Working overtime
A soap impression of his wife which he ate
And donated to the National Trust

I need a fix 'cause I'm going down
Down to the bits that I left uptown
I need a fix cause I'm going down
Mother Superior jumped the gun
Mother Superior jumped the gun
Mother Superior jumped the gun
Mother Superior jumped the gun

Happiness is a warm gun
Happiness is a warm gun, momma
When I hold you in my arms
And I feel my finger on your trigger
I know nobody can do me no harm
Because happiness is a warm gun, momma
Happiness is a warm gun
-Yes it is.
Happiness is a warm, yes it is...
Gun!
Well don't ya know that happiness is a warm gun, momma?


Albert Camus

O estrangeiro.2 (Albert Camus)

Há um tempo para viver e um tempo para testemunhar a vida. Os deuses resplandecentes do dia retornarão à sua morte quotidiana. Mas outros deuses virão. E então, para serem mais sombrias, as suas faces devastadas nascerão no coração da terra.
Penso agora em flores, sorrisos, desejo de mulher, e compreendo que todo o meu horror de morrer está contido no meu ciúme da vida. Sinto ciúmes daqueles que virão e para os quais as flores e o desejo de mulher terão todo o seu sentido de carne e de sangue.
Sou invejoso porque amo demais a vida para não ser egoísta… Quero suportar a minha lucidez até ao fim e contemplar a minha morte com toda a exuberância do meu ciúme e do meu horror.

As luzes da rua acenderam-se bruscamente e fizeram empalidecer as primeiras estrelas que subiam na noite. Senti os olhos cansarem-se, de tanto olhar as calçadas, com a sua carga de homens e de luzes.
Penso que nunca se muda de vida; que, em todo caso, todas se equivalem, e que a minha não me desagradava em absoluto.
Nunca consegui arrepender-me verdadeiramente de nada. Assaltam-me as lembranças de uma vida que já não me pertence, mas onde encontro as mais pobres e as mais tenazes das minhas alegrias: cheiros de verão, o bairro que eu amava, um certo céu de entardecer, o sorriso de uma mulher.
A minha mãe costumava dizer que nunca se é completamente infeliz.


The pursuit of happiness (Procol Harum)

One into one won't go
Two out of three don't know
Time and tide in man's affairs
Trouble always comes in pairs
Wonder where the picture went?
What we got ain't worth a cent
What we got ain't worth a damn
Someone's screwed the master plan 

The pursuit of happiness
It's a common goal
The pursuit of happiness
Doing what we're told
The pursuit of happiness
To the very end
It goes 'round and 'round and 'round and 'round again 

Bite the bullet in the dust
Got to take their word on thrust
No use counting down your prayers
All God's children running scared
No use howling at the moon
Planet Earth is going soon
Starving children stand on line
Living now on borrowed time 

The pursuit of happiness
It's a common goal
The pursuit of happiness
Doing what we're told
The pursuit of happiness
To the very end
It goes 'round and 'round and 'round and 'round again


Albert Camus

O estrangeiro.3 (Albert Camus)

Todos sabem que a vida não vale a pena ser vivida.

— Não tem, então, nenhuma esperança e consegue viver com o pensamento de que vai morrer todo por inteiro?
— Sim — respondi.
— Não, não consigo acreditar. Tenho a certeza de que já lhe ocorreu desejar uma outra vida.
Respondi-lhe que era natural, mas que isso era tão importante quanto desejar ser rico, nadar muito depressa ou ter uma boca mais bem feita. Era da mesma ordem. Mas ele deteve-me e quis saber como imaginava eu essa outra vida. Então gritei:
— Uma vida na qual me pudesse lembrar desta vida.

Do fundo do meu futuro, durante toda esta vida absurda que levo, sobe até mim, através dos anos que ainda não chegaram, um sopro obscuro, e esse sopro iguala, à sua passagem, tudo o que me propuseram nos anos, não mais reais, que eu vivia.

Tudo quanto eu fazia de inútil neste lugar subiu-me, então, à garganta e só tive uma pressa: acabar com isto e voltar à minha cela, para dormir. Mal ouvi o advogado clamar, para concluir, que os jurados não gostariam certamente de condenar à morte um trabalhador honesto, perdido por um minuto de desvario; e pedir as circunstâncias atenuantes para um crime cujo remorso eterno, o mais seguro dos castigos, eu já arrastava comigo.

Reencontrei a calma, depois que ele partiu. Estava esgotado. Atirei-me sobre o leito. Acho que dormi, pois acordei com estrelas sobre o rosto. Subiam, até mim, os ruídos do campo. Aromas de noite, de terra e de sol refrescavam-me as têmporas. A paz maravilhosa deste verão adormecido entrava em mim como uma maré. Neste momento, e no limite da noite, soaram sirenes. Anunciavam partidas para um mundo que me era para sempre indiferente.

Também eu me sinto pronto a reviver tudo. Como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abro-me, pela primeira vez, à tenra indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que fui feliz e que ainda o sou.


I'm so happy I can't stop crying (Sting)

Seven weeks have passed now since she left me
She shows her face to ask me how I am
She says the kids are fine and that they miss me
Maybe I could come and baby-sit sometime
She says, "Are you O.K.? I was worried about you
Can you forgive me? I hope that you'll be happy."
I'm so happy that I can't stop crying
I'm so happy I'm laughing through my tears

I saw a friend of mine
He said, "I was worried about you
I heard she had another man,
I wondered how you felt about it?"
I'm so happy that I can't stop crying

Saw my lawyer, Mr Good News
He got me joint custody and legal separation
I'm so happy that I can't stop crying
I'm laughing through my tears
I'm laughing through my tears

I took a walk alone last night
I looked up at the stars
To try and find an answer in my life
I chose a star for me
I chose a star for him
I chose two stars for my kids and one star for my wife
Something made me smile
Something seemed to ease the pain
Something about the universe and how it's all connected

The park is full of Sunday fathers and melted ice cream
We try to do the best within the given time
A kid should be with his mother
Everybody knows that
What can a father do but baby-sit sometimes?
I saw that friend of mine, he said,
"You look different somehow"
I said, "Everybody's got to leave the darkness sometime"
I'm so happy that I can't stop crying
I'm laughing through my tears


Todo o problema, ainda uma vez, estava em matar o tempo. Acabei por não me entediar mais, a partir do instante em que aprendi a recordar.
Compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem dificuldade passar cem anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Mark Knopfler

Ligações
Beatles, Procol Harum, Sting

Textos:
Albert Camus

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012