Sons da Escrita 092

8 de Dezembro de 2006

Segundo programa do ciclo Albert Camus

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Albert Camus

O mito de Sísifo.1 (Albert Camus)

Os deuses tinham condenado Sísifo a empurrar sem descanso um rochedo até ao cume de uma montanha, de onde ele caía de novo, em consequência do seu peso. Tinham pensado, com alguma razão, que não há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.
A acreditar em Homero, Sísifo era o mais ajuizado e o mais prudente dos mortais. No entanto, segundo outra tradição, tinha tendências para a profissão de bandido. Não vejo nisto a menor contradição. As opiniões diferem sobre os motivos que lhe valeram ser o trabalhador Inútil dos Infernos. Censura-se-lhe, de início, certa leviandade para com os deuses, pois revelou os segredos deles. Egina, filha de Ásopo, foi raptada por Júpiter. O pai espantou-se com esse desaparecimento e queixou-se dele a Sísifo. Este, que estava ao corrente do rapto, propôs a Ásopo contar-lhe o que sabia, com a condição de ele dar água à cidadela de Carinto. Aos raios celestes, preferiu a bênção da água. Por tal, foi castigado nos Infernos. Homero conta-nos também que Sísifo havia acorrentado a Morte. Plutão não pôde suportar o espectáculo do seu Império deserto e silencioso e enviou o deus da guerra, que soltou a Morte das mãos do seu vencedor.
Diz-se ainda que, estando Sísifo quase a morrer, quis, imprudentemente, pôr à prova o amor da sua mulher. Ordenou-lhe que lançasse o seu corpo, sem sepultura, para o meio da praça pública. Sísifo encontrou-se nos infernos. E aí, irritado com uma obediência tão contrária ao amor humano, obteve de Plutão licença para voltar à terra e castigar a mulher. Mas, quando viu de novo o rosto deste mundo, sentiu inebriadamente a água e o sol, as pedras quentes e o mar, não quis regressar à sombra infernal. Os chamamentos, as cóleras e os avisos de nada serviram. Ainda viveu muitos anos diante da curva do golfo, do mar resplandecente e dos sorrisos da terra. Foi necessário uma ordem dos deuses. Mercúrio veio pegar no audacioso pela gola e, roubando-o às alegrias, levou-o à força para os infernos, onde o seu rochedo já estava pronto.
Todos compreendem, que Sísifo é o herói absurdo. É-o tanto pelas suas paixões como pelo seu tormento. O seu desprezo pelos deuses, o seu ódio à morte e a sua paixão pela vida valeram-lhe esse suplício indizível em que o seu ser se emprega em nada terminar. É o preço que é necessário pagar pelas paixões desta terra. Não nos dizem nada sobre Sísifo nos Infernos. Os mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste, vê-se simplesmente todo o esforço de um corpo tenso, que se esforça por erguer a enorme pedra, rolá-la e ajudá-la a levar a cabo uma subida cem vezes recomeçada; vê-se o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro de um ombro que recebe o choque dessa massa coberta de barro, de um pé que a escora, os braços que de novo empurram, a segurança bem humana de duas mãos cheias de terra. No termo desse longo esforço, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, a finalidade está atingida e Sísifo vê então a pedra resvalar em poucos instantes para esse mundo inferior de onde será preciso trazê-la de novo para os cimos. E, então, desce outra vez à planície.
É durante este regresso, esta pausa, que Sísifo me interessa. Um rosto que sofre tão perto das pedras já é, ele próprio, pedra! Vejo esse homem descer outra vez, com um andar pesado mais igual para o tormento, cujo fim nunca conhecerá. Essa hora que é como uma respiração e que regressa com tanta certeza como a sua desgraça, essa hora é a hora da consciência. Nesses instantes em que ele abandona os cumes e se enterra a pouco e pouco nos covis dos deuses, Sísifo é superior ao seu destino. É mais forte do que o seu rochedo. E se este mito é trágico, é porque o seu herói é consciente. Onde estaria, com efeito, a sua tortura se a cada passo a esperança de conseguir o ajudasse? O operário de hoje trabalha todos os dias da sua vida nas mesmas tarefas, e esse destino não é menos absurdo. Mas só é trágico nos raros momentos em que ele se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão da sua miserável condição: é nela que ele pensa durante a sua descida. A clarividência que devia fazer o seu tormento consome, ao mesmo tempo, a sua vitória. Não há destino que não se transcenda pelo desprezo.


The climb (No Doubt) 

Step by step I come closer to reaching the top
Every step must be placed so that I don't fall off
Looking down to see about how much higher I am
Another cool wind comes through, brushes my skin
The harder I pust the tension does grow
I gather my thoughts the further and further I go
With some luck I just might keep on climbing
So better to climb than to face a fall

So high the climb
Can't turn back now
Must keep climbing up to the clouds
So high the climb
Can't turn back now
Must keep climbing up to the clouds

Pulling myself up by a rop I better my view
The only thing in sight is what I must do
As I turned I could see myself falling
Which in return gave me strength for the climb

Although many failed
I must now prevail with no question
Have no time to stop
Onward to the top of the mountain
And I can't turn back now
It's so very high but I can't turn back now
If I keep it up, I'm gonna make it
I'm so very close can't you see


Albert Camus

O mito de Sísifo.2 (Albert Camus)

Se a descida se faz assim na dor, em certos dias, pode também fazer-se na alegria e esta palavra não é demais. Ainda imagino Sísifo voltando para o seu rochedo, e a dor estava no começo. Quando as imagens da terra se apegam de mais à lembrança, quando o chamamento da felicidade se torna demasiado premente, acontece que a tristeza se ergue no coração do homem: é a vitória do rochedo, é o próprio rochedo. O imenso infortúnio é pesado de mais para se poder carregar. São as nossas noites de Gethsemani. Mas as verdades esmagadoras morrem quando são reconhecidas. Assim, Édipo obedece de início ao destino, sem o saber. A partir do momento em que sabe, a sua tragédia começa. Mas no mesmo instante, cego e desesperado, ele reconhece que o único elo que o prende ao mundo é a mão fresca de uma jovem. Uma frase desmedida ressoa então: “Apesar de tantas provações, a minha idade avançada e a grandeza da minha alma fazem-me achar que tudo está bem”. O Édipo de Sófocles, como o Kirilov de Dostoievsky, dá assim a fórmula da vitória absurda. A sabedoria antiga identifica-se com o heroísmo moderno.

Não descobrimos o absurdo sem nos sentirmos tentados a escrever um manual qualquer da felicidade.
“O quê, por caminhos tão estreitos?...”.
Mas só há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade.
“Acho que tudo está bem”, diz Édipo, e essa frase é sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do homem, ensina que nem tudo está perdido, que nem tudo foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfação e o gosto das dores Inúteis. Faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens. Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe. O seu rochedo é a sua coisa. Da mesma maneira, quando o homem absurdo contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. No universo subitamente entregue ao seu silêncio, erguem-se as mil vozinhas maravilhadas da terra. Chamamentos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não há sol sem sombras e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e o seu esforço nunca mais cessará. Se há um destino pessoal, não há destino superior ou, pelo menos, só há um que ele julga fatal e desprezível. Quanto ao resto, ele sabe-se senhor dos seus dias. Neste instante subtil em que o homem se volta para a sua vida, Sísifo, regressando ao seu rochedo, contempla essa sequência de acções sem elo que se torna o seu destino, criado por ele, unido sob o olhar da sua memória, e selado em breve pela sua morte. Assim, persuadido da origem bem humana de tudo o que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, está sempre em marcha. O rochedo ainda rola.


I missed again (Phil Collins)

So you finally came right out and said it girl
What took you so long
It was in your eyes, that look's been there for far too long

I'm waiting in line
Would you say if I was wasting my time
Did I miss again?
I think I missed again,
I think about it from time to time
When I'm lonely and on my own
I try to forget and yet,
still rush to the telephone

And I'm waiting in line
But would you say if I was wasting my time
Or did I miss again
I think I missed again,
Ohh I miss again,
I think I missed again.

Well it feels like something you want so bad
And then you think you've got it, but it's somethin’ you already had
And you can feel it all around you, but it's somethin’ you just can't touch,
And I can feel it coming at me
Yes I can feel it coming at me

Aaw, did I miss again?
I think I missed again,
Ohh I missed again
I think I missed again,

Seems I’m waiting in line, but would you say if I was wasting my time
Did I miss again?
I think I missed again
Ohh I missed again
I think I missed again,

Ohh I missed again
I think I missed again,
Ohh I missed again
I think I missed again.


Albert Camus

O mito de Sísifo.3 (Albert Camus)

Deixo Sísifo no sopé da montanha!
Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem.
Esse universo, enfim, sem dono, não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros, basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.

A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na história; o sol ensinou-me que a história não é tudo e que não há vergonha alguma em querer ser feliz.rença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que fui feliz e que ainda o sou.


The long and winding road (John Berry)

The long and winding road
That leads to your door
Will never disappear
I've seen that road before
It always leads me here
leads me to your door.

The wild and windy night
That the rain washed away
Has left a pool of tears
Crying for the day.
Why leave me standing here?
Let me know the way.

Many times I've been alone
And many times I've cried,
Anyway you'll never know
The many ways I've tried.

But still they lead me back
To the long, winding road
You left me standing here
A long, long time ago
Don't leave me waiting here
Lead me to your door.

But still they lead me back
To the long winding road
You left me standing here
A long, long time ago (ohhh)
Don't keep me waiting here
Lead me to your door.


Eu amo a vida, eis a minha verdadeira fraqueza.
Amo-a tanto, que não tenho nenhuma imaginação para o que não for vida.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Klauz Schulte

Ligações
No Doubt, Phil Collins, John Berry

Textos:
Albert Camus

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012