Sons da Escrita 093

15 de Dezembro de 2006

Terceiro programa do ciclo Albert Camus

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Albert Camus

Do mar bem perto (Albert Camus)

Cresci no mar e a pobreza foi-me faustosa; depois, quando perdi o mar, todos os luxos passaram a ter para mim aparência opaca e a miséria tornou-se intolerável.
Desde então, espero. Espero as naves do retorno, a morada das águas, o dia límpido. Aguardo pacientemente com todas as minhas forças muito bem brunidas.
Quando me vêem passar pelas ruas belas e sábias, admiro as paisagens, aplaudo como todo o mundo, dou a mão, mas não sou eu quem fala. Se recebo louvores, sonho um pouco; se me ofendem, espanto-me menos ainda. Depois, esqueço e sorrio a quem me ultraja ou então cumprimento com excessiva cortesia a quem estimo. Que fazer, se a minha memória existe, apenas para uma só imagem?
Por fim, sou intimado a dizer quem sou. Nada ainda, nada ainda…

É nos enterros que costumo superar-me. Na realidade, sobreponho-me a mim mesmo. Caminho com passo lento pelos arrabaldes floridos de ferros velhos, sigo por amplas ruas ajardinadas, plantadas de árvores de cimento e que conduzem aos buracos de terra fria. Ali, sob o penso de gaze levemente avermelhada do céu, olho com atenção companheiros corajosos sepultarem os meus amigos a três metros de profundidade.
Nesses momentos, a flor que me é entregue por uma mão qualquer, suja de barro, jamais erra o alvo da fossa, quando atirada por mim. Tenho a dose precisa de piedade, o exacto grau de emoção, a nuca convenientemente inclinada. Admiram-se de que as minhas palavras sejam justas. Porém, não tenho nenhum mérito: espero, apenas.

Espero há muito tempo. Por vezes, tropeço, perco a mão, deixo de acertar.
Isso pouco importa, estou só nesses momentos.
Assim, acordo no meio da noite e parece-me ouvir, ainda semi-adormecido, um barulho de ondas, movimento de águas a respirar. Totalmente desperto, reconheço o vento nas folhagens e o rumor infausto da cidade deserta. Quando isso ocorre, todas as artimanhas que possa empregar parecem-me ainda insuficientes para esconder a minha angústia ou vesti-la com as vestes da moda. 


Eternity road (Moody Blues) 

Hark listen here he comes
Hark listen here he comes
Turning, spinning, catherine wheeling
For ever changing
There's no beginning
Speeding through a charcoal sky
Observe the truth we cannot lie

Travelling eternity road
What will you find there?
Carrying your heavy load
Searching to find a peace of mind.

You'll see us all around
You'll see us all around
Turning, spinning, catherine wheeling
For ever changing
There's no beginning
You're so very far from home
And so very much alone

Travelling eternity road
What will you find there?
Carrying your heavy load
Searching to find a peace of mind.

Travelling eternity road
What will you find there?
Carrying your heavy load
Searching to find a peace of mind.


Albert Camus

O avesso e o direito.1 (Albert Camus)

Sei que a minha fonte está no avesso e no direito, nesse mundo de pobreza e de luz em que vivi durante tanto tempo, e cuja lembrança me preserva, ainda, dos dois perigos contrários que ameaçam todo o artista: o ressentimento e a satisfação.
A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e, na história, o sol ensinou-me que a história não é tudo. Mudar a vida, sim, mas não o mundo do qual eu fazia a minha divindade.
Assim foi, sem dúvida, que abordei essa carreira desconfortável em que me encontro, enfrentando com inocência uma corda bamba, na qual avanço com dificuldade, sem estar seguro de alcançar a outra ponta. Dito de outra maneira, tornei-me um artista, se é verdade que não há arte sem recusa nem consentimento.

Posso dizer, e vou dizê-lo daqui a pouco, que o que conta é ser humano e simples. Não! O que conta é ser verdadeiro, e, então, tudo se inscreve nisso: a humanidade e a simplicidade.
E, então, quando sou mais verdadeiro que quando estou no mundo? Sou presenteado antes de ser desejado. A eternidade está ali; e eu espero por ela. Agora, não desejo mais ser feliz, mas apenas estar consciente.


When you're a free man again (Moody Blues)

Time... quickly passes by
If only we could talk again
Someday I know I'll see you smiling
When you're a free man again

High... on a mountain side
We laughed and talked of things to come
Someway I know I'll see you shining
When we're all free men again

You left your country for peace of mind
And something tells me you're doin' alright
How are the children and Rosemarie
I long to see you
And be in your company

Someday I know I'll see you smiling
When you're a free man again
I often wonder why
Our world has gone so far astray
Someway I know I'll see you shining
When we're all free men again

You gave love freely to those with tears
Your eyes were sad then you saw the need
You know that love lasts for eternity
Let's be God's children
And live in perfect peace
Peace perfect peace
Perfect peace
Peace
Someway I know I'll see you shining
When you're a free man
When we're all free men again

When you're a free man


Albert Camus

O avesso e o direito.2 (Albert Camus)

Sei que, agora, vou escrever!
Chega um tempo em que a árvore, depois de ter sofrido muito, deve dar os seus frutos. Cada Inverno termina com uma Primavera. Preciso de testemunhar. Depois o ciclo recomeçará.
Apenas falarei do meu amor pela vida. Mas à minha maneira…
Outros escrevem por tentações opostas. E cada decepção das suas vidas dá azo a uma obra de arte, mentira urdida com a mentira das suas vidas. Mas os meus escritos sairão das minhas horas de felicidade. Mesmo naquilo que eles tiverem de cruel. Preciso de escrever, assim como preciso de respirar, porque o corpo mo exige.
Longe da questão fútil da imortalidade, aquilo que me interessa é, de facto, o nosso destino. Mas não “depois”, “antes”.


My song (Moody Blues)

I'm going to sing my song
And sing it all day long
A song that never ends
How can I tell you, all the things inside my head.

The change in these past years
Has made me see our world
In many different ways
How can I tell you, love can change our destiny.

Love can change the world
Love can change your life
Do what makes you happy
Do what you know is right
And love with all your might
Before it's too late

Where did I find all these words
Something inside of me is burning
There's life in other worlds
Maybe they'll come to earth
Helping man to find a way

One day I hope we'll be in perfect harmony
A planet with one mind
Then I could tell you
All the things inside my head

I'm going to sing my song
And sing it all day long
A song that never ends
How can I tell you, all the things inside my head.

I'm going to sing my song
A song that never ends…


— Você sabe o que é o encanto?
— Sei! É ouvir um sim como resposta, sem ter perguntado nada.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Suzanne Ciani

Ligações
Moody Blues

Textos:
Albert Camus

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012