Sons da Escrita 191

26 de Setembro de 2008

Primeiro programa do ciclo Alberto Caeiro

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Alberto Caeiro

Guardador de rebanhos IX (Alberto Caeiro)

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e com os pés
E com o nariz e com a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.


Count your blessing instead of sheep (Diana Krall)

When I'm worried and I can't sleep
I count my blessing instead of sheep
And I fall asleep, counting my blessings

When my bankroll is gettin' small
I think of when I had none at all
And I fall asleep, counting my blessings

I think about a nursery
And I picture curly heads
And one by one I count them
As they slumber in their beds

If you're worried and you can't sleep
Just count your blessings instead of sheep
And you'll fall asleep counting your blessings.

So if you're worried and you can't sleep
Just count your blessings instead of sheep
And you'll fall asleep counting your blessings.


Alberto Caeiro

Guardador de rebanhos II (Alberto Caeiro)

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar…

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar…


Thinking out loud (Emiliana Torrini)

Like the leaves at my face
He is a victim of gravity
The unbearable colour of things
Gets him down

And as his raincoat covers me
We know it was never raining

Sorry it was me
Was I thinking out loud
Sorry it was me
Was I thinking out loud
Sorry it was me
Was I thinking out loud
Sorry it was me
Was I thinking out loud

Like strings in a fan
The shoelaces aren't done
The solitude reflection of his face
Gets him down

And as the shadow covers me
I thought he was only sleeping

His clothes on the floor
Under a silver light
The smell of lavender and tar
Brings me down

If the telephone should ring
God knows it could never be him


Alberto Caeiro

Guardador de rebanhos XXXIV (Alberto Caeiro)

Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer coisa
Que tem que ver com haver gente que pensa…

Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me coisas…
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente…

Que pensará isto daquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha…
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas coisas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos…
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar, tenho a Terra e o Céu.


Knockin’ 0n heaven’s door (Randy Crawford)

Ma, take this badge off of me.
I can't use it any more.
It's getting dark, too dark to see.
Feel like I'm knockin' on heaven's door.

Knock, knock, knockin' on heavens door.
Knock, knock, knockin' on heavens door.
Knock, knock, knockin' on heavens door.
Knock, knock, knockin' on heavens door.

Ma, take these guns away from me.
I can't shoot them any more.
There's a long black cloud following me.
Feel like I'm knockin' on heaven's door.


Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Dan Gibson

Ligações
Diana Krall, Emiliana Torrini, Randy Crawford

Textos:
Alberto Caeiro

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012