Sons da Escrita 192

3 de Outubro de 2008

Segundo programa do ciclo Alberto Caeiro

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Alberto Caeiro

Guardador de rebanhos V (excertos) (Alberto Caeiro)

Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do Mundo?
Sei lá o que penso do Mundo
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

(….)

Não acredito em Deus porque nunca o vi
Se ele quisesse que acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Como o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

(…)


God (Jack’s Mannequin)

God is a concept
By which we measure
Our pain
I'll say it again
God is a concept
By which we measure
Our pain

I don't believe in magic
I don't believe in I-ching
I don't believe in Bible
I don't believe in tarot
I don't believe in Hitler
I don't believe in Jesus
I don't believe in Kennedy
I don't believe in Buddha
I don't believe in Mantra
I don't believe in Gita
I don't believe in Yoga
I don't believe in kings
I don't believe in Elvis
I don't believe in Zimmerman
I don't believe in Beatles
I just believe in me
Yoko and me
And that's reality

The dream is over
What can I say?
The dream is over
Yesterday
I was the Dreamweaver
But now I'm reborn
I was the Walrus
But now I'm John
And so dear friends
You'll just have to carry on
The dream is over


Alberto Caeiro

Guardador de rebanhos VIII (excertos) (Alberto Caeiro)

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer (…)

Um dia que Deus estava dormir
E o espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,

Colhe as flores e gosta delas e esquece-as. (…)

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas. (…)

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.


Fingers to the bone (Deep Purple)

Everything went wrong
I'm sorry boys, I've got to let you go
We've had some hard times
And the long rain, it didn't show
Hired hands, I've seen them come and go
But you don't come much better
Today's Blue Monday

I just got a bad news letter 

This day has come
The darkest cloud on our horizon
My hands are tied down
To that promise note I signed upon
Always been this way
It's the poor man who gets hurt
All you ever work for
Is to leave your footprints in the dirt 

You work your fingers to the bone 

The deed is done
The fruit will fall to someone else's hand
That's how the land lies
Now we all know where we stand
You'll have to walk away
Don't let them see you running
Today's Blue Monday
I should have seen it coming 

You work your fingers to the bone 

If sweat and tears were all it took
To make this valley green
We'd be alright but now it's gone
They've taken everything
They say it's just an act of God
And that's the way ill wind blows
You've got thirty days to pack your bags

Say goodbye, hit the road 

You work your fingers to the bone


Alberto Caeiro

Guardador de rebanhos VII (Alberto Caeiro)

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura…

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


I can see clearly now (Johnny Nash)

I can see clearly now the rain is gone
I can see all obstacles in my way
Gone are the dark clouds that had me blind
It's gonna be a bright (bright) bright (bright) sunshinin' day
It's gonna be a bright (bright) bright (bright) sunshinin' day

Oh yes, I can make it now the pain is gone
All of the bad feelings have disappeared
Here is the rainbow I've been praying for
It's gonna be a bright (bright) bright (bright) sunshinin' day

Ooh - look all around, there's nothing but blue skies
Look straight ahead, there's nothing but blue skies

I can see clearly now the rain is gone
I can see all obstacles in my way
Here's the rainbow I've been praying for
It's gonna be a bright (bright) bright (bright) sunshinin' day
It's gonna be a bright (bright) bright (bright) sunshinin' day
Real, real, real, real bright (bright) bright (bright) sunshinin' day
Yeah, hey, it's gonna be a bright (bright) bright (bright) sunshinin' day


Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Dan Gibson

Ligações
Jack’s Mannequin, Deep Purple, Johnny Nash

Textos:
Alberto Caeiro

Edição e voz:
José-António Moreira


•••|•••|•••


And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012