Sons da Escrita 382

18 de Fevereiro de 2012

Primeiro programa do ciclo Alberto Pereira

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Alberto Pereira

Meia-noite na alma

A manhã deste tempo chama-se desespero.
Não sei como dizer-me que és um hemisfério de desejo
afogado na nudez da memória.
Dentro de ti é um lugar aceso de madrugada,
sémen de escuridão na fome concreta da evidência.
De parte alguma se vê o espaço habitável do teu corpo.
Horizonte soletrado de desencontro
ardendo nos interstícios do invisível.
Aceito que há um delírio de luz
numa aresta insólita do espanto,
um lugar deserdado de distância,
florir do pensamento na desonra do abismo.

A manhã deste tempo chama-se desespero.
Silêncio inaudito na lucidez da névoa
vagueando na meia-noite da alma.
Em que margem do instante
posso anular a incongruência voluptuosa do teu carácter?
Já todos os gestos te suplicaram a alquimia invertida da solidão.
Perdi-te tantas vezes
na extremidade dissecada do entendimento,
na última palavra da sede.

Arrasto-me na geometria perene do desconhecido,
na penumbra endémica da sombra,
vértice profundo na falésia do querer.
Daqui deste precipício em que persisto
os dias são todos de sangue
na iminência interminável de ti.


Midnight blues (Gary Moore)

It's the darkest hour
Of the darkest night
It's a million miles
From the morning light

Can't get no sleep
Don't know what to do
I've got those midnight blues

When the shadows fall
I feel the night closing in
There must be some reason
For this mood I'm getting in

Can't get no sleep
Don't know what to do
I've got those midnight blues

Every evening after sundown
As the light begins to fade
I feel so low, but I just don't know
Why these blues won't go away

Every evening after sundown
As the light begins to fade
I feel so low, but I just don't know
Why these blues won't go away

It's the darkest hour
Of the darkest night
It's a million miles
To the morning light

Can't get no sleep
Don't know what to do
I've got those midnight blues
I've got those midnight blues
I've got those midnight blues
I've got those midnight blues


Alberto Pereira

Procura

Voo com as asas partidas de amargura
sobre a latitude esventrada do impossível.
Um ruído enlouquecido
retoca a mágoa fundeada
na subtil cicatriz do abismo.

A alma encerada de escuridão
fuma ilusões torturadas no desassossego.
Dos furtivos destroços das trevas
saem fantasmas forrados de felicidade.

Bate em mim
a subterrânea longitude luminosa.
Corro num revoltoso beber de nuvens
abrindo nos lábios
a inclinação evidente de lado nenhum.


The search is over (Survivor)

How can I convince you what you see is real
Who am I to blame you for doubting what you feel
I was always reachin', you were just a girl I knew
I took for granted the friend I have in you

I was living for a dream, loving for a moment
Taking on the world, that was just my style
Now I look into your eyes
I can see forever, the search is over
You were with me all the while

Can we last forever, will we fall apart
At times it's so confusing, these questions of the heart
You followed me through changes and patiently you'd wait
Till I came to my senses through some miracle of fate

I was living for a dream, loving for a moment
Taking on the world, that was just my style
Now I look into your eyes
I can see forever, the search is over
You were with me all the while

Now the miles stretch out behind me
Loves that I have lost
Broken hearts lie victims of the game
Then good luck it finally struck
Like lightning from the blue
Every highway leading me back to you

Now at last I hold you, now all is said and done
The search has come full circle
Our destinies are one
So if you ever loved me
Show me that you give a damn
You'll know for certain
The man I really am

I was living for a dream, loving for a moment
Taking on the world, that was just my style
Then I touched your hand, I could hear you whisper
The search is over, love was right before my eyes


Alberto Pereira

Futuro sufocado

Poderei ter sido um breve murmúrio dos teus desejos, mas tu continuas a ser a beleza magoada dos meus dias. Sento-me à sombra da eternidade encostado ao deslumbramento que encaixei na tua imagem.

Porque teima a minha alma em ouvir este grito com insistência, quando a desilusão segreda que a eternidade já não existe.

Cessou a beleza da imaginação, instalou-se a confusa aceitação do insustentável. Tento convencer o adeus sussurrando-lhe que te extinga, mas há um nevoeiro perpétuo que me prende à recordação. Enfeiticei-me com a personagem que criei e não consigo aceitar que foste uma farsa do meu excesso de fantasia.

Entreguei-me à brisa dos prazeres inesgotáveis, desprezei a outra face do coração. A imprudência trouxe a palidez ao rosto das expectativas e agora que quero fugir de ti, sinto que és grande demais para que me possa evadir.

Estrangulaste-me, sufocas cada segundo do meu futuro.

Suplico aos últimos suspiros da oportunidade que me deixem sobreviver longe desta ressaca de vida que não tem sabor.


A taste of honey (Beatles)

A taste of honey... tasting much sweeter than wine.

I dream of your first kiss, and then,
I feel upon my lips again,
A taste of honey... tasting much sweeter than wine.

I will return, yes I will return,
I'll come back for the honey and you.

Yours was the kiss that awoke my heart,
There lingers still, 'though we're far apart,
That taste of honey... tasting much sweeter than wine.

I will return, yes I will return,
I'll come back (he'll come back) for the honey (for the honey) and you.


O áspero hálito do amanhã

Quando tudo acaba,
a rouquidão perene
desce aos escombros da voz.
Suspensas sobre o impossível,
fogem pelas frestas do sorriso
lufadas dementes forradas de crostas.
Há desejos atirados
contra a arritmia mental
semeada no corpo.

Arfamos intempéries,
bebemos cicatrizes,
decepamos labirintos.
Mas é inútil,
o áspero hálito do amanhã
frui no desassossego,
premeditando lágrimas
que ardem na geografia do olhar.

Amanhece,
na caótica labilidade
inscrevemos paixões
no arquivo menstruado do esquecimento.


If tomorrow never comes (Garth Brooks)

Sometimes late at night
I lie awake and watch her sleeping
She's lost in peaceful dreams
So I turn out the lights and lay there in the dark
And the thought crosses my mind
If I never wake up in the morning
Would she ever doubt the way I feel
About her in my heart 

If tomorrow never comes
Will she know how much I loved her
Did I try in every way to show her every day
That she's my only one
if my time on earth were through
She must face this world without me
Is the love I gave her in the past
Gonna be enough to last
If tomorrow never comes 

'Cause I've lost loved ones in my life
Who never knew how much I loved them
Now I live with the regret
That my true feelings for them never were revealed
So I made a promise to myself
To say each day how much she means to me
And avoid that circumstance
Where there's no second chance to tell her how I feel

So tell that someone that you love
Just what you're thinking of
If tomorrow never comes


Parto os vidros do céu
e com os braços fracturados pela tua ausência
rasgo as nuvens que crucificaram a ilusão.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Dan Gibson

Ligações
Gary Moore, Survivor, Beatles, Garth Brooks

Textos:
Alberto Pereira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012