Sons da Escrita 383

25 de Fevereiro de 2012

Segundo programa do ciclo Alberto Pereira

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Alberto Pereira

Caligrafia da noite

Principia em mim
o cume obsessivo da solidão.
A noite incendiada
pela caligrafia agreste
derrama a insinuante dialéctica
na insónia dos parágrafos.
Sobre o ninho rugoso
das mãos que falam
correm nascentes
férteis de desassossego,
um litoral de fogo
no interior vulcânico das palavras.
Do presságio clandestino das sílabas
nasce a insólita transparência do poema,
uma absurda constelação branca
a violar o azul impenetrável das trevas.


But I might die tonight (Cat Stevens)

I don't want to work away
Doing just what they all say
Work hard boy and you'll find
One day you'll have a job like mine

'Cause I know for sure
Nobody should be that poor
To say yes or sink low
Because you happen to say so, say so, you say so

I don't want to work away
Doing just what they all say
Work hard boy and you'll find
One day you'll have a job like mine, job like mine, a job like mine

Be wise, look ahead
Use your eyes he said
Be straight, think right
But I might die tonight!


Alberto Pereira

Cântico de revolta

Estou farto desta gente feita de farrapos
que salpica os dias
numa demência mascarada de mel.

Estou farto dos deuses apodrecidos
que procriam desumanidade
na alma inexistente.

Sim vós,
magnéticas lapas com sorrisos encenados
na latitude febril do preconceito,
entendo agora
porque vos baptizaram oportunistas.
Vós que cresceis na seiva incisa
da desgraça alheia
cuspindo moral hasteada de tragédia.
Basta de tanta sedução,
nenhum olhar me devora a dignidade,
pois sou um vendaval solitário
infectado de distância.

Quero-vos a arder no meu esquecimento,
ali, onde me possam ver as ideias
serem expulsas para o aconchego da loucura.
Quero gritar a revolta, parir a liberdade,
abraçar o erro, vomitar a multidão.

Respira-se a realidade engelhada
nas consciências adormecidas,
e eu,
país de absoluta insatisfação
parto no imaginário para a inquietação,
mas seguir-vos não
seguir-vos não.


Talkin’ bout a revolution (Tracy Chapman)

Don't you know
They're talkin' bout a revolution
It sounds like a whisper
Don't you know
They're talkin' about a revolution
It sounds like a whisper
While they're standing in the welfare lines
Crying at the doorsteps of those armies of salvation
Wasting time in the unemployment lines
Sitting around waiting for a promotion 

Poor people gonna rise up
And get their share
Poor people gonna rise up
And take what's theirs

Don't you know
You better run, run, run
Oh I said you better
Run, run, run

Finally the tables are starting to turn
Talkin' bout a revolution


Alberto Pereira

Corpo de trevas

Naquele dia em que a evidência saltou mais cedo da madrugada floresceu no meu corpo o sobressalto.
Era Agosto, remara noite dentro por um rio escuro embalsamado de medo e nas águas nocturnas vi-te boiar no branco trágico do céu.
Desconhecidos enrolavam-te em mágoas, ciclones carcomiam-te as plácidas lembranças dos desejos, suspiros moribundos entoavam estrondosos no terror das expectativas.
Fazia já algum tempo que os meses entornavam uma espantosa desolação sobre a alma, essa que orvalhada de simplicidade se deixou enganar pelas mãos nodosas da fé.

Mãe,
Quando te vi, estavas edemaciada de sombra, olhar ulcerado na neblina, coração feito tormenta.
Lia-se em todas as esquinas a serenidade geneticamente exilada nas garras ímpias da decadência.
Sonhos desfeitos espreitavam a falésia escarpada do inatingível.
Havia palidez inconsciente na existência e um clarão a murmurar a névoa que não entendia.
Ordenhei a incompreensão, paralisei o desespero e falei-te sem nada dizer, mas estavas já debruçada sobre a sedução venérea do degredo.
Degluti desabrigo e com a seiva íntima da coragem esculpi o apelo que desmentisse a tua desistência.
Quis dizer-te naquele momento tudo o que o egoísmo queimou no calor frenético dos dias. Mas o sofrimento audacioso decapitava-te já a respiração e sobre a fulgurante agonia desfaleciam léguas de ilusão.
Peguei-te e corri pelos escombros do destino até onde te pudesse resgatar da catástrofe.
Senti como nunca o sedimento estéril do instante, o equívoco intemporal dos desejos, o êxtase precário da eternidade.
De súbito o mundo parou. A imobilidade segregou o hálito macabro do fim.
Morri nessa tarde na metamorfose estival das emoções, submerso na tua ausência vitalícia.


Mother (John Lennon)

Mother, you had me
But I never had you
I wanted you
But you didn't want me
So
I got to tell you
Goodbye
Goodbye

Father, you left me
But I never left you
I needed you
But you didn't need me
So
I just got to tell you
Goodbye
Goodbye

Children, don't do
What I have done
I couldn't walk
And I tried to run
So
I got to tell you
Goodbye
Goodbye

Mama don't go
Daddy come home
Mama don't go
Daddy come home
Mama don't go
Daddy come home
Mama don't go
Daddy come home


Morte

Morte,
grito de igualdade
onde desembarca a ilusão.
Espasmo de lucidez
que ceifa o preconceito.
Incólume juiz
que aborta a imortalidade.

Morte,
limite da vida
onde a autópsia dos factos
revela a ruína invisível que fomos.


Join me in death (HIM)

Baby join me in death
Baby join me in death
Baby join me in death

We are so young
our lives have just begun
but already we're considering
escape from this world

and we've waited for so long
for this moment to come
we're so anxious to be together
together in death

Won't you die tonight for love
Baby join me in death
Won't you die
Baby join me in death
Won't you die tonight for love
Baby join me in death

This world is a cruel place
and we're here only to lose
so before life tears us apart let
death bless me with you

Won't you die tonight for love
Baby join me in death
Won't you die
Baby join me in death
Won't you die tonight for love
Baby join me in death

this life ain't worth living
this life ain't worth living
this life ain't worth living
this life ain't worth living

Won't you die tonight for love
Baby join me in death
Won't you die
Baby join me in death
Won't you die tonight for love
Baby join me in death

Baby join me in death


Não sabe se existiu,
lembra-se apenas de estar grávido de utopia.
Morreu na democracia da mentira,
ressuscitou ao sétimo dia da transgressão.
Sentou-se à direita da dor e esculpiu a loucura.
Abortou a impossibilidade, nasceu na inexistência.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Jmai Sieber, Kammen, Fulton & Shatz

Ligações
Cat Stevens, Tracy Chapman, John Lennon, HIM

Textos:
Alberto Pereira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012