Sons da Escrita 384

3 de Março de 2012

Terceiro programa do ciclo Alberto Pereira

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Alberto Pereira

Pássaros breves

Estremeço,
já não vejo os pássaros que nasciam na garganta
quando dizias meu amor.
Esses partiram há muito
e no seu lugar, quero dizer-te,
sonham tempestades.

Nunca a eternidade se demorara na pele
como nesse tempo.
Trazíamos o céu entre os anéis
e a força com que apertávamos o paraíso.
Deus sentava-se no coração
a adiantar as horas,
a manhã chegava mais cedo.
Era urgente não adormecer,
viviam-se muitos anos num dia
e cada pensamento
coleccionava o mundo inteiro.

O sangue ruiu quando partiste.
Descobri então que o corpo
não tinha lista de espera para as cicatrizes.
Até Deus enlouqueceu,
grita que a escuridão é mais fácil de respirar.

Somos delírios
e a morte um vício para sempre


Birds (Neil Young)

Lover,
there will be another one
Who'll hover
over you beneath the sun
Tomorrow
see the things
that never come
Today

When you see me
Fly away without you
Shadow on the things you know
Feathers fall around you
And show you the way to go
It's over, it's over.

Nestled
in your wings my little one
This special
morning brings another sun
Tomorrow
see the things
that never come
Today

When you see me
Fly away without you
Shadow on the things you know
Feathers fall around you
And show you the way to go
It's over, it's over.


Alberto Pereira

Afinador de nuvens

Passo as horas a afinar nuvens,
a ouvir-te trovejar nas veias.
Desde que me embargaste o corpo
com a tempestade,
nunca mais me aproximei de mim.
O céu ficou senil,
gesticula apenas uma miserável nódoa de paraíso
onde componho sinfonias com veneno.

A cabeça estremece,
tenho a memória raptada por sonetos indígenas.
Esfuziante o teu rosto desarruma o ódio.
Atravesso a pólvora, estrangulo o nevoeiro.
Na leveza do silêncio a garganta dorme.

A peregrinação de cactos
nunca impediu nada.
E ali estás tu,
o catálogo de precipícios
que não esqueço.

O coração é um relâmpago
a legendar cicatrizes.


Cloud 9 (George Harrison)

Have my love
It fits you like a glove
Join my dream, tell me yes
Bail out should there be a mess
The pieces you don't need are mine

Take my time
I'll show you cloud nine
Take my smile and my heart
They were yours from the start
The pieces to omit are mine

Have my love
Use it while it does you good
Share my highs but the times
That it hurts pay no mind
The pieces you don't need are mine

I'll see you there on cloud nine

Take my hope
Maybe even share a joke
If there's good to be shown
You may make it all your own
And if you want to quit that's fine
While you're out looking for cloud nine


Alberto Pereira

Impossível

Chegar a ti, impossível.
As manhãs já não dizem tempo,
só o silêncio sabe o teu corpo inteiro.
Escorrego por cada palavra,
convenço a pele que não morreste.
Imagino-te ainda como se o sangue
pudesse adormecer.
Eu digo,
o sonho é ouro desavindo,
uma tocha louca
no coração afogado.

As manhãs já não dizem tempo,
a mocidade das coisas
dança na peregrinação da distância.
Há beijos inebriados
que procuram a memória,
como se ontem não fosse noite.

Tenho os olhos rachados
pela obesidade das lágrimas,
são tantas que despenteiam a ilusão.

Talvez nunca seja sempre,
por isso parto.


Forever frozen (Steve Winwood & Davy Spillane

So cold in my heart
it just might stop
I’m waiting for something
I don’t know what
footsteps closer but I don’t turn round

Screaming wind is scratching
through the town
I don’t know where I am
I can’t be found
footsteps closer but I don’t turn round

I’m forever frozen
Oh forever frozen
since you’ve spoken

So cold in my heart
it just might burst
I’m waiting for someone
I think the worst
footsteps closer but I don’t turn round

I’m forever frozen
Oh forever frozen
since you’ve spoken


Meteorologista de lágrimas

É feriado na solidão,
vejo-te descer a memória a poente do desespero.
Desde que as rugas me embriagaram a pele,
poucos se lembram de mim.
Todos me olham,
mas, na verdade, poucos me vêem.

Agora que chego ao fim,
sei que as vírgulas mordem o destino
e este se faz de crianças fundeadas na distância.
Acredita,
sou um meteorologista de lágrimas,
adivinho as marés que encharcam o rosto
quando o coração pressente a baixa-mar.

Lembro-me,
era sobre os nossos corpos
que as aves amanheciam,
e eu,
eu ia com elas,
entre as margens de tudo.
Só quando partiste percebi,
a noite cresce mais que o mundo
e Deus cabe numa algibeira.

O paraíso é uma viagem
que termina sempre no inferno.


So long ago, so clear (Jon & Vangelis)

Once, we did run
How we chased a million stars
and touched as only one can

Once, we did play
How the past delivered you
Amidst our youth we'd dream away, away

As if I knew the words I'm sure you'll hear
Of how we met as you recall so clear

Once, we did love
Long ago how did I forget
Holding you so closely

Look, how I move
Chance would have me glance at you
To know how you move me

Me, all barriers fall around us as we hear
Of memories known and matters long ago, so clear

Once, we did run
How we chased a million stars
And touched as only one can


Às vezes,
as pessoas encostavam nomes com os lábios.

Para mim, nesse tempo
não eram beijos;
eram búzios que dançavam
e as bocas erguiam em seus mastros
gaivotas.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Kevin Kerr

Ligações
Neil Young, George Harrison, Steve Winwood & Davy Spillane, Jon Anderson & Vangelis

Textos:
Alberto Pereira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012