Sons da Escrita 152

11 de Abril de 2008

Segundo programa do ciclo Alexandre O'Neill

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Alexandre O'Neill

Bê-a-barba (Alexandre O'Neil)

Um homem, diante do espelho, pronto a arrostar com mais
um dia de barba — logo desenxabido pelo sólito insólito enquadramento: a sua própria cara.
Não há filosofia matinal que resista a um descaro assim.
Resiste o espelho.
Primeiros socorros: deitar a língua de fora, caretear, esfregar com energia a toalha turca na língua. Ajuda a tirar o sarro.
Fiapos na boca!
O pano turco já não é o que era. Quando menino, atara dois lençois de pano turco um ao outro e a pulso descera da varanda ao pátio. Nem um fiapo lhe sobrara nas mãos. Agora é o que se vê…
Não! O que se vê é, já agora, a cara…
Vamos preferi-la a qualquer outra?
Fácil, repara! Não há outra…
Ela aí, aqui está, estanhada — mas tua!
Mapa de excessos esta cara! Todos lá, até o excesso de servilismo.
Áspera ao tacto, parece a cara de um homem, mas a bochecha-nalga a descair sobre a direita escorre o olho do mesmo lado Chorão! Por um pouco, cara de cão de água: olho a varzar-se, boca desdém-desgostosa, meio dente à mostra na comissura ascendente.
Assim eis a barba!
Olhou com rancor aquela cara, tomou do pincel. Num assomo, avisou para o espelho:
— Viva eu!
E às pressas ensaboou a sua cara de todas as manhãs.


Your mirror (Simply Red)

I've got to stand up for myself
This society don't care about nobody else
I've got to be strong
Even if I know that this feeling is wrong
I've got to not care
Even if I know that this world is meant to share

Wait a minute. This is wrong
Even the birds still sing their faithful song
And your beauty lies within you
Look in the mirror baby
Look in the mirror baby

What you gonna do when your friends have
Gone away
And deserted you
You'll have to be strong
24 hours can seem so long
You're taught to not care
And then not realise this world is meant to share

Wait a minute. It's wrong
Even the birds still sing their faithful song
And your beauty lies within you
Look in the mirror baby
Look in the mirror baby

We've got to stand up for ourselves
Even if a leader so cold wants to glory himself
We've got to be strong
Even if our reasons seem wrong
We've got to not care
Even if the world that we know may not even
Be here

Hold it! It's wrong
Even the birds still sing their faithful song
And your beauty lies within you
Look in the mirror baby
Look in the mirror baby


Alexandre O'Neill

Meditação na pastelaria (Alexandre O'Neil)

Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência agradece.

Nunca se sabe quando começa a insolência!
Que tempo este, meu Deus, uma senhora
Está sempre em perigo e o perigo
Em cada rua, em cada olhar,
Em cada sorriso ou gesto de boa-educação!

A inspecção irónica das pernas, eis o que os homens sabem oferecer-nos!,
Inspecção demorada e ascendente, acompanhada de assobios
E de sorrisos que se abrem e se fecham
Procurando uma fresta, uma fraqueza qualquer da nossa parte...

Mas uma senhora é uma senhora.
Só vê a malícia quem a tem.
Uma senhora passa e ladrar é o seu dever
se tanto for preciso!

O pó de arroz: Horrível!
O bâton: Igual!

O amor de Raul é já uma saudade, foi sempre uma saudade...
(O escritório toma-lhe o tempo todo?
Desconfio que não...)

Filhos tivemos um: desapareceu...
E já nem sei chorar!

Chorar... como eu queria poder chorar!

Chorar encostada a uma saudade bem maior do que eu,
Que não fosse esta tristeza absurda de cada dia:
Unha quebrada de melancolia...

Perdi tudo, quase tudo...
Hoje, resta-me a devoção e este pequeno inteligente cão.

Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência agradece.


Moondog (Prefab Sprout) 

The funeral cars crawl down
The heartbreak side of town
The mourners all discuss
The boy who caused a fuss
We chopped a billion trees to print up eulogies
But guys we should have guessed,
The girls would say it best
MOONDOG !
Love. 'Cos love's the final word
Nothing crosses love
Reason has to bow if love demands it
MOONDOG ! - Guess who's on the moon
Up there a flag will fly for mom and apple pie
MOONDOG ! - Guess who's on the moon
The one place left to play
The comeback's underway
The world was younger then
In bed asleep by ten
And daddies shook their fists
At hidden communists
The earth was merely round
Before the slapback sound
Is there one spell can bring
The once and future king ?
MOONDOG !
Cut... To somewhere deep in space
Beyond the Colonel's arms
Handsome doggone rake the truly weightless
MOONDOG ! - Guess who's on the moon
Up there a flag will fly for mom and apple pie
MOONDOG ! - Guess who's on the moon
The one place left to play
The comeback's underway
MOONDOG ! - Guess who's on the moon
Up there a flag will fly for mom and apple pie
MOONDOG ! - Guess who's on the moon
The one place left to play
The comeback's underway


Alexandre O'Neill

Que vergonha, rapazes (Alexandre O'Neil)

Que vergonha, rapazes! Nós práqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no “diz que”
e a desnalgar a fêmea (“Vist’? Viii!”)

Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me sorgo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.

Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço à rua, encontro o Roque
(“O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!”)
e desabafo: - Ó Roque, com franqueza:

Você nunca quis ver outros países?
– Bem queria, Snr. O’Neill! E... as varizes?


Shameless (Garth Brooks)

Well I'm shameless when it comes to loving you
I'll do anything you want me to
I'll do anything at all. 

And I'm standing here for all the world to see
Oh baby, that's what's left of me
Don't have very far to fall
You know now I'm not a man who's ever been
Insecure about the world I've been living in
I don't break easy, I have my pride
But if you need to be satisfied
I'm shameless, oh honey, I don't have a prayer
Every time I see you standin' there
I go down upon my knees.
And I'm changing, swore I'd never compromise
Oh, but you convinced me otherwise
I'll do anything you please.
You see in all my life I've never found
What I couldn't resist, what I couldn't turn down
I could walk away from anyone I ever knew
But I can't walk away from you.
I have never let anything have this much control over me
I work too hard to call my life my own
And I've made myself a world and it's worked so perfectly
But it's your world now, I can't refuse
I've never had so much to lose
Oh, I'm shameless.
You know it should be easy for a man who's strong
To say he's sorry or admit when he's wrong
I've never lost anything I've ever missed
But I've never been in love like this.
God It's out of my hands.
I'm shameless, I don't have the power now
I don't want it anyhow
So I got to let it go.
Oh, I'm shameless, shameless as a man can be
You make a total fool of me
I just wanted to you to know.
Oh, I'm shameless, I just wanted you to know
Oh, I'm shameless, Oh, I'm down on my knees
shameless


Guiché.2 (Alexandre O'Neil)

Há pessoas que são como aviões no ar:
precisam de muita gente a apoiá-los de terra.
Essa que se insinuou a meia-bicha devia ser uma delas:
com um sorriso meteu-se à frente de quatro e só dois resmungaram.
Pouco. Estão habituados ao atropelo.
A espertalheta virou-se para mim a pedir a caneta.
“Canetas não se emprestam, mas por ser para si…”,
disse eu. E dei comigo de caneta na mão
a oferecê-la àquela que me ultrapassara
e com a minha caneta afinal assinava.
Até os burocratas que destrabalhavam
ao guiché assomaram quando ela firmava.
Eram três (os gentis!) a ouvir as pulseiras
que ela tilintava com as suas maneiras
de nada subscrever logo assim às primeiras.
Quando, língua de fora, ela assina-assinou,
um vei com o mata-borrão e incontineti lhe secou
a assinatura. Ela sorrio e entregou
o requerimento para sua excelência.
A bicha comoveu-se: teria ela urgência?
Assim se passa de embirrenta intrometida
a senhora por três (e por mim) assistida,
que à beira guiché é assim a vida…


The answer to your life (Backstreet Boys)

You see me sitting here
A smile upon my face (face)
The time has come
But you know that it's not too late
There's been too many things
Together we have seen
It's not that hard if we start to believe

And we're not gonna take anymore
Can we try to erase all the pain
So please

Show me a reason, give me a sign
Tell me the way we fall out of line
Is it today or is it tonight we'll find
The answer to our life

This world is not at ease
We seem to hide the truth
Thinking there's only so much we can really do
It's up to you and me
To fix our destiny
The jury's here, so let's take the stand

So tell me why we have to cry (and I try)
When there's so many things we can do
To help this troubled world start anew

I need a reason, I need a sign
There's no turning back, I'm here by your side
Is it today or maybe tonight (we'll find)
The answer to our life

Show me the way, give me a sign
Tell me the way we fall out of line (line)
Is it today (is it today), is it tonight
The answer to our life


Com um tiro no artelho, viva o velho!
Com um tiro no abdome, passa-te a fome!
Com um tiro no nariz, «Que é que ele diz?».
Com um tiro no rabo, podes ir de rabo a cabo.
Com um tiro na cedilha, terá de ser doutro a filha…
Com um tiro no coração, oh que sono e que colchão!


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Manuel João Ferreira Múrias, Scott Cossu, Air, LVX Nova

Ligações
Simply Red, Prefab Sprout, Garth Brooks, Backstreet Boys

Textos:
Alexandre O'Neill

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012