Sons da Escrita 153

18 de Abril de 2008

Terceiro programa do ciclo Alexandre O'Neill

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Alexandre O'Neill

Em pleno azul (Alexandre O'Neil)

Com horror mal disfarçado
sincero desgosto (sim!)
lágrima azul aflita
mão crispada de piedade
vêem-me passar cantando
calamidades desastres
impossíveis de evitar
as mães
       

as minhas a tua
as que estropiam ternamente os filhos
para monótono e prudente
avanço da família

E quando páro e faço a propaganda
dos lugares mais comuns da poesia
há um terror quase obsceno
nos seus olhos maternais

Então prometo congressos
em pleno azul

Prometo uma solução
em pleno azul

Prometo não fazer nada
em pleno azul

sem consultar o «bureau»
em pleno azul

Visivelmente sossegadas
é a hora de não cumprir
de recomeçar cantando
calamidades desastres
ruínas por decifrar        

*

Se eu não estivesse a dormir
perguntaria aos poetas
A que horas desejam que vos acorde?

Vamos decifrar ruínas
identificar os mortos
dormir com mulheres reais
denunciar os traidores
e atraiçoar a poesia
envenenada nas palavras
que respiram ausência podre
vamos dizer sem maiúsculas
o amor a vida e a morte           

*

E as mães
onde estão elas?

As mães rezam as mães
cosem farrapos de dor
as mães gritam
choram
uivam
no espesso rio de um sono
já quase só animal


Cielo azul (Johannes Linstead)

(instrumental)


Alexandre O'Neill

Uma vida de cão (Alexandre O'Neil)

Não
não é a poesia caixa de música
ou a poesia piolho místico enterrado no sebo destes dias
ou qualquer outra
que podem dissolver a tua alma
tão problemática
no vinho da beatitude

Ah
o «mistério» da poesia a poesia
técnica da confusão
a capelista poética e os primeiros fregueses
ainda a medo ainda receosos
de te pedirem a Dor em alfinetes que não tenhas
logo ali à mão

E quando dizes «Poesia» eu tenho nojo
aquele nojo violento que me dá
o olhar furtivo a atenção desatenta
dos que se demoram nos lavabos nas salas dos cinemas
de mãos distraídas procurando
a solução da noite

Instalaram-se em ti
a mesma contracção suspeita
a mesma hipocrisia o mesmo sobressalto
a mesma curva obscena
que o olhar descreve
goza
e disfarça

Quando dizes «Poesia» dizes medo
dizes família tradição classe
e a vida de cão que te esperava
e que é hoje a tua vida a tua «transcendente» vida de cão

•••

Ensinaram-te palavras que pareciam
prontas a derrotar quem as ouvisse
ensinaram-te gestos para elas
e a tal ponto te humilharam
que te puseram de pé
limpo
inteligente
e aprumado

Pronto a seguir
seguiste
e agora estás aqui
estás aqui pois claro
angustiado e iludido
mas deliciado

•••

Até aos últimos arcanos
cafés e leitarias
seguiste André Breton
ou a sombra dele
e a aventura mental que procurava
um sinal exterior
um estilhaço vivo do acaso
a Nadja lisboeta que salvasse
ou a noite ou a vida
acabou em “bons” poemas “maus” poemas
em palavras e palavras

E coberto de palavras enterrado
numa terra de murmúrios de gemidos
teu coração já nada faz mover
senão moinhos de palavras
e “a dor é grande” dizes tu
“mas sublime”

•••

Mas não sou eu que te lamento
Os teus mitos esperam-te
já impacientes

Agora põe-te a andar
agora passa por cá daqui a uns anos

Talvez me encontres
talvez possa fazer qualquer coisa por ti
qualquer coisa simples
quase inútil
quase ridícula
oferecer-te uma sílaba
um conselho
um cigarro


Dog's a best friend's dog (Tears for Fears) 

Shame
Dog shame
I know what's wrong
Man's too old and wise
Bring in the dog
Turn on
Down the mountain rescue
Slip and slide when sunny
Small cat better move along
Or this bitch could do harm, baby
Straight as an arrow
I'm walking the dog

Three is a crowd
Two is a dog and me playing
(What's he saying)
Free as a cloud
No one ever really knew you
Make clear your illusion no, no, no, no

Some dreams you dream you alone
You thank Christ you're coming home
Better better give the dog a bone
Go go go go chew chew chew chew
Some dreams you dream alone
Go get a life and ease the pain
Dog's a best friend's dog
Dog's a best friend's dog

Word, speech, blurred, bleached
Tell Mr Godot I'm walking the dog
Walking the dog

Some dreams you dream you alone
You thank Christ you're coming home
Better better give the dog a bone
Go go go go chew chew chew chew
Some dreams you dream alone
Go get a life and ease the pain
Dog's a best friend's dog
Dog's a best friend's dog


Alexandre O'Neill

Auto-retrato (Alexandre O'Neil)

O'Neill (Alexandre), moreno português
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.

Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)

No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill.)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil

que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe demais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse...


Let's talk about me (Alan Parsons Project)

Let's talk about me for a minute
Well how do you think
I feel about what's been going on
Let's talk about me for a minute
Well how do you think
I feel about what's gone wrong
Let's talk about dreams
I never learned to read the signs
Let's think about what it all means
I never seem to have the time
Let's talk about you and your problems
All that I seem to do is spend the night
Just talking 'bout you and your problems
No matter what I say I can't get it right
Don't think about dreams
Is it all a waste of time
Don't think about what it all means
If you are a friend of mine
Talk about me, for a minute
I'm the one who's losing
Talk about me, for a minute
I'm the one who's always losing out
And how do you think
I feel about what's been going on
Let's talk about me for a minute
Well how do you think
I feel about what's gone wrong
Let's think about dreams
We never seem to have the time
Let's talk about what it all means
If you are a friend of mine
Let's talk about me
I'm the one who's losing out
I'm the one who's losing out
I'm the one who's losing out, losing out
Talk about me, for a minute
I'm the one who's losing
Talk about me, for a minute
I'm the one who's always losing out


Você tem-me cavalgado,
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá-lo.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Valgeir Gudjonson, Patrick O’Hearn, Andy Summers

Ligações
Johannes Linstead, Tears for Fears, Alan Parsons Project

Textos:
Alexandre O'Neill

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012