Sons da Escrita 417

20 de Outubro de 2012

Primeiro programa do ciclo Alice Vieira

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Cinco breves momentos de maio 1

naquele tempo toda a cidade ardia e nós
ardíamos com ela mas sabíamos
que havia de chegar urna noite
em que as amarras (ou a pátria tanto faz)
seriam mais fortes e entraríamos
em silêncio no quarto
inventando palavras tão transparentes para a nossa vida
que hoje tenho dificuldade em encontrá-las
para as colocar em seus devidos lugares

tínhamos então a idade
de tudo o que nos acontecia pela primeira vez
protegidos pela sombra dos castanheiros de maio
e ainda que por breve tempo chegámos a acreditar
que um dia nos iríamos de novo amar ali
exactamente ali
entre o rio as pontes as estátuas
a praia que roubávamos ao asfalto
onde os dias pareciam sem desvio

e a dona do hotel a prometer-nos
domingos de sol


Ain’t no love in the heart of the city (Whitesnake)

Ain't no love in the heart of the city,
Ain't no love in the heart of town.
Ain't no love, sure 'nuff is a pity,
Ain't no love 'cause you ain't around.
Baby, since you been around.

Ain't no love in the heart of the city,
Ain't no love in the heart of town.
Ain't no love, sure 'nuff is a pity, child
Ain't no love 'cause you ain't around.

Every place that I go,
Well, it seems so strange.
Without you love, baby, baby,
Things have changed.
Now that you're gone
Why know the sun don't shine,
From the city hall
To the county line, that's why

Ain't no love in the heart of the city,
Ain't no love in the heart of town.
Ain't no love, sure 'nuff is a pity,
Ain't no love 'cause you ain't around.

Every place that I go,
Well, it seems so strange.
Without you love, baby, baby,
Things have changed.
Now that you're gone
Why know the sun don't shine,
From the city hall
Woman, to the county line, that's why


Cinco breves momentos de maio 2

desse tempo recordo um retrato e dois nomes
que então jurámos dar aos filhos que um dia tivéssemos
e que por isso mesmo nunca demos
aos filhos que tivemos

desse tempo guardo as noites
que deveriam ter sido apenas de um deslumbrado amor
e que não foram
derramando-se em cicatrizes que se deitaram no meu corpo
e nele fizeram sua escondida e permanente morada

enquanto cuidadosamente guardei todos os teus vestígios
para te fazer ressuscitar num terceiro dia
mais conveniente



Cinco breves momentos de maio 3

era apenas um retrato
que um fotógrafo de ocasião nos tirou
e tinha a história de não ter
história nenhuma
(já li uma frase assim no Alberto Caeiro
desculpa)

lembro-me: nem sequer olhávamos um para o outro
embora o fotógrafo se tivesse esforçado muito
em nos mostrar felizes
mas ele não podia adivinhar que a hora da partida
se desenhava no fumo dos cafés que bebíamos
ao som triste da Anne van der Lowe no jukebox
das gares onde adiávamos diariamente
os funestos rumores do esquecimento

talvez tivéssemos estremecido um pouco
e por isso os nossos rostos ficaram
levemente desfocados
como se naquele momento tivéssemos encontrado a mais
eficaz palavra
de despedida


Photographs and memories (Jim Croce)

Photographs and memories
Christmas cards you sent to me
All that I have are these

To remember you

Memories that come at night
Take me to another time
Back to a happier day
When I called you mine

But we sure had a good time
When we started way back when
Morning walks and bedroom talks
Oh how I loved you then

Summer skies and lullabies
Nights we couldn't say good-bye
And of all of the things the we knew
Not a dream survived

Photographs and memories
All the love you gave to me
Somehow it just can't be true
That's all I've left of you


Cinco breves momentos de maio 4

o que verdadeiramente me dói não são as palavras
que nestes anos todos ficaram por dizer
arrumadas entre os medos que não gritámos juntos
e os sonhos que não transpirei na tua pele

o que verdadeiramente me dói são os silêncios
que nunca habitámos do mesmo lado
porque o silêncio só pode ser partilhado
com aqueles que amamos até à loucura
só ele é a dádiva perfeita que não pede mais nada
a não ser um mesmo lugar para deitar a cabeça
e esperar que a madrugada lentamente desfaça
todos os segredos e nada mais seja preciso
para voltarmos a ter vinte anos mesmo que
os vinte anos tenham morrido para sempre
na cidade em chamas

nunca os meus olhos guardaram imagem mais nítida
que a tua entre os maços de gitanes
e a poeira de maio

no minúsculo quarto em que tentámos acreditar
no futuro que não iria ser o de ninguém
e no entanto tu olhavas para mim e dizias este
será o lugar onde havemos de morrer
e os nossos amigos marcavam encontros
para as tardes em que estaríamos ali sozinhos
à lareira de pacíficos invernos familiares

hoje sei
que te devia ter colado então ao meu silêncio
para que levasses no fundo dos teus olhos
a cor dos meus
ainda que totalmente despidos de ti
mas não fui a tempo e alguém junto a nós disse
as pequenas mentiras mordem até ao fim
e eu comecei a falar de outras coisas
mas foi isso tenho a certeza que nos matou
por isso te peço agora ajuda-me
a não pecar outra vez do mesmo modo
para que os deuses não se cansem
de voltarem a pôr tudo no lugar certo

olha para mim não tenhas medo dá-me
camélias cravos azáleas o que houver
descobre a única palavra verdadeiramente nossa
a única a poder ensinar-nos ainda o rasto

das noites em que a cidade era um braseiro
e nós ardíamos no lume das pedras e das nossas línguas
enquanto os pardais se confundiam na vidraça
das janelas que escancarávamos por maio fora

e de repente eu disse os nossos filhos
vão ver um dia este retrato e querer saber
o que aconteceu
- mas nesse momento em que já dificilmente
se articulavam as palavras
tu olhaste as horas e desceste as escadas em silêncio
porque assim eu tinha pedido que fizesses

e a dona do hotel a prometer-nos
para além de domingos de sol
despedidas breves e indolores



Cinco breves momentos de maio 5

a porta entreaberta a prolongar
os teus passos os castanheiros a cidade em chamas

a minha voz a prometer-te uma carta
(prometo sempre cartas a quem se perde
entre o meu corpo e os patamares das escadas
de países desconhecidos)

mas tu já não ouviste ou então
tudo tinha deixado de fazer sentido

e eu a pensar ainda
uma palavra tua e eu serei salva


Save your love for me (Randy Crawford & Joe Sample)

Wish I knew
Why I'm so in love with you
No one else in this world will do
Darling please save your love for me

Run away
If I were wise, I'd run away
But like a fool in love I stay
And pray you'll save your love for me

I can feel it
Even when you're not here
Can't conceal it
I really love you, my dear
And though I know no good
Can come from loving you
I can't do a thing
I'm so in love with you

So darling help me please
Have mercy on a fool like me
I know I'm lost but still I plead
Darling please save your love for me
You may have fun with the crowd
But for crying out loud
Darling please save your love for me

I can feel it
Even when you're not here
Can't conceal it
I really love you, my dear
And though I know no good
Can come from loving you
I can't do a thing
I'm so in love with you

So darling help me please
Have mercy on a fool like me
I know I'm lost but still I plead
Darling please save your love for me
You may have fun with the crowd
But for crying out loud
Darling please save your love for me


… fica comigo, peço, mas tu não me ouves
e eu sei que vou voltar a esperar por ti na vida que me resta
e em todas as vidas, e em todas as mortes
até ao dia em que definitivamente
despeças o teu corpo do meu
 e eu repita, fica comigo, e tu
desapareças



Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Midori

Ligações
Whitesnake, Jim Croce, Randy Crawford & Joe Sample

Textos:
Alice Vieira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012