Sons da Escrita 419

2 de Novembro de 2012

Terceiro programa do ciclo Alice Vieira

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Amor e outros crimes em vias de perdão 1

tu nunca hás-de entender o tamanho das noites
em que gastei tudo o que havia
por dentro dos meus olhos
os rios que de ti desaguaram sempre
nas minhas veias

eu não sabia
ou talvez já o tivesse esquecido
como podem ser mortíferas as cinzas
das palavras que um dia tiveram asas

e ainda mais mortíferas as garras
que nos destroem com os pequenos medos quotidianos
a que não podemos escapar
porque as sílabas da paixão são sempre
os primeiros objectos a serem retirados do quarto
para que tudo regresse à prateleira certa
e de manhã a poeira nos vista
tranquilamente
como um hábito

e foi por isso que nessas noites morri muitas vezes
enquanto as secretas palavras de adeus alastravam
pela foz do teu desejo
e a minha pele se despia
vagarosamente
da tua



Amor e outros crimes em vias de perdão 2

eu gostava de poder dizer
que entrei no teu corpo como um pássaro
espreitando de invisíveis ruínas
e que o som da tua voz bastava
para me salvar

mas de nada serve inventar palavras
quando as palavras que inventamos
não passam de frágeis lugares de exílio
dos gestos inventados fora de horas
delimitando o espaço de tantas mortes prematuras
de que jurámos ressuscitar um dia

— quando os deuses se lembrassem
de acordar ao nosso lado


Song of Isolde (Elisa Gylkinson & Andreas Vollenweider)

Wake up, wake up Tristan
Our bed of leaves and sand is cold
I fell asleep here in your arms
More than a thousand years ago
Wake up, wake up Tristan
The wind breathes dark words through the forest
There is sorrow on the land
Love must have cast a spell upon us
The path lies open there before us
Wake up, wake up Tristan


Amor e outros crimes em vias de perdão 3

com passos de nevoeiro saíste de mim e disseste
agora vou morrer noutro corpo
para que nunca mais tenha na minha pele o pânico
das madrugadas que me levavam ao remorso
de acordar no mais fundo de ti

saíste com passos de nevoeiro
e disseste   desculpa ser assim
e eu nem respondi porque sabia
que não eras tu que desaparecias mas apenas
o que em teu nome um dia tinha vindo
para que eu não morresse tão longe do lugar do amor



Amor e outros crimes em vias de perdão 4

com que palavras irei escrever agora o nome
das horas que entram pela cama em que noutra vida
te ensinei o caminho do meu corpo
e da justeza dos gestos com que a alegria
se desenhava em mim quando dizias
agosto tu vais ver é a nossa pátria

nessa altura o verão vinha ainda muito longe
e por isso era possível acreditar em frases dessas
esperando que tudo acontecesse
como nos perdoáveis lugares-comuns dos filmes
que estreiam sempre no natal
e furiosamente desejei que a paixão se enredasse
entre os limos e sargaços das tuas pernas

mas agosto foi apenas um lugar de emboscadas
em todos os precipícios da nossa cama
e lentamente as águas definiram
com rigor implacável
o que sobrava de ti nas minhas mãos
e o silêncio baixou sobre as águas
como antes da invenção do mundo

e agora não sei onde acaba o teu nome
e começa o nome de deus


God bless the absentee (Paul Simon)

Lord, I'm a working man
And music is my trade
I'm travelin' with this five-piece band
And I play the ace of spades
I have a wife and family
Who don't see much of me
God bless the absentee

Lord, I am a sugeon
And music is my knife
It cuts away my sorrow
And purifies my life
But if I could release my heart
And veins and arteries
I'd say God bless the absentee

I miss my woman so
I miss my bed
I miss those soft places
I used to lay my head

My son don't need me yet
His bones are soft
He flies a silver airplane
He wears a golden cross
God bless the absentee

Lord, this country's changed so fast
The future is the present
The present's in the past
Highways are in litigation
The airports disagree
God bless the absentee
God bless the absentee


Amor e outros crimes em vias de perdão 5

a língua sobre a pele    o arrepio
os teus dedos nas escadas do meu corpo

as lâminas do amor    o fogo    a espuma
a transbordar de ti na tua fuga

a palavra mordida entre os lençóis
as cinzas de outro lume à cabeceira
 
da mesma esquina sempre o mesmo olhar:
nada do que era teu vou devolver



Amor e outros crimes em vias de perdão 6

entre a saliva e os sonhos há sempre
uma ferida de que não conseguimos
regressar

e uma noite a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios



Amor e outros crimes em vias de perdão 7

deito-me à sombra das tuas pernas
e o corpo arde em todos os movimentos
que não ousaste prolongar
na toalha branca da minha pele

deste lado a dor
é completamente minha
e    por assim dizer    inútil

era capaz de jurar
que nem me viste


You won’t see me (Anne Murray)

When I call you up
Your line's engaged
I have had enough
So act your age
We have lost the time
That was so hard to find
And I will lose my mind
If you won't see me
You won't see me

I don't know why
You should want to hide
But I can't get through
My hands are tied
I won't want to stay
I don't have much to say
But I can't turn away
And you won't see me
You won't see me

Time after time
You refuse to even listen
I wouldn't mind
If I knew what I was missing
Though the days are few
They're filled with tears
And since I lost you
It feels like years
Yes, it seems so long
Girl, since you've been gone
And I just can't go on
If you won't see me
You won't see me

Time after time
You refuse to even listen
I wouldn't mind
If I knew what I was missing
Though the days are few
They're filled with tears
And since I lost you
It feels like years
Yes, it seems so long
Girl, since you've been gone
And I just can't go on
If you won't see me
You won't see me


Amor e outros crimes em vias de perdão 8

a primeira coisa a fazer
é escolher a faca

ou por outras palavras    a maneira
de poder acordar em camas desfeitas
de luas e mares
sonhando com o verão e todos os seus crimes lentos

depois há que não dar tréguas
e ocultar de imediato as provas

ou    por outras palavras
desabitar de ti as ruas    os quartos    as molduras
a velha canção inutilmente decorada
e abrir a porta a quem chega
desprevenidamente
e encontrar o teu rasto ainda intacto
e servir o café e a cicuta
na mesma bandeja

mas acima de tudo
edificar de novo a casa entre ruínas
ou    por outras palavras
enterrar na garganta um nome que era nosso
apagar dos muros da cidade os vestígios da noite
e por breves segundos iluminar ainda do teu sangue
a madrugada em que te perco
e fecho os olhos
e abro o gás


Avec le temps (Léo Ferré)

Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
On oublie le visage et l'on oublie la voix
Le coeur, quand ça bat plus, c'est pas la peine d'aller
Chercher plus loin, faut laisser faire et c'est très bien

Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
L'autre qu'on adorait, qu'on cherchait sous la pluie
L'autre qu'on devinait au détour d'un regard
Entre les mots, entre les lignes et sous le fard
D'un serment maquillé qui s'en va faire sa nuit
Avec le temps tout s'évanouit

Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
Même les plus chouettes souvenirs, ça, t'as une de ces gueules
A la gallerie j'farfouille dans les rayons d'la mort
Le samedi soir quand la tendresse s'en va toute seule

Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
L'autre à qui l'on croyait pour un rhume, pour un rien
L'autre à qui l'on donnait du vent et des bijoux
Pour qui l'on eût vendu son âme pour quelques sous
Devant quoi l'on s'traînait comme traînent les chiens
Avec le temps, va, tout va bien

Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
On oublie les passions et l'on oublie les voix
Qui vous disaient tout bas les mots des pauvres gens
Ne rentre pas trop tard, surtout ne prends pas froid

Avec le temps...
Avec le temps, va, tout s'en va
Et l'on se sent blanchi comme un cheval fourbu
Et l'on se sent glacé dans un lit de hasard
Et l'on se sent tout seul peut-être mais peinard
Et l'on se sent floué par les années perdues, alors vraiment
Avec le temps on n'aime plus


é claro que sei esperar por ti
sabendo desde sempre que não vens e mesmo assim
escolho sem sobressalto a música perfeita
de te acolher no sono com o enevoado rumor
de todos os encontros improváveis


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Rhonda Lorence

Ligações
Andreas Vollenweider & Elisa Gilkynson, Paul Simon, Anne Murray, Léo Ferré

Textos:
Alice Vieira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012