Sons da Escrita 064

17 de Outubro de 2008

Primeiro programa do ciclo Álvaro Magalhães

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Álvaro Magalhães

As coisas.1 (Álvaro de Magalhães)

Por que é que as coisas são
assim tanto como são?
Por que não são outras coisas,
ao menos de vez em quando
e às vezes são mais ou menos
e outras menos ou mais?
Por que é que as coisas são
sempre assim tão tais e quais?
Por que é que os relógios, em vez de horas
não dão peras ou maçãs
E os calendários nunca vão de férias
ou fazem gazeta ou apanham uma gripe
e ficam de cama e nesse dia não há dia?
Por que é que este piano
não é às vezes viola
ou então as duas coisas
e também violoncelo
ou o que lhe der na cabeça?
Ou, então, em vez de tocar,
se senta numa cadeira
e nos fica a ouvir a nós
e depois diz:
“tenho de mandar afinar esta pessoa”?
E não rói as unhas,
nem faz pino, nem joga futebol,
nem veste um fato de banho
e vai à praia no Verão?


Why does it always rain on me? (Travis) 

I can't sleep tonight
Everybody saying everything's alright
Still I can't close my eyes
I'm seeing a tunnel at the end of all these lights

Sunny days
Where have you gone?
I get the strangest feeling when you belong.
Why does it always rain on me?
Is it because I lied when I was seventeen?
Why does it always rain on me?
Even when the sun is shining
I can't avoid the lightning
I can't stand myself
I'm being held up by invisible men
Still life on a shelf when
I got my mind on something else

Why does it always rain on me?
Is it because I lied when I was seventeen?
Why does it always rain on me?
Even when the sun is shining
I can't avoid the lightning
Oh, where did the blue skies go?
And why is it raining so?
It's so cold


Álvaro Magalhães

As coisas.2 (Álvaro Magalhães)

Mas por que é que as coisas são
assim tanto como são?
E por que é que elas vão sempre
para os sítios para onde vão?

E os rios correm para o mar
sem se deter, nem sequer
para beber água
Ou então uma limonada
e não ficam a ver as montras
nem as pessoas nem nada?

E o Sol se vai sempre embora 
e nunca se esquece e fica
connosco pela noite fora
a brincar ou a ver televisão
e quando, de manhã, a manhã vem
lhe diz: “estou cansado, vou dormir
— nem sei as horas que são?”

Por que é que as coisas vão sempre
para os sítios para onde vão?
E por que é que elas estão sempre
nos sítios que estão?

E não vão dar uma volta
ou um passeio maior
e ficam lá muito tempo
e seja o tempo que for?

Por que é que as árvores não levam os arbustos
a passear ao jardim e lhes compram um balão
ou se metem num comboio para outro sitio qualquer
e levam suas raízes, mais os ramos
e as folhas e os ninhos dos passarinhos?

E as estátuas, coitadas,
que nunca vão fazer xixi
nem podem coçar o nariz
e nunca mudam de roupa
e não  se podem baixar
para apanhar as coisas do chão?


I can't tell you why (Eagles)

Look at us baby, up all night
Tearing our love apart
Aren't we the same two people who live
through years in the dark?
Ahh...
Every time I try to walk away
Something makes me turn around and stay
And I can't tell you why 

When we get crazy,
it just ain't to right,
(try to keep you head, little girl)
Girl, I get lonely, too
You don't have to worry
Just hold on tight
(don't get caught in your little world)
'Cause I love you
Nothing's wrong as far as I can see
We make it harder than it has to be
and I can't tell you why
no, baby, I can't tell you why
I can't tell you why
dunno, baby, I can't tell you why
I can't tell you why
I can't tell you why


Álvaro Magalhães

Coisas.3 (Álvaro Magalhães)

Por que é que as coisas são
assim tanto como são?

E as casas, porque é que as casas
nunca mudam de pessoas
e deixam as que lá estavam
e vão para outras melhores
e chegam lá e batem à porta delas?
Sim , porque é que elas não vão?
Porque é que as coisas estão
sempre no sitio em que estão?

E andam assim com um ar
de coisas muito importantes
e são tão bem comportadas
e não têm saudades de outras coisas
nem cócegas nos pés,
nem dores de dentes,
nem imaginação?

Mas por que é que as coisas  são
assim tanto como são?


Dead things (Emiliana Torrini)

You're like me
We're both alone
What's the problem
I don't know
With the same high
The same eyes
But you can't borrow my clothes all the time 

Bad things
Dead things
Sad things have to happen
Sometimes 

I let the snow
Melt in my mouth
Until my head hurts
Until I'm out
Makes me laugh a bit
Makes me cry
Same way you confuse me all the time 

Bad things
Dead things
Sad things have to happen 

Sometimes
Sometimes
Sometimes
Sooometimes


À meia-noite despeço-me do mundo
e corro a abrir a porta dos meus sonhos.
Às vezes, com a pressa, deixo cair 
na escada um sapatinho.
Quando de manhã alguém mo traz, dizendo:
“deixas o sapato em qualquer lado”,
volto a calçá-lo, distraidamente,
e vou ficando, outra vez, desencantado.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Andreas Vollenweider

Ligações
Travis, Eagles, Emiliana Torrini

Textos:
Álvaro Magalhães

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012