Sons da Escrita 065

24 de Outubro de 2008

Segundo programa do ciclo Álvaro Magalhães

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Álvaro Magalhães

O limpa-palavras (Álvaro de Magalhães)

Limpo-palavras.
Recolho-as à noite, por todo o lado:
a palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor.
Trato delas durante o dia
enquanto sonho acordado.
A palavra solidão faz-me companhia.
Quase todas as palavras
precisam de ser limpas e acariciadas:
a palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar.
Algumas têm mesmo de ser lavadas,
é preciso raspar-lhes a sujidade dos dias
e do mau uso.
Muitas chegam doentes,
outras simplesmente gastas, estafadas,
dobradas, pelo peso das coisas
que trazem às costas.
A palavra pedra pesa como uma pedra.
A palavra rosa espalha o perfume no ar.
A palavra árvore tem folhas, ramos altos.
Podes descansar à sombra dela.
A palavra gato espeta as unhas no tapete.
A palavra pássaro abre  as asas para voar.
A palavra coração não pára de bater.
Ouve-se a palavra canção.
A palavra vento levanta papéis no ar
e é preciso fechá-la na arrecadação.
No fim de tudo, voltam os olhos para a luz
e vão para longe,leves palavras voadoras
sem nada que as prenda à terra,
outras vezes nascidas pela minha mão:
a palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão.
A palavra obrigado agradece-me.
As outras não.
A palavra adeus despede-se.
As outras já lá vão, belas palavras lisas
e lavadas como seixos do rio:
a palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio.
Vão à procura de quem as queira dizer
de mais palavras e de novos sentidos
Basta estenderes um braço para apanhares
a palavra barco ou a palavra amor.
Limpo palavras.
A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra.
Recolho-me à noite, trato delas durante o dia.
A palavra fogão cozinha o meu jantar.
A palavra brisa refresca-me
A palavra solidão faz-me companhia.


Loneliness is just a word (Chicago Transit Authority) 

You don't know how bad it's been
Since you been gone
Let me tell you how bad it's been
Since you been gone
People speak but I don't hear
Things all around seem to be unclear
I don't know
What will become of the love you turned off
What will become of the need you turned off

Loneliness is just a word
So I’ve been told
Loneliness becomes a world
That's very cold
People stare but they don't see
All of the hurt that's inside me
I don't know


Álvaro Magalhães

O caçador de borboletas (Álvaro Magalhães)

Sorridente, ao nascer do dia,
ele sai de casa com a sua rede.
Vai caçar borboletas, mas fica preso
à frescura do rio que lhe mata a sede
ou ao encanto das flores do prado.
Vê tanta beleza à sua volta
que  esquece a rede em qualquer lado
e antes de caçar já foi caçado.

À noite,  regressa a casa cansado
e estranhamente feliz
porque a sua caixa está vazia,
mas diz sempre, suspirando:
Que grande caçada e que belo dia!

Antes de entrar, limpa as botas
num tapete de compridos pêlos
e sacode distraído,
as muitas borboletas de mil cores
que lhe pousaram nos ombros, nos cabelos.


Butterflies (Natalia Imbruglia)

Swallow purple terror candy
Don't forget to breathe
Sickened by the wanting
And drowning from the need
This dichromatic vision
Of one who does not care
To sipping cocktail sedatives
Two months to hide somewhere
Butterflies, butterflies
Cut the stomach out and
Hand it over
Butterflies, butterflies
My heart will be
The bridge that
You walk over

The wolf has
Caught the chicken
And now I feel unsteady
Emotions on the blink again
So kick me
When you're ready
Here lies a violet coffin
The death of my control
Along with all my skeletons
They put them in a hole

Sickened by the notion
I give myself again
Choking on the bullet
The gun that's found a friend
So raise your glass to sorrow
And drink to all the pain
Tie a silver ribbon around
The pieces that remain


Álvaro Magalhães

O brincador (Álvaro Magalhães)

Quando for grande, não quero ser médico, engenheiro ou professor.
Não quero trabalhar de manhã à noite, seja no que for.
Quero brincar de manhã à noite, seja no que for.
Quando for grande, quero ser um brincador.
Ficam, portanto, a saber: não vou para a escola aprender a ser um médico, um engenheiro ou um professor. Tenho mais em que pensar e muito mais que fazer.
Tenho tanto que brincar, como brinca um brincador, muito mais o que sonhar, como sonha um sonhador, e também que imaginar, como imagina um imaginador...
A mãe diz que não pode ser, que não é profissão de gente crescida. E depois acrescenta, a suspirar: “é assim a vida”. Custa tanto a acreditar. Pessoas que são capazes, que um dia também foram raparigas e rapazes, mas já não podem brincar.
A vida é assim? Não para mim. Quando for grande, quero ser brincador. Brincar e crescer, crescer e brincar, até a morte vir bater à minha porta. Depois também, sardanisca verde que continua a rabiar mesmo depois de morta. Na minha sepultura, vão escrever: “Aqui jaz um brincador. Era um homem simples e dedicado, muito dado, que se levantava cedo todas as manhãs para ir brincar com as palavras.”


Jokerman (Caetano Veloso)

Standing on the waters casting your bread
While the eyes of the idol with the iron head are glowing.
Distant ships sailing into the mist,
You were born with a snake in both of your fists while a hurricane was blowing.
Freedom just around the corner for you
But with the truth so far off, what good will it do?
Jokerman dance to the nightingale tune,
Bird fly high by the light of the moon, Oh, oh, oh, Jokerman.
So swiftly the sun sets in the sky, You rise up and say goodbye to no one.
Fools rush in where angels fear to tread,
Both of their futures, so full of dread, you don't show one.
Shedding off one more layer of skin,
Keeping one step ahead of the persecutor within.
You're a man of the mountains, you can walk on the clouds,
Manipulator of crowds, you're a dream twister.
You're going to Sodom and Gomorrah
But what do you care? Ain't nobody there would want to marry your sister.
Friend to the martyr, a friend to the woman of shame,
You look into the fiery furnace, see the rich man without any name.
Well, the Book of Leviticus and Deuteronomy,
The law of the jungle and the sea are your only teachers.
In the smoke of the twilight on a milk-white steed,
Michelangelo indeed could've carved out your features.
Resting in the fields, far from the turbulent space,
Half asleep near the stars with a small dog licking your face.
Well, the rifleman's stalking the sick and the lame,
Preacherman seeks the same, who'll get there first is uncertain.
Nightsticks and water cannons, tear gas, padlocks,
Molotov cocktails and rocks behind every curtain,
False-hearted judges dying in the webs that they spin,
Only a matter of time 'til night comes steppin' in.
It's a shadowy world, skies are slippery gray,
A woman just gave birth to a prince today and dressed him in scarlet.
He'll put the priest in his pocket, put the blade to the heat,
Take the motherless children off the street
And place them at the feet of a harlot.
Oh, Jokerman, you know what he wants,
Oh, Jokerman, you don't show any response.


Estamos no inverno, entristece a luz
e eu levo as pequenas coisas do dia
para dentro  da casa e da página
muito branca onde brilha agora o Sol.
O gato adormeceu junto ao fogão,
está a sonhar com a primeira serradura;
a mãe espreita da velha fotografia
e parece ensaiar um passo mas continua parada;
no tecto, sobre a cabeça, a lâmpada
vigia-me, como olho de um insecto.
Enquanto lá fora passa o vento
que leva para longe o nosso tempo e não traz de volta,
tento abrir , com a chave de palavras,
a porta fechada do meu reino perdido.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Dan Gibson

Ligações
Chicago Transit Authority, Natalia Imbruglia, Caetano Veloso

Textos:
Álvaro Magalhães

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012