Sons da Escrita 066

31 de Outubro de 2008

Terceiro programa do ciclo Álvaro Magalhães

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Álvaro Magalhães

Fala a tartaruga (Álvaro de Magalhães)

Devagar, eu? Nem nisso penso.
Apenas vou, seguindo o ritmo
da natureza a que pertenço.

Eu caminho e vivo
como cresce a erva (devagar?)
como se enchem  de flores as árvores
e se forma os rebanhos de nuvens no ar. 

Vocês é que vão desenfreados
e só vêem manchas, pedaços do que existe.
Como se estivesse alguém a empurrar-vos...
É muito triste!

De corrida em corrida, como a lebre,
chegareis  antes de mim ao fim
da grande corrida que é a vida.
Só que não ides ganhar , mas perder.
E, o que é pior, sem ter visto nada,
deixando quase tudo por fazer.

Devagar, cada vez mais devagar
eu também lá acabarei por chegar.
Terei então ganho a corrida
e, principalmente,
a vida.


Winner/looser (Stomu Yamashta's Go) 

Sometimes I think I'm losing
Then again I think I win
I don't want to think at all of hope

It could be better for me
If I win or I give in
It could be better for you
If I lose everything
It could be better for you
If I lose or you give in
It could be better for me
If you lose everything

When you win sometimes you lose
All that you had when you lose
It could be better for me
If I win or give in
It could be better for you
If you lose or give in

When win, when you lose
I don't know who to choose
Winner lose
Loser win
Winner lose
Loser win


Álvaro Magalhães

Fala a preguiça (Álvaro Magalhães)

Eu gosto tanto, tanto ,tanto
de estar quieta, muito parada,
de fazer nada, coisa nenhuma,
e de fazer isso, que é não fazer
e de não estar, não ir, também.
Eu cá faço nada e todos
me dizem que faço isso muito bem.

Faço arroz de nada, pudim de nada
(que não é nada, está-se mesmo a ver)
e é tudo muito bom, delicioso,
só por não ser preciso fazer.

Eu faço nada, sou um nadador,
mas não daqueles que nadam mesmo,
O que é cansativo, tão maçador;
é que nadar, cá para mim,
tem um defeito insuportável:
aquele erre que está no fim .

E não digam que não faço nada
porque eu faço isso o mais que posso
e se não faço mais é porque mesmo nada
fazê-lo muito é uma maçada.
Não quero ir. Ainda é cedo.
Que pressa é essa? Não pode ser!
Deixem-me estar porque eu hoje tenho
bastante nada para fazer.


Don't speak (No Doubt)

You and me we used to be together, every day together, always

I really feel that I'm losing my best friend, I can't believe this could be the end

It looks as though you're letting go and if it's real, well I don't want to know

Don't speak I know just what you're saying
So please stop explaining
Don't tell me 'cause it hurts
Don't speak
I know what you're thinking
I don't need your reasons
Don't tell me 'cause it hurts

Our memories they can be inviting
But some are altogether mighty frightening

As we die, both you and I
With my head in my hands I sit and cry

It's all ending
Gotta stop pretending who we are

You and me
I can see us dying, are we?

I know you good, I know you good
I know you real good, oh, Lalalala, lalalala
Don't! Don't!

Oh, oh
Hush, hush, darling - hush, hush, darling
Hush, hush - don't tell me 'cause it hurts
Hush, hush, darling - hush, hush, darling
Hush, hush - don't tell me 'cause it hurts


Álvaro Magalhães

Fala a Bela Adormecida (Álvaro Magalhães)

Ah! o príncipe…
Ouço os seus passos no meu sonho
que se apaga como um perfume
ou uma velha recordação.
Vai chegando, já não é só um segredo
guardado no coração.

Mas se realmente me ama
porque me vem acordar?
Desperta, de olhos abertos,
poderei sonhar?

Querido príncipe, não me beijes já,
demora só um pouco mais de tempo.
Dormir é sempre tão sereno
e é sempre sonho, movimento.

Não mates a bela rosa
ou a ave que ainda canta
no meu jardim interior;
nem digas à luz do dia
essa palavra secreta (amor…)

E ouve:
Se sou Bela, como dizem,
é só porque estou Adormecida.
Ouviste?
Melhor que viver
é sonhar a vida.


Perfect princess (Maria Montell)

Please talk to me
Where are those words of love
You used to whisper in my ear
Now your words drive me to tears

Please talk to me
What am I doing here
And where are all the dreams we dreamed
Is this  every distance need

The closeness we felt between us
Slowly slips away
We’re like here alone together
The distance grows day by day

I’m sorry to say that I can’t be your Perfect Princess
No, there’s no way, that I can be your Perfect Princess
It’s sad but it’s true
The questions of our first night
The magic of last night
Is trading away

Come listen now
I don’t think you know
It takes two to work it out
That’s what love is all about
Give and take
Give and take is the key
And you put all the blame on me
But love is not a one way street


Quando o Sol se vai e é chegada a Lua
o pai corre fechos, persianas,
vai trancar o portão que dá para a rua.
Depois adormeço, mas os meus sonhos
não cabem na casa e eu saio
para riscar a noite com um fio de luz,
cavalgar mistérios até de manhã.
À noite , uma simples brisa escancara portas e janelas
e não há chave, fecho ou tranca
que encerre a porta larga dos meus sonhos.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Andy Summers

Ligações
Stomu Yamashta’s Go, No Doubt, Maria Montell

Textos:
Álvaro Magalhães

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012