Sons da Escrita 083

6 de Outubro de 2006

Segundo programa do ciclo Ana Luar

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Ana Luar

Vazio (Ana Luar)

Dói-me a alma… sinal de desgaste mental.
Sinto esta mão que passeia pelos caminhos da escrita,
Se cansa das interrogações…
Das acusações…
Dos pontos finais…
Por isso rastejo pelo dorso das palavras
Como um réptil na procura de alimento,
Devorando em delírio todas as máximas imaginadas.
Não anuncio a morte dos verbos,
Porque as palavras não expiram vazias,
No esquecimento do silêncio.
O vocábulo respira vida,
Torna a nossa existência rítmica,
Quase latejante de tanto sentido que faz.
A escrita será sempre narcótica,
Pois corrói com lentidão a mente mais contradita.
E nesta escrita dorida… a que me entrego em dor
Exponho na galeria dos sentimentos
O quadro que pintei dentro de mim.


The empty dancehall (All About Eve) 

Ribbons from your dancing shoes,
In shreds and threads and feeling used,
Are hanging up our yesterdays.
Down the street, the empty dancehalls,
Due to empty circumstance
All seem to be closed down today.
And through the silence...

I hear the word for love,
I hear the word for death,
But I don't hear any answer.
While death can talk of la mort,
And love can whisper l'amour
The floor has lost his dancers.

Take your partner by the hand,
And dance to the ghost of a sarabande,
Moving like a miracle.
Shoe to shoe and cheek to cheek,
Every day of every week,
Step by step by century.
Through the silence...


Ana Luar

Há tanto a falar (Ana Luar)

Há tanto a dizer…
Tanto, que preciso escrever, noite e dia,
Para te falar tudo o que o meu coração dita.
Porque tu…
Tu incitas-me à escrita!
Abalaste as minhas estruturas
no momento crucial
Em que começava a desacreditar…
E por ti…
Apenas por ti…
As palavras flúem com uma brisa suave.
Surgindo como por encanto,
Suaves como uma melodia… no derrame do sonho!
As palavras…
Vibram,
Amam
Para lá do tempo.
Por isso me entrego no embalo das vírgulas,
Qual devaneio no abraço das frases de amor!
Quero que me escutes,
Que te revejas nelas,
Que sintas que são tuas…
E se alguém um dia disser
Que a minha escrita é pura indiferença
Diz-lhe que o meu gostar não é mera coincidência!
É por isso e por muito mais,
Que muito amo, quando escrevo…
Adoro escrever para ti…
Porque te amo.


Because (George Martin/Vanessa Mae)

Because the world is round it turns me on
Because the world is round

Because the wind is high it blows my mind
Because the wind is high

Love is old, love is new
Love is all, love is you

Because the sky is blue, it makes me cry
Because the sky is blue


Ana Luar

Arte de amar (Ana Luar)

Perco-me em caminhos labirínticos
Em que a arte do bem-querer
Se expõe no prazer de te amar.
Trago desejos contidos
Na minha pele de artesã,
Em que teço palavras de amor,
Sempre que os meus olhos
Encontram os teus.
Bordo versos em carícias,
Quando pegas a minha mão
E, num gesto de ternura,
a proteges com as tuas.
Pinto sonhos com palavras coloridas,
Que vou entregando,
Em beijos de prazer azul.
Sim azul…
Azul dos teus olhos.
Para ti vou esculpir palavras;
Palavras secretas
Que te falem no silêncio do olhar
Vou moldar... vogais que suspiram amor
Que te façam brilhar a alma,
Letras mudas,
Proibidas,
que, encapotadas,
Ocultam o que não pode ser dito.
E no fim, amor…
Sim… no fim desta arte secreta…
Vou expor ao mundo todos os trabalhos
Criados em nome do amor.


Pride (in the name of love) (U2)

One man come in the name of love
One man come and go
One man come here to justify
One man to overthrow

In the name of love
What more in the name of love
In the name of love
What more in the name of love

One man caught on a barbed wire fence
One man he resist
One man washed on an empty beach
One man betrayed with a kiss

Early morning, April 4
A shot rings out in the Memphis sky
Free at last, they took your life
They could not take your pride


As palavras que escrevo, são o espelho das minhas buscas,
Reflexo dos meus silêncios,
Retalhos do meu viver.
E mesmo nos momentos em que
Todas as confissões são escassas,
Segredo às palavras a razão das minhas dores,
revelando em cada texto,
o sabor a sal das minhas sentenças de amor.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Suzanne Ciani

Ligações
All About Eve, George Martin, Vanessa Mae, U2

Textos:
Ana Luar

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012