Sons da Escrita 104

16 de Março de 2007

Primeiro programa do ciclo André Moreira

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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André Moreira

Semnome, 15 de Agosto de 1994 (André Moreira)

Semnome, 15 de Agosto de 1994

Guida,
acabei de chegar a Semnome vindo de Lugaralgum
aqui vejo, sinto, cheiro; sim, vejo coisas que só por uma vez vi, num sonho alucinado, alucinante, de alucinar:
– o céu é um imenso chocolate que se derrete sobre nós
– nas árvores nasce a música que me invade e me faz cócegas
– e o chão reflecte a luz dos teus olhos, que são o sol

amo-te


The way I feel inside (André Moreira) 

Should I try to hide
The way I feel inside
My heart for you?
Would you say that you
Would try to love me too?
In your mind could you ever be
Really close to me?
I can tell the way you smile
If I feel that I could be certain then
I would say the things
I want to say tonight

But till I can see
That you'd really care for me
I will dream that someday you'll be
Really close to me
I can tell the way you smile
If I feel that I could be certain then
I would say the things
I want to say tonight

But till I can see
That you'd really care for me
I'll keep trying to hide
The way I feel inside


André Moreira

Semnome, 16 de Agosto de 1994 (André Moreira)

Semnome, 16 de Agosto de 1994

Guida,
aqui os dias esvaem-se rapidamente, dissolvem-se na noite a uma velocidade estonteante, enquanto o chocolate cede o lugar às estrelas
nunca chove de noite, em Semnome.


Unchained melody (André Moreira)

Whoa! My love, my darling,
I hunger for your touch,
Alone. Lonely time.
And time goes by, so slowly,
And time can do so much,
Are you still mine?
I need your love.
I need your love.
God speed your love to me.

Lonely rivers flow to the sea, to the sea,
To the open arms of the sea.
Lonely rivers sigh, wait for me, wait for me,
I'll be coming home, wait for me.

Whoa! My love, my darling,
I hunger, hunger!, for your love,
For love. Lonely time.
And time goes by, so slowly,
And time can do so much,
Are you still mine?
I need your love.
I need your love.
God speed your love to me.


André Moreira

Semnome, 17 de Agosto de 1994 (André Moreira)

Semnome, 17 de Agosto de 1994

Guida,
hoje morreu o dono da pensão em que me instalei
aqui não se choram os mortos — sorri-se
não há lutos nem sofrimentos — falsos ou verdadeiros
amam-se os mortos


Nothing really changed (André Moreira)

i need to fix the colours
the lights have been turned on
up the white corridor
the dream machine is done and
it sows me through the rainbows
but no harvest has been done
and all these bugs
they’ve been teasing me
they’re sucking all my blood
i hear my name echoing
through the fissures of the door
is that you calling me back home?
is it the devil of my own?
come and feed the land
where i was brought up
where i drive my fears insane
i know that i have died once but nothing really changed


Semnome, 18 de Agosto de 1994 (André Moreira)

Semnome, 18 de Agosto de 1994

Guida,
hoje embalei o vento; soltei-o em todas as direcções; criei um tufão e acabei com ele — e ele comigo
estou cansado e longe da pensão e só o mar me ofereceu guarida — mas eu não sei nadar.


Anyway (André Moreira)

see the laughts
the amazing gaffs
they’re smashing you
will you collapse?
will your pitty be enough?
will you stand the uppercut?
hide your smile behind the scarf
you can’t count on xmas anytime
lay down your hands and
mute your voice
you know it speaks for difference in this brave new world


Semnome, 20 de Agosto de 1994 (André Moreira)

Semnome, 20 de Agosto de 1994

Guida,
estou com medo
o vento espalha minha alma por Semnome e, sem me dar satisfação, leva-a a Lugaralgum e trá-la de volta, continuamente, num ciclo infernal que me fustiga cá dentro, bem dentro de mim
o ar que me envolve aperta-me, enlaça-me, sufoca-me, não me deixa respirar
os insectos perseguem-me e sugam-me o sangue das veias
ouço o meu nome a ecoar ao virar de cada esquina, soprado por alguém por entre as frinchas dos portões da aldeia

serás tu a chamar-me de volta?


Glue (André Moreira)

my body lays on sunday
lewis carrol is near my bed
the strings on recycled paper
come from farmingdale
new york
they say
think my brain is thinking backwards
each day i’m becoming younger
aging is senseless when cannot express what i feel when the beasts fill my head
imagine
highways invadind your house
half-a-dozen burnouts
milk-blooded rainbows on your vcr
and special combs for naked heads from up-john’s lab down is marrakesh


Algures, 31 de Dezembro de 1994 (André Moreira)

Algures, 31 de Dezembro de 1994

ontem senti vontade de abraçar o sol;
da mesma maneira que te quero abraçar a ti;
da mesma maneira que te quero aquecer,
da mesma maneira que te quero fazer brilhar, como ele brilha…

quero esconder-te por detrás do horizonte
guardar-te lá,
só para mim.


tu és o desejo maravilhoso que me faz voar

e eu, que não acredito nem em fantasmas nem em bruxas, só posso perguntar:

— De onde vens tu, feiticeira?

Espera por mim
Estou a chegar


Till the world that you've been chasing (André Moreira)

and in time
out of a shell
the rush i face ain’t so sublime
now you’re the light
an inner light
you bold my sight
to be precise
till the world that you’ve chasing
starts colliding with my own
till you think this set is over
but it has really just begun
i can see your house from here
opened doors


Lugaralgum, 1 de Janeiro de 1995 (André Moreira)

Lugaralgum, 1 de Janeiro de 1995

acabei de chegar a lugaralgum
venho de semnome seguindo a tua voz

assim que deixei a aldeia fui engolido pela planície vizinha e percorri as suas entranhas, sofregamente, à espera de te encontrar, por detrás do horizonte, onde te guardo só para mim

convenhamos que o horizonte não é o melhor sítio para te guardar
compreendo agora que, onde estás, escondida dos outros, também eu não te vejo
e é por isso que escrevo esta carta sem destino, na esperança que o carteiro, furtuitamente, te encontre um destes dias

e desse dia para a frente faz-me um favor
tem um bom ano

amo-te


But me no buts (André Moreira)

heal these eyes
it’s nice to see you again though
i’d tossed you and turned you away
grim cold night
january
a fridge is in my head
you say to me
fast steps near joe’s bar
gloves off to push the door
hot coffee ready
no drink
no breath nor fear mutual
we left
joe still waits for peter
to pour the coffee
which is cold


Lugaralgum, 2 de Janeiro de 1995 (André Moreira)

Lugaralgum, 2 de Janeiro de 1995

já percorri a aldeia de lés a lés e não te encontrei
lugaralgum ainda não é o meu horizonte — eu posso ver mais longe que lugaralgum, muito mais longe

Ai, quem me dera ser cego


Drive (André Moreira)

i fear i hear me loaded on your drive
you take you fake you browse me undecently
this may sound like commom sense
our polaroid is growing softly tense

we may take a while to gather
but in the end we’ll be together

the room is sunny
it’s not you it’s just my mind
it’s not a pleasant role to play but
i think i’m doing great

i fear i hear you take you fake you browse
this takes this fakes and takes a while to end


Semnome, 19 de Agosto de 1994

Guida,
aqui não há americanos
em Semnome, eles são impedidos de entrar
são detidos nos portões da aldeia e metidos no esgoto que os leva de volta ao novo mundo
hipocrisias, demagogias, pestes, pragas e gente que se julga superior aos demais são lixo
aqui não há americanos


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Andreas Vollenweider

Ligações
André Moreira

Textos:
André Moreira

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012