Sons da Escrita 334

9 de Abril de 2011

Primeiro programa do ciclo Antero de Quental

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Antero de Quental

Uma amiga

Aqueles, que eu amei, não sei que vento
Os dispersou no mundo, que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que à noite evoca o sentimento...

Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos... que eu invejo...
Passam por mim, mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!

D’aquela primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu só foste fiel  tu, como d’antes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal... e escarnecê-lo!


Hello friend (Chris Rea)

Hello friend, where you been so long?
Time goes by, so easy it sleeps away
Just like a shadow at the end of the day

Hello friend, how are things for you these days?
Some guy from way-back-when, he mentioned your name
Did he ever get back to you?
Ah, you know I told him to

Sometimes I turn and I swear I hear you call
And I often wonder how we lost what we knew
Seems it gone in the wind, washed away in the rain
And the years go by and by

The bridges you burned, long sinced turned into ashes
When there were no reasons, now the river runs dry
Seems it gone in the wind, washed away in the rain
And the years go by and by
Where you been so long


Antero de Quental

Ideal

Aquela, que eu adoro, não é feita
De lírios nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas
Da antiga Vênus de cintura estreita...

Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortais entre ruínas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
D’um corcel e combate satisfeita...

A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino...

É como uma miragem que entrevejo,
Ideal, que nasceu da solidão,
Nuvem, sonho impalpável do Desejo...


The one I love (David Gray)

Gonna close my eyes
Girl and watch you go
Running through this life darling
Like a field of snow
As the tracer glides
In its graceful arc
Send a little prayer out to ya
'cross the falling dark 

Tell the repo man
And the stars above
You're the one I love 

Perfect summers night
Not a wind that breathes
Just the bullets whispering gentle
'mongst the new green leaves
There's things I might have said
Only wish I could
Now I'm leaking life faster
Then I'm leaking blood 

Tell the repo man
And the stars above
You're the one I love
You're the one I love
The one I love 

Don't see Elysium
Don't see no fiery hell
Just the lights up bright baby
In the bay hotel
Next wave coming in
Like an ocean roar
Won't you take my hand darling
On that old dancefloor 

We can twist and shout
Do the turtle dove
And you're the one I love
You're the one I love
The one I love


Antero de Quental

O palácio da ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d’ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão  e nada mais!


Beware of darkness (George Harrison)

Watch out now, take care
Beware of falling swingers
Dropping all around you
The pain that often mingles
In your fingertips
Beware of darkness

Watch out now, take care
Beware of the thoughts that linger
Winding up inside your head
The hopelessness around you
In the dead of night

Beware of sadness
It can hit you
It can hurt you
Make you sore and what is more
That is not what you are here for

Watch out now, take care
Beware of soft shoe shufflers
Dancing down the sidewalks
As each unconscious sufferer
Wanders aimlessly
Beware of Maya

Watch out now, take care
Beware of greedy leaders
They take you where you should not go
While Weeping Atlas Cedars
They just want to grow, grow and grow
Beware of darkness


Um espírito habita a imensidade:
Uma ânsia cruel de liberdade
Agita e abala as formas fugitivas.
E eu compreendo a vossa língua estranha,
Vozes do mar, da selva, da montanha...
Almas irmãs da minha, almas cativas!...


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Mark Knopfler

Ligações
Chris Rea, David Gray, George Harrison

Textos:
Antero de Quental

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012