Sons da Escrita 335

16 de Abril de 2011

Segundo programa do ciclo Antero de Quental

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Antero de Quental

Os cativos

Encostados às grades da prisão,
Olham o céu os pálidos cativos.
Já com raios oblíquos, fugitivos,
Despede o sol um último clarão.

Entre sombras, ao longe, vagamente,
Morrem as vozes na extensão saudosa.
Cai do espaço, pesada, silenciosa,
A tristeza das cousas, lentamente.

E os cativos suspiram. Bando de aves
Passam velozes, passam apressados,
Como absortos em íntimos cuidados,
Como absortos em pensamentos graves.

E dizem os cativos: Na amplidão
Jamais se extingue a eterna claridade...
A ave tem o vôo e a liberdade...
O homem tem os muros da prisão!

Aonde ides? qual é vossa jornada?
À luz? à aurora? à imensidade? aonde?
 Porém o bando passa e mal responde:
À noite, à escuridão, ao abismo, ao nada!  

E os cativos suspiram. Surge o vento,
Surge e perpassa esquivo e inquieto,
Como quem traz algum pesar secreto,
Como quem sofre e cala algum tormento...

E dizem os cativos: Que tristezas,
Que segredos antigos, que desditas,
Caminheiro de estradas infinitas,
Te levam a gemer pelas devesas?

Tu que procuras? que visão sagrada
Te acena da soidão onde se esconde?
 Porém o vento passa e só responde:
a noite, a escuridão, o abismo, o nada! 

E os cativos suspiram novamente.
Como antigos pesares mal extintos,
Como vagos desejos indistintos,
Surgem do escuro os astros, lentamente...

E fitam-se, em silêncio indecifrável,
Contemplam-se de longe, misteriosos,
Como quem tem segredos dolorosos,
Como quem ama e vive inconsolável...

E dizem os cativos: Que problemas
Eternos, primitivos vos atraem?
Que luz fitais no centro d’onde saem
A flux, em jorro, as intuições supremas?

Por que esperais? n’essa amplidão sagrada
Que soluções esplêndidas se escondem?
 Porém os astros tristes só respondem:
a noite, a escuridão, o abismo, o nada!  

Assim a noite passa. Rumorosos
sussurram os pinhais meditativos.
Encostados às grades, os cativos
Olham o céu e choram silenciosos.


Just like a prisoner  (Eric Clapton)

Just like a prisoner,
He don't know right from wrong.
Just like a baby,
He sings a pleading song

And that's why
So many tears must fall.
Yes, that's why
So many tears must fall.

Just like a sailor,
He steers away from home.
He feels a tidal wave
In his heart, but he ain't alone

[Repeat First Chorus]

I'm like that prisoner,
I don't know right from wrong.
Just like that baby,
I sing a pleading song

And that's why
You'll never know how I feel.
Yes, that's why
You'll never know how I feel.


Antero de Quental

Os vencidos

Três cavaleiros seguem lentamente
Por uma estrada erma e pedregosa.
Geme o vento na selva rumorosa,
Cai a noite do céu, pesadamente.

Vacilam-lhes nas mãos as armas rotas,
Têm os corcéis poentos e abatidos,
Em desalinho trazem os vestidos,
Das feridas lhes cai o sangue, em gotas.

A derrota, traiçoeira e pavorosa,
As frontes lhes curvou, com mão potente.
No horizonte escuro do poente
Destaca-se uma mancha sanguinosa.

E o primeiro dos três, erguendo os braços,
Diz n’um soluço: “Amei e fui amado!
Levou-me uma visão, arrebatado,
Como em carro de luz, pelos espaços!

Com largo vôo, penetrei na esfera
Onde vivem as almas que se adoram,
Livre, contente e bom, como os que moram
Entre os astros na eterna primavera.

Por que irrompe no azul do puro amor
O sopro do desejo pestilente?
Ai do que um dia recebeu de frente
O seu hálito rude e queimador!

A flor rubra e olorosa da paixão
Abre lânguida ao raio matutino,
Mas seu profundo cálix purpurino
Só ressuma veneno e podridão.

Irmãos, amei  amei e fui amado...
Por isso vago incerto e fugitivo,
E corre lentamente um sangue esquivo
Em gotas, de meu peito alanceado.”

Responde-lhe o segundo cavaleiro,
Com sorriso de trágica amargura:
“Amei os homens e sonhei ventura,
Pela injustiça heróica, ao mundo inteiro.

Pelo direito, ergui a voz ardente
No meio das revoltas homicidas:
Caminhando entre raças oprimidas,
Fi-las surgir, como um clarim fremente.

Quando há-de vir o dia da justiça?
Quando há-de vir o dia do resgate?
Traiu-me o gládio em meio do combate
E semeei na areia movediça!

As nações, com sorriso bestial,
Abrem, sem ler, o livro do futuro.
O povo dorme em paz no seu monturo,
Como um leito de púrpura real.

Irmãos, amei os homens e contente
Por eles combati, com mente justa...
Por isso morro à míngua e a areia adusta
Bebe agora meu sangue, ingloriamente.” 

Diz então o terceiro cavaleiro:
“Amei a Deus e em Deus pus alma e tudo.
Fiz do seu nome fortaleza e escudo
No combate do mundo traiçoeiro.

Invoquei-o nas horas afrontosas
Em que o mal e o pecado dão assalto,
Procurei-o, com ânsia e sobressalto,
Sondando mil ciências duvidosas.

Que vento de ruína bate os muros
Do templo eterno, o templo sacrossanto?
Rolam, desabam, com fragor e espanto,
Os astros pelo céu, frios e escuros!

Vacila o sol e os santos desesperam...
Tédio ressuma a luz dos dias vãos...
Ai dos que juntam com fervor as mãos!
Ai dos que crêem! ai dos que inda esperam!

Irmãos, amei a Deus, com fé profunda...
Por isso vago sem conforto e incerto,
Arrastando entre as urzes do deserto
Um corpo exangue e uma alma moribunda.”

E os três, unindo a voz n’um ai supremo,
E deixando pender as mãos cansadas
Sobre as armas inúteis e quebradas,
N’um gesto inerte de abandono extremo,

Sumiram-se na sombra duvidosa
Da montanha calada e formidável,
Sumiram-se na selva impenetrável
E no palor da noite silenciosa.


I’m a looser (Beatles)

I'm a loser
I'm a loser
And I'm not what I appear to be

Of all the love I have won or have lost
there is one love I should never have crossed
She was a girl in a million, my friend
I should have known she would win in the end

I'm a loser
And I lost someone who's near to me
I'm a loser
And I'm not what I appear to be

Although I laugh and I act like a clown
Beneath this mask I am wearing a frown
My tears are falling like rain from the sky
Is it for her or myself that I cry

I'm a loser
And I lost someone who's near to me
I'm a loser
And I'm not what I appear to be

What have I done to deserve such a fate
I realize I have left it too late
And so it's true, pride comes before a fall
I'm telling you so that you won't lose all

I'm a loser
And I lost someone who's near to me
I'm a loser
And I'm not what I appear to be

Antero de Quental

Mais luz!

Amem a noite os magros crapulosos,
E os que sonham com virgens impossíveis,
E os que se inclinam, mudos e impassíveis,
À borda dos abismos silenciosos...

Tu, lua, com teus raios vaporosos,
Cobre-os, tapa-os e torna-os insensíveis,
Tanto aos vícios cruéis e inextinguíveis,
Como aos longos cuidados dolorosos!

Eu amarei a santa madrugada,
E o meio-dia, em vida refervendo,
E a tarde rumorosa e repousada.

Viva e trabalhe em plena luz: depois,
Seja-me dado ainda ver, morrendo,
O claro sol, amigo dos heróis!


I saw the light (Todd Rundgren)

It was late last night
I was feeling something wasn't right
There was not another soul in sight
Only you, only you
So we walked along,
though I knew there was something wrong
And a feeling hit me oh so strong about you
Then you gazed up at me and the answer was plain to see
'Cause I saw the light in your eyes

Though we had our fling
I just never would suspect a thing
'Til that little bell began to ring in my head
In my head
But I tried to run,
though I knew it wouldn't help me none
'Cause I couldn't ever love no one, or so I said
But my feelings for you
were just something I never knew
'Til I saw the light in your eyes

But I love you best
It's not something that I say in jest
'Cause you're different, girl, from all the rest
In my eyes
And I ran out before but I won't do it anymore
Can't you see the light in my eyes


Um século irritado e truculento
Chama à epilepsia pensamento,
Verbo ao estampido de pelouro e obus...

Mas a ideia é n’um mundo inalterável,
N’um cristalino céu, que vive estável...
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Midori

Ligações
Eric Clapton, Beatles, Todd Rundgren

Textos:
Antero de Quental

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012