Sons da Escrita 336

19 de Abril de 2011

Terceiro programa do ciclo Antero de Quental

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Antero de Quental

Mors liberatrix

Na tua mão, sombrio cavaleiro,
Cavaleiro vestido de armas pretas,
Brilha uma espada feita de cometas,
Que rasga a escuridão, como um luzeiro.

Caminhas no teu curso aventureiro,
Todo envolto na noite que projetas...
Só o gládio de luz com fulvas betas
Emerge do sinistro nevoeiro.

 “Se esta espada que empunho é coruscante,
(Responde o negro cavaleiro-andante)
É porque esta é a espada da Verdade,

Firo mas salvo... Prostro e desbarato,
Mas consolo... Subverto, mas resgato...
E, sendo a Morte, sou a liberdade.”


Freedom rider (Traffic)

Like a hurricane around your heart when earth and sky are torn apart
He comes gathering up the bits while hoping that the puzzle fits
He leads you, he leads you
Freedom rider

With a silver star between his eyes that open up at hidden lies
Big man crying with defeat, see people gathering in the street
You feel him, you feel him
Freedom rider

When lightning strikes you to the bone, you turn around, you're all alone
By the time you hear that silent (or siren?) sound, then your soul is in the lost and found
Forever, forever
Freedom rider
Here it comes


Antero de Quental

O inconsciente

O espectro familiar que anda comigo,
Sem que pudesse ainda ver-lhe o rosto,
Que umas vezes encaro com desgosto
E outras muitas ansioso espreito e sigo,

É um espectro mudo, grave, antigo,
Que parece a conversas mal disposto...
Ante esse vulto, ascético e composto
Mil vezes abro a boca... e nada digo.

Só uma vez ousei interrogá-lo:
“Quem és (lhe perguntei com grande abalo)
fantasma a quem odeio e a quem amo?”

 “Teus irmãos (respondeu) os vãos humanos,
Chamam-me Deus, há mais de dez mil anos...
Mas eu por mim não sei como me chamo...”


Lonely is the name (Sammy Davis Jr.)

Lonely is the name
That I answer to
And crying is the game
Cause I'm losing you
I'll never be the same
Without your love

Believe me
Sorry is the role
That you make me play
Tormented is the soul
That is mine today
I'm lost beyond control
Without your love

Missing is the kiss
Absent is the sigh
Gone, the look
Of love you wore

Was it all a dream
Was it all a lie
Don't you love me anymore

Just tell them
Lonely is the name
It will always be
And crying is the game
Til you're back with me
I'll never be the same
Without your love

(Lonely is the name)
(Crying is the game)
(Without your love)

Missing is the kiss
Absent is the sigh
Gone, the look
Of love you wore

Was it all a dream
Was it all a lie
Don't you love me anymore

Just tell them
Lonely is the name
It will always be
And crying is the game
Til you're back with me
I'll never be the same
Without your love

It will always be
And lonely is the name
Til you're back with me
I'll never be the same...


Antero de Quental

Mors-amor

Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,

D’onde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebrosos e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável, mas plácido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera estranha sem temor,
E o corcel negro diz: “Eu sou a Morte!”
Responde o cavaleiro: “Eu sou o Amor!”


Love is all around (Troggs)

I feel it in my fingers
I feel it in my toes
Love is all around me
And so the feeling grows
It is written on the wind
Thats everywhere I go
So if you really love me
Come on and let it show
You know I love you
I always will
My mind's maid up
By the way that I feel
There's no beginning
There be no end
Cause on my love
You can depend
I see your face before me
As I lay on my bed
I kind a get to thinking
Of all the things we said
You gave your promise to me
And I gave mine to you
I need someone beside me
In everything I do
You know I love you
I always will
My mind's maid up
By the way that I feel
There's no beginning
There be no end
Cause on my love
You can depend
It is written on the wind
Thats everywhere I go
So if you really love me
Come on and let it show


Nome, que não se diz; nome, que não se escreve:
Quem vai meter num som o mundo, a imensidão?
O Amor que nome tem? real, jamais o teve…
Escrever!… pois é pouco um livro — o coração?!…


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Rhonda Lorence

Ligações
Traffic, Sammy Davis Jr., Troggs

Textos:
Antero de Quental

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012