Sons da Escrita 398

9 de Junho de 2012

Primeiro programa do ciclo António Aleixo

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Quadras

Quando não tenhas à mão
Outro livro mais distinto,
Lê estes versos que são
Filhos das mágoas que sinto.

Julgam-me mui sabedor;
E é tam grande o meu saber
Que desconheço o valor
Das quadras que sei fazer!

Compreendo que envelheci
E que já daqui não passo,
Como não passam daqui
As pobres quadras que faço.

Vai-se uma luz, outra existe,
Nova aurora nos seduz;
Deve ser muito mais triste
A gente deixar a luz.

Tal qual me sucede a mim:
Sem ter vulto, sem ter voz,
Vive qualquer coisa em nós
Que manda fazer assim.

Quem me vê dirá: não presta,
Nem mesmo quando lhe fale,
Porque ninguém traz na testa
O selo de quanto vale.

Sou humilde, sou modesto;
Mas, entre gente ilustrada,
Talvez me digam que eu presto,
Porque não presto p'ra nada.

Meu aspecto te enganou;
O que a gente é não se vê;
Pergunta a outrem quem sou,
Pois o que sou nem eu sei.

Se pedir, peço cantando,
Sou mais atendido assim;
Porque, se pedir chorando,
Ninguém tem pena de mim.

Peço às altas competências
Perdão, porque mal sei ler,
p'ra aquelas deficiências
Que os meus versos possam ter.


Era uma vez um cantor maldito (Fausto Bordalo Dias)

(texto não disponível)


Quadras

Eu não tenho vistas largas,
Nem grande sabedoria,
Mas dão-me as horas amargas
Lições de filosofia.

P'ra as quadras, onde eu revelo
O que pensas lá contigo,
Tens um sorriso amarelo
Que eu entendo, mas não digo.

Fala quanto te apeteça,
Mas desculpa que eu te diga
Que te falta na cabeça
O que te sobra em barriga.

Tem quase um palmo de boca,
Não pode guardar segredos;
Porém a testa é que é pouca:
Tem pouco mais de dois dedos.

Mentiu com habilidade,
Fez quantas mentiras quis;
Agora fala verdade,
Ninguém crê no que ele diz.

És parvo, mas és distinto,
Só vês bem o que tens perto;
Não compreendes que te minto
Quando te trato por esperto?

Deixam-me sempre confuso
As tuas palavras boas,
Por não te ver fazer uso
Dessa moral que apregoas.

P'ra te tornares distinto
E mostrar capacidade,
Dizes sempre que te minto,
Quando te digo a verdade.


Eis aqui o agiota (Fausto Bordalo Dias)

Eis aqui o agiota

Eis ali a agiotagem

De novo mergulho na luz do astro da música
A minha cabeça
De novo a procura daquela
Melodia que teima
Em nascer as avessas
Se ribomba no contrapasso e se já cruza o ciberespaço
Então
Cuida de ti usurário
Na zona escura do erário
E da folia financeira
Do teu corpo fundo
E mais anónimo
A volta do mundo
Atravessando fronteiras

Esvoaçam

A tua volta esvoaçam
Taxas de juros e cambios
De cambistas e banqueiros
Títulos e dividas
Contraseguros
Visoes garridas
Malabaristas
E oniricas
Do dinheiro

A minha guitarra nao toca para ti
A minha guitarra rosna

Obeso e rebarbativo alardeando
A engorda
O teu figurino
Obesa a corruptela que mais
Disfarça e transforma
Selvagens capitalismos
Em brandos neoliberalismos
O mais doce dos eufemismos
E então
Tu provas na perfeição
Que geres com o teu cifrão
A infelicidade dos outros
Reduzes um drama
O do maior desemprego
A centigramas
A percentagem de uns poucos

Encurralados

Os mais jovens encurralados
Em becos rasos de seringas
Contrafeitos mercadores
Em praças e ruas
Ruelas e avenidas
Envergonhadas
E mais anuladas
As mãos estendidas
De arrumadores

Morreu a proletária ditadura
A ditadura do mercado já nasceu

Se cada vez menos produzem
Mais para a maior minoria
Toda a riqueza
Se cada vez menos para a imensa maioria sobram
Sobras que te caem da mesa
Da guerrilha dos capitais
Em doces paraísos fiscais

Entao
Cuida de ti argentário
O que retrata este sudário
E a maior parte do mundo
Que sobrevive na penumbra
De olhos postos em ti
Moribundo
Mas que te olha já defunto

E enches a boca

De direitos humanos
Enches a boca
De fala
Do pensamento
Mas o do trabalho nunca
E porque será
Que esse direito
No esquecimento fica
Se crucifica
Mais
Se abdica
Mas fica a pergunta

Keynes
Ao pe de ti
E arrumado a um canto
É a alegoria
Ou o retrato de um santo


Quadras

Os meus versos o que são?
Devem ser, se os não confundo,
Pedaços do coração
Que deixo cá neste mundo.

Tu és fonte de água clara
Que deixa ver a nascente,
Porque me mostras, na cara,
O que o teu coração sente.

Embora me queiras tanto
Quanto pode o bem querer,
- Não me queres tanto quanto
Te quero, sem te dizer.

Só desejo dar um beijo
No rosto duma mulher,
Se for maior o desejo
Do que o beijo que eu lhe der.

Só quando sinceramente
Sentimos a dor de alguém,
Podemos descrever bem
A mágoa que esse alguém sente.

P'ra que tentaste subir
Tão alto, mulher vaidosa?
Quem sobe assim vai cair
Na lama mais vergonhosa ...

Meu amor, vê se te ajeitas
A usar meias modernas,
Dessas meias que são feitas
De pele das próprias pernas.

De te ver fiquei repeso,
Em vez de ganhar, perdi;
Quis prender-te, fiquei preso,
E não sei se te prendi.


Foi por ela (Fausto Bordalo Dias)

Foi por ela que amanhã me vou embora
ontem mesmo hoje e sempre ainda agora
sempre o mesmo em frente ao mar também me cansa
diz Madrid, Paris, Bruxelas quem me alcança
em Lisboa fica o Tejo a ver navios
dos rossios de guitarras à janela
foi por ela que eu já danço a valsa em pontas
que eu passei das minhas contas foi por ela
Foi por ela que eu me enfeito de agasalhos
em vez daquela manga curta colorida
se vais sair minha nação dos cabeçalhos
ainda a tiritar de frio acometida
mas o calor que era dantes também farta
e esvai-se o tropical sentido na lapela
foi por ela que eu vesti fato e gravata
que o sol até nem me faz falta foi por ela
Foi por ela que eu passo coisas graves
e passei passando as passas dos Algarves
com tanto santo milagreiro todo o ano
foi por milagre que eu até nasci profano
e venho assim como um tritão subindo os rios
que dão forma como um Deus ao rosto dela
foi por ela que eu deixei de ser quem era
sem saber o que me espera foi por ela


Após um dia tristonho,
De mágoas e agonias
Vem outro alegre e risonho:
São assim todos os dias.

Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Kirsty Hawkshaw

Ligações
Fausto Bordalo Dias

Textos:
António Aleixo

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012