Sons da Escrita 399

16 de Junho de 2012

Segundo programa do ciclo António Aleixo

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Quadras

Até nas quadras que faço
Aos podres que o mundo tem,
Sinto que sou um pedaço
Do mesmo podre também.

Se no sentir fui distinto,
Talvez, por essa razão,
Agora levo e não sinto,
Os pontapés que me dão ...

Não escolho amigos à toa,
Sempre temendo algum perigo:
Primeiro, escolho a pessoa;
Depois, escolho o amigo.

Nomes feios há mais de um ...
Mas calcula a tua classe,
Que não conheço nenhum
Que inda ninguém te chamasse!

Há muitos que são alguém ...
Mas no mundo onde alguém são,
Nunca seriam ninguém,
Se alguém não lhes desse a mão.


É a vida (Sérgio Godinho)

Há-de ser mais claro
tudo um dia, vais ver
tudo nos lugares
que tu separares
entre
o tanto que há pra viver
Por agora é tudo
confusão, tempestade
grita no mar alto
dança no asfalto
cruza
os dias da tua idade
É a vida
o que é que se há-de fazer?
é a vida
o que é que se há-de fazer
Viver!
A noite agora acaba
a lua segue p´ro sol
faz uma directa
corre que nem seta
rumo
ao branco do teu lençol
Olha-te ao espelho
triste-alegre estarás
na boca um sorriso
nos olhos granizo
do amor
hoje deixado p´ra trás
É a vida
o que é que se há-de fazer?
Viver!
Mais tarde verás
o que hás-de ser nesta vida
doutor de aventuras
médico de curas
actor
duma comédia sentida
Sejas o que sejas
hás-de ser invencível
escolhe bem amores
enche-te de cores
pinta
tudo o que em ti é possível
É a vida
o que é que se há-de fazer?
Viver!


Quadras

Há pessoas muito altas
De nome ilustrado e sério,
Porque o oiro tapa as faltas
Da moral e do critério.

Mal de mim se tu pudesses
Fazer-me bem! Eu não queria ...
O bem que tu me fizesses
Pior mal p'ra mim seria ...

O meu mais puro sorriso
Eu não o mostro a ninguém;
Mas sei rir, quando preciso,
A quem me sorri também.

Se o hábito faz o monge
E o mundo quer-se iludido,
Que dirá quem vê de longe
Um gatuno bem vestido?

Foste mordido como eles,
Sofreste, e sem que o recordes,
Agora mordes naqueles
Que sofrem quando lhes mordes.

Sei que pareço um ladrão ...
Mas há muitos que eu conheço
Que, sem parecer o que são,
São aquilo que eu pareço.


O rei vai nu (Sérgio Godinho)

Não sei de imagem
que o tempo não destrua
não sei de ti
se atravessas a rua
vem ter comigo
sempre que for preciso
fala com a voz
fala com o choro
fala com o riso
diz o que é preciso
Viva quem vive
com a cabeça aperrada
e dispara bala
contra o medo apontado
viva quem luta
com a cabeça ao contrário
p´ra ver também
um pouco do lado do adversário
do lado contrário
E viva o dia
em que já não precisas
de reis nem gurus em frases-chave nem divisas
o dia
em que já não precisas
de reis nem papás
nem profetas nem profetisas
Ei,ei que é do rei
o rei foi-se, o rei vai nu
ei, ei, viva eu, viva tu
Não sei de imagem
que o amor não persiga
não sei de ti
se não fores minha amiga
faz o que queres
que se queres é preciso
faz o melhor
fá-lo com loucura
e com juízo
faz o que é preciso
Viva quem muda
sem ter medo do escuro
o desconhecido
é o irmão do futuro
viva quem ama
com o coração aos saltos
e mesmo assim vence
os seus altos e baixos
e os altos dos seus sobressaltos
E viva o dia
em que já não precisas
de reis nem gurus
nem frases-chave nem divisas
o dia
em que já não precisas
de reis nem papás
nem profetas nem profetisas
Ei, ei que é do rei
o rei foi-se, o rei vai nu
ei, ei, viva eu, viva tu


Quadras

O Destino, por ser forte,
Esta má sorte me deu:
De ter de vender a sorte
Aos mais felizes do que eu.

Muito contra o meu desejo,
Sem lhe q'rer dizer porquê,
Finjo sempre que não vejo
Quem finge que me não vê ...

Por isso é sempre preciso,
p'ra nos livrarmos de p'rigos,
Adular, ter um sorriso,
Para os nossos inimigos ...

P'ra a mentira ser segura
E atingir profundidade,
Tem que trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.

Faz mal o filho que mente
A seus pais, quando rapaz,
E é já tarde quando sente
O mal que a si próprio faz.

Deus vive dentro de nós;
Quando queremos fazer mal
Ouvimos a sua voz
Dizer-nos: - Não faças tal.

Os novos que se envaidecem
P'lo muito que querem ser
São frutos bons que apodrecem
Mal começam a nascer.


Sempre foi assim (Sérgio Godinho)

Corre, corre meu menino
estica o peito para a frente
mete pernas ao caminho
meu dezreizinhos de gente
e até mais ver
Mete pernas pelo mundo
escreve de terras distantes
um postal de vez em quando
p´ra lembrar como era dantes
e até mais ver
Anda comigo
e já vais ver que não te minto
quando digo
que já sinto
o que vai ser
em nós diferente
Sempre foi assim
dizem
sempre foi assim
sempre foi assim
mas está a ser diferente
Atende em todos os lugares
no que muda e no que não
andes lá por onde andares
escolhe bem o teu irmão
e até mais ver
Não há só irmão de leite
não há só irmãos de vinho
aceita quem te quer aceite
escolhe, escolhe meu menino
e até mais ver
anda comigo
e já vais ver que não te minto
quando digo
que já sinto
o que vai ser
em nós diferente
Sempre foi assim
dizem
sempre foi assim
sempre foi assim
mas está a ser diferente
Tempo, tempo já passou
E gente como tu crescendo
dá-me força no que sou
para ser o que vou sendo
e até mais ver
Tempo, tempo que vier
há-de ser p´ra ti diferente
luta, luta meu amor
meu dezreizinhos de gente
e até mais ver
Anda comigo
E já vais ver que não te minto
quando digo
que já sinto
o que vai ser
em nós diferente
Sempre foi assim
dizem
sempre foi assim
sempre foi assim
mas está a ser diferente


Gosto do preto no branco,
Como costumam dizer:
Antes perder por ser franco
Que ganhar por não o ser.

Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Andreas Vollenweider

Ligações
Sérgio Godinho

Textos:
António Aleixo

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012