Sons da Escrita 400

23 de Junho de 2012

Terceiro programa do ciclo António Aleixo

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Quadras

Descreio dos que me apontem
Uma sociedade sã:
Isto é hoje o que foi ontem
E o que há-de ser amanhã.

Vós que lá do vosso império
Prometeis um mundo novo,
Calai-vos, que pode o povo
Q'rer um mundo novo a sério.

Depois de tanta desordem,
Depois de tam dura prova,
Deve vir a nova ordem,
Se vier a ordem nova.

Se fazes tudo às avessas,
Para que prometes tanto?
Não me faças mais promessas,
Bem sabes que não sou santo.

Há luta por mil doutrinas.
Se querem que o mundo ande
Façam das mil pequeninas
Uma só doutrina grande.

Que importa perder a vida
Em luta contra a traição,
Se a Razão, mesmo vencida,
Não deixa de ser Razão?


Cantiga para pedir dois tostões (José Mário Branco)

Nos carris
Vão dois comboios parados
Foste longe e regressaste
Trazes fatos bem cuidados
E já pensas
Em dourar o teu portão
Se és senhor de dez ou vinte
És criado de um milhão
Regressaste
Com um dedo em cada anel
E projectos num papel
E amigos esquecidos
Tempos idos
São tempos que voltarão
Em que pedirás ao chão
Os banquetes prometidos
Milionário que voltaste
Dois tostões p´rós que atraiçoaste
Fazes pontes
Sobre rios e valados
Mas quando o cimento seca
Já morremos afogados
Fazes fontes
No silêncio das aldeias
E a sede é tal que bebemos
Até ter água nas veias
Instituíste
Guarda-sóis e manda-chuvas
Lambe-botas, beija-luvas
Pedras-moles e águas-duras
Inauguras
Monumentos ao passado
Que está morto e enterrado
Entre naus e armaduras
Milionário que voltaste
Dois tostões p´rós que atraiçoaste
Quanto a nós
Nós cantores da palidez
Nosso canto nunca fez
Filhos sãos a uma mulher
Nem sequer
Passa mel nos nossos ramos
Pois a abelha que cantamos
Será mosca até morrer
Milionário que voltaste
Dois tostões p´rós que atraiçoaste


Quadras

Eu não sei porque razão
Certos homens, a meu ver,
Quanto mais pequenos são
Maiores querem parecer.

Vemos gente bem vestida,
No aspecto desassombrada;
São tudo ilusões da vida,
Tudo é miséria dourada.

O rato mete o focinho
Sem pensar que faz asneira;
Depois, ou larga o toucinho,
Ou fica na ratoeira.

Fazem a mesma figura
Homens que vestem bons fatos;
Quando lhes cheira a gordura,
Caem também como os ratos.

É fácil a qualquer cão
Tirar cordeiros da relva;
Tirar a presa ao leão
É difícil nesta selva.

A vida na grande terra
Corrompe a humanidade.
Entre a cidade e a serra
Prefiro a serra à cidade.


O charlatão (José Mário Branco)

Numa rua de má fama
faz negócio um charlatão
vende perfumes de lama
anéis d'ouro a um tostão
enriquece o charlatão

No beco mal afamado
as mulheres não têm marido
um está preso, outro é soldado
um está morto e outro f'rido
e outro em França anda perdido
É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra
Na ruela de má fama
o charlatão vive à larga
chegam-lhe toda a semana
em camionetas de carga
rezas doces, paga amarga
No beco dos mal-fadados
os catraios passam fome
têm os dentes enterrados
no pão que ninguém mais come
os catraios passam fome
É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra
Na travessa dos defuntos
charlatões e charlatonas
discutem dos seus assuntos
repartem-s'em quatro zonas
instalados em poltronas
Pr'á rua saem toupeiras
entra o frio nos buracos
dorme a gente nas soleiras
das casas feitas em cacos
em troca d'alguns patacos
É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra
Entre a rua e o país
vai o passo dum anão
vai o rei que ninguém quis
vai o tiro dum canhão
e o trono é do charlatão
É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra
É entrar, senhorias
É entrar, senhorias
É entrar, senho...


Quadras

Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.

Não digas que me enganaste,
Por ter confiado em ti;
Muito mais do que levaste,
Ganhei eu no que aprendi.

Tanto da vida conheço
Que, ao ver o mundo tão torto,
Às vezes, quando adormeço,
Desejava acordar morto.

Não sou esperto nem bruto,
Nem bem nem mal educado:
Sou simplesmente o produto
Do meio em que fui criado.

Enquanto o homem· pensar
Que vale mais que outro homem,
São como os cães a ladrar,
Não deixam comer, nem comem.

A esmola não cura a chaga;
Mas quem a dá não percebe
Que ela avilta, que ela esmaga
O infeliz que a recebe.

A ninguém faltava o pão,
Se este dever se cumprisse:
- Ganharmos em relação
Com o que se produzisse.


Eh companheiro (José Mário Branco)

Eh! Companheiro aqui estou
aqui estou pra te falar
Estas paredes me tolhem
os passos que quero dar
uma e feita de granito
não se pode rebentar
outra de vidro rachado
p'ras duas pernas cortar

Eh! Companheiro resposta
resposta te quero dar
Só tem medo desses muros
quem tem muros no pensar
todos sabemos do pássaro
cá dentro a qu'rer voar
se o pensamento for livre
todos vamos libertar

Eh! Companheiro eu falo
eu falo do coração
Já me acostumei à cor
desta negra solidão
já o preto que vai bem
já o branco ainda não
não sei quando vem o vento
pra me levar de avião

Eh! Companheiro respondo
respondo do coração
ser sozinho não é sina
nem de rato de porão
faz também soprar o vento
não esperes o tufão
põe sementes do teu peito
nos bolsos do teu irmão

Eh! Companheiro vou falar
vou falar do meu parecer
Vira o vento muda a sorte
toda a vida ouvi dizer
soprou muita ventania
não vi a sorte crescer
meu destino e sempre o mesmo
desde moço até morrer

Eh! Companheiro aqui estou
aqui estou p'ra responder
Sorte assim não cresce a toa
como urtiga por colher
cresce nas vinhas do povo
leva tempo a amadur'cer
quando mudar seu destino
está ao alcance de um viver

Eh! Companheiro aqui estou
aqui estou pra te falar
De toda a parte me chamam
não sei p'ra onde me virar
uns que trazem fechadura
com portas para espreitar
outros que em nome da paz
não me deixam nem olhar

Eh! Companheiro resposta
resposta te quero dar
Portas assim foram feitas
p'ra se abrir de par em par
não confundas duas coisas
cada paz em seu lugar
pela paz que nos recusam
muito temos de lutar.


Uma mosca sem valor
Poisa, c'o a mesma alegria,
Na careca de um doutor
Como em qualquer porcaria.

Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Didier Marouani & Space

Ligações
José Mário Branco

Textos:
António Aleixo

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make

© José-António Moreira 2012