Sons da Escrita 130

31 de Agosto de 2007

Segundo programa do ciclo Antero de Quental

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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António Gedeão

Calçada de Carriche (António Gedeão)

Luísa sobe, sobe a calçada, sobe e não pode que vai cansada.
Sobe, Luísa, Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a calçada. Saiu de casa de madrugada; regressa a casa é já noite fechada. Na mão grosseira, de pele queimada, leva a lancheira desengonçada.
Anda, Luísa, Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a calçada.
Luísa é nova, desenxovalhada, tem perna gorda, bem torneada. Ferve-lhe o sangue de afogueada; saltam-lhe os peitos na caminhada.
Anda, Luísa. Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a calçada.
Passam magalas, rapaziada, palpam-lhe as coxas, não dá por nada.
Anda, Luísa. Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a calçada.
Chegou a casa, não disse nada. Pegou na filha, deu-lhe a mamada; bebeu da sopa numa golada; lavou a loiça, varreu a escada; deu jeito à casa desarranjada; coseu a roupa já remendada; despiu-se à pressa, desinteressada; caiu na cama de uma assentada; chegou o homem, viu-a deitada; serviu-se dela, não deu por nada.
Anda, Luísa. Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a calçada.
Na manhã débil, sem alvorada, salta da cama, desembestada; puxa da filha, dá-lhe a mamada; veste-se à pressa, desengonçada; anda, ciranda, desaustinada; range o soalho a cada passada; salta para a rua, corre açodada, galga o passeio, desce a calçada, chega à oficina à hora marcada, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga; toca a sineta na hora aprazada, corre à cantina, volta à toada, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga.
Regressa a casa é já noite fechada. Luísa arqueja pela calçada.
Anda, Luísa, Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a calçada, sobe que sobe, sobe a calçada, sobe que sobe, sobe a calçada.
Anda, Luísa, Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a calçada.


Sick and tired (Cardigans) 

sick, tired and homeless
with no one here to sing for
tired of being weightless
for all these looking good boys

you can always say my attic has its charm
you can always say you did no major harm
you can always say that summer had its charm
and that you did no major harm
oh, spare me if you please

sick, tired an sleepless
with no one else to shine for
sick of all my distress
but I won't show I'm still poor

you can always say my attic has its charm
you can always say you did no major harm
you can always say that summer had its charm
and that you did no major harm
oh, spare me if you please

symptoms are so deep
something here's so wrong
nothing is complete
nowhere to belong
symptoms are so deep
I think I'd better stay
here on my own
so spare me if you please


António Gedeão

Poema da terra adubada (António Gedeão)

Por detrás das árvores não se escondem faunos, não.
Por detrás das árvores escondem-se os soldados
com granadas de mão.
As árvores são belas com os troncos dourados.
São boas e largas para esconder soldados.
Não é o vento que rumoreja nas folhas,
não é o vento, não.
São os corpos dos soldados rastejando no chão.
O brilho súbito não é do limbo das folhas verdes reluzentes.
É das lâminas das facas que os soldados apertam entre os dentes.
As rubras flores vermelhas não são papoilas, não.
É o sangue dos soldados que está vertido no chão.
Não são vespas, nem besoiros, nem pássaros a assobiar.
São os silvos das balas cortando a espessura do ar.
Depois os lavradores
rasgarão a terra com a lâmina aguda dos arados,
e a terra dará vinho e pão e flores
adubada com os corpos dos soldados.


Peace on Earth (U2)

Heaven on Earth, we need it now
I'm sick of all of this hanging around
Sick of sorrow, sick of the pain
I'm sick of hearing again and again
That there's gonna be peace on Earth 

Where I grew up there weren't many trees
Where there was we'd tear them down
And use them on our enemies
They say that what you mock
Will surely overtake you 

And you become a monster
So the monster will not break you
And it's already gone too far
You say that if you go in hard
You won't get hurt 

Jesus can you take the time / To throw a drowning man a line / Peace on Earth
Tell the ones who hear no sound / Whose sons are living in the ground
Peace on Earth
No whos or whys / No one cries like a mother cries / For peace on Earth
She never got to say goodbye / To see the colour in his eyes
Now he's in the dirt / Peace on Earth
They're reading names out over the radio / All the folks the rest of us won't get to know
Sean and Julia, Gareth, Ann, and Breda / Their lives are bigger than any big idea
Jesus can you take the time / To throw a drowning man a line / Peace on Earth
Tell the ones who hear no sound / Whose sons are living in the ground 
Peace on Earth
Jesus and the song you wrote / The words are sticking in my throat
Peace on Earth 

Hear it every Christmas time
But hope and history won't rhyme
So what's it worth
This peace on Earth
Peace on Earth
Peace on Earth


António Gedeão

Poema para Galileo (António Gedeão)

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano, aquele teu retrato que toda a gente conhece, em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce sobre um modesto cabeção de pano. Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença. (Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício. Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença. Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria... Eu sei...Eu sei... As Margens doces do Arno às horas pardas da melancolia. Ai que saudade, Galileo Galilei!
Olha. Sabes? Lá em Florença está guardado um dedo da tua mão direita num relicário. Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá! Se calhar até há gente que pensa que entraste no calendário.
Eu queria agradecer-te, Galileo, a inteligência das coisas que me deste. Eu, e quantos milhões de homens como eu a quem tu esclareceste, ia jurar — que disparate, Galileo! —  e jurava a pés juntos e apostava a cabeça sem a menor hesitação — que os corpos caem tanto mais depressa quanto mais pesados são.
Pois não é evidente, Galileo? Quem acredita que um penedo caia com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo de praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.
Estava agora a lembrar-me, Galileo, daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo, que parecia impossível que um homem da tua idade e da tua condição, se estivesse tornando num perigo para a Humanidade e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios, e percorrias, cheio de piedade, os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas, desceram lá das suas alturas e poisaram, como aves aturdidas — parece-me que estou a vê-las -—, nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal e que os astros bailavam e entoavam à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias que ensinavas e escrevias para eterna perdição da tua alma.
Ai, Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo, que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços, andavam a correr e a rolar pelos espaços à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei. Por isso eram teus olhos misericordiosos, por isso era teu coração cheio de piedade, piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos a quem Deus dispensou de buscar a verdade. Por isso estoicamente, mansamente, resististe a todas as torturas, a todas as angústias, a todos os contratempos, enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas, foram caindo, caindo, caindo, caindo, caindo sempre, e sempre, ininterruptamente, na razão directa dos quadrados dos tempos.


Bohemian rhapsody (Queen)

Is this the real life?
Is this just fantasy?
Caught in a landslide
No escape from reality
Open your eyes
Look up to the skies and see
I'm just a poor boy, I need no sympathy
Because I'm easy come, easy go
little high, little low
Anyway the wind blows, doesn't really matter to me, to me

Mama, just killed a man
Put a gun against his head
Pulled my trigger, now he's dead
Mama, life had just begun
But now I've gone and thrown it all away
Mama, ooo
Didn't mean to make you cry
If I'm not back again this time tomorrow
Carry on, carry on, as if nothing really matters

Too late, my time has come
Sends shivers down my spine
Body's aching all the time
Goodbye everybody — I've got to go
Gotta leave you all behind and face the truth
Mama, ooo — (anyway the wind blows)
I don't want to die
I sometimes wish I'd never been born at all

I see a little silhouetto of a man
Scaramouche, scaramouche, will you do the fandango?
Thunderbolts and lightning — very very frightening me
Galileo, Galileo, Galileo, Galileo, Galileo Figaro — magnifico

But I'm just a poor boy nobody loves me
He's just a poor boy from a poor family
Spare him his life from this monstrosity
Easy come easy go — will you let me go
Bismillah! No — we will not let you go — let him go
Bismillah! We will not let you go — let him go
Bismillah! We will not let you go — let me go
Will not let you go — let me go (never)
Never let you go — let me go
Never let me go — ooo
No, no, no, no, no, no, no
Oh mama mia, mama mia, mama mia let me go
Beelzebub has the devil put aside for me
for me
for me
for me

So you think you can stone me and spit in my eye?
So you think you can love me and leave me to die?
Oh baby - can't do this to me baby
Just gotta get out - just gotta get right outta here

Ooh yeah, ooh yeah
Nothing really matters
Anyone can see
Nothing really matters - nothing really matters to me
Anyway the wind blows...


Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
As lágrimas são as minhas
mas o choro não é meu.

Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Nando Lauria, Michael Nyman, David Garrido

Ligações
Cardigans, U2, Queen

Textos:
António Gedeão

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012