Sons da Escrita 131

7 de Setembro de 2007

Terceiro programa do ciclo Antero de Quental

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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António Gedeão

Aurora boreal (António Gedeão)

Tenho quarenta janelas nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas, posso ver através delas o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol, por outra a luz do luar, por outra a luz das estrelas que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea como um vapor de algodão, por aquela a luz dos homens, pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto, pela menor a certeza, pela da frente a beleza que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança de quatro lados iguais, quatro arestas, quatro vértices, quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho, que as vigias são redondas, e o sonho afaga e embala à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza, por aquela entra a saudade, e o desejo, e a humildade, e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio, e o medo, e a melancolia, e essa fome sem remédio a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade, e a dor própria, e a dor alheia, e a paixão que se incendeia, e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco, e o grande pássaro negro que se olham obliquamente, arrepiados de medo,
todos os risos e choros, todas as fomes e sedes, tudo alonga a sua sombra nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto, quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta, falta-me a luz e o ar.


She came in through the bathroom window (Beatles)

She came in through the bathroom window
Protected by a silver spoon
But now she sucks her thumb and wanders
By the banks of her own lagoon

Didn't anybody tell her?
Didn't anybody see?
Sunday's on the phone to Monday,
Tuesday's on the phone to me

She said she'd always been a dancer
She worked at 15 clubs a day
And though she thought I knew the answer
Well I knew what I could not say.

And so I quit the police department
And got myself a steady job
And though she tried her best to help me
She could steal but she could not rob

Didn't anybody tell her?
Didn't anybody see?
Sunday's on the phone to Monday,
Tuesday's on the phone to me


António Gedeão

Poema do futuro (António Gedeão)

Conscientemente escrevo e, consciente,
medito o meu destino.
No declive do tempo os anos correm,
deslizam como a água, até que um dia
um possível leitor pega num livro
e lê,
lê displicentemente,
por mero acaso, sem saber porquê.
Lê, e sorri.
Sorri da construção do verso que destoa
no seu diferente ouvido;
sorri dos termos que o poeta usou
onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;
e sorri, quase ri, do íntimo sentido,
do latejar antigo
daquele corpo imóvel, exhumado
da vala do poema.
Na História Natural dos sentimentos
tudo se transformou.
O amor tem outras falas,
a dor outras arestas,
a esperança outros disfarces,
a raiva outros esgares.
Estendido sobre a página, exposto e descoberto,
exemplar curioso de um mundo ultrapassado,
é tudo quanto fica,
é tudo quanto resta
de um ser que entre outros seres
vagueou sobre a Terra.


The future (Leonard Cohen)

Give me back my broken night / my mirrored room, my secret life
it's lonely here, / there's no one left to torture
Give me absolute control / over every living soul
And lie beside me, baby, / that's an order!

Give me crack and anal sex / Take the only tree that's left
stuff it up the hole in your culture
Give me back the Berlin wall / give me Stalin and St Paul
I've seen the future, brother: it is murder.

Things are going to slide, slide in all directions
Won't be nothing / Nothing you can measure anymore
The blizzard, the blizzard of the world / has crossed the threshold
and it has overturned / the order of the soul
When they said REPENT REPENT / I wonder what they meant
When they said REPENT REPENT / I wonder what they meant
When they said REPENT REPENT / I wonder what they meant.

You don't know me from the wind / you never will, you never did
I was the little jew / who wrote the Bible
I've seen the nations rise and fall / I've heard their stories, heard them all
but love's the only engine of survival
Your servant here, he has been told / to say it clear, to say it cold:
It's over, it ain't going any further
And now the wheels of heaven stop / you feel the devil's RIDING crop
Get ready for the future: it is murder.

There'll be the breaking of the ancient / western code
Your private life will suddenly explode / There'll be phantoms
There'll be fires on the road / and a white man dancing
You'll see a woman / hanging upside down
her features covered by her fallen gown / and all the lousy little poets
coming round / tryin' to sound like Charlie Manson
and the white man dancin'.

Give me back the Berlin wall / Give me Stalin and St Paul
Give me Christ or give me Hiroshima
Destroy another fetus now / We don't like children anyhow
I've seen the future, baby: it is murder.


António Gedeão

Poema do alegre desespero (António Gedeão)

Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,
ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.
Compreende-se.
E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,
e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.
Compreende-se.
Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.
Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.
E o nosso sofrimento para que serviu afinal?


Desperado (Eagles)

So long - now.
Ohh you're a hard one.
I know that you've got your reasons.
These things that are pleasin'you
Can hurt you somehow.

Don't you draw the queen of diamonds boy
She'll beat you if she's able.
You know the queen of hearts is always your best bet.
Now it seems to me, some fine things
Have been laid upon your table.
But you only want the ones
That you can't get.

Desperado,
Ohhhh you aint getting no younger.
Your pain and your hunger,
They're driving you home.
And freedom, ohh freedom.
Well that's just some people talking.
Your prison is walking through this world all alone.

Don't your feet get cold in the winter time?
The sky won't snow and the sun won't shine.
It's hard to tell the night time from the day.
And you're losing all your highs and lows
aint it funny how the feeling goes
away...

Desperado,
Why don't you come to your senses?
come down from your fences, open the gate.
It may be rainin', but there's a rainbow above you.
You better let somebody love you.
(let sombody love you)
You better let somebody love you...ohhh..hooo
before it's too..oooo.. late.


O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.  
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.  
Espaço vazio, em suma.  
O resto é matéria. 
Daí, que este arrepio, 
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Jerry Goodman, Alchemorph Soundtracks, King Einstein

Ligações
Beatles, Leonard Cohen, Eagles

Textos:
António Gedeão

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012