Sons da Escrita 045

21 de Janeiro de 2006

Terceiro programa do ciclo António Ramos Rosa

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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António Ramos Rosa

De coincidência em incoincidência (António Ramos Rosa)

É um quadrado quase perfeito
Em que a luz incide duramente
- uma sombra aguçada e lisa acompanha
o gesto de escrever. Ausência.

Mais exacta, mais viva
a sombra da mão e do lápis
forma um conjunto menos suspeito,
de uma harmonia subjacente.

A coincidência da ponta do lápis
com a ponta da sombra do lápis
convida a uma coincidência de todos os pontos
da incoincidência vasta em que escrevo.

Ilusão de uma perfeita justiça,
ilusão dum amor recto como o mármore,
tentação dum espelho claro, inflexível.

Não como um espelho,
mas com a lisura e a tranquilidade do espelho.
Alto ou largo ou baixo, imóvel,
não para passear ao longo duma estrada,
mas fragmento de uma turbilhão contido.


The word (Moody Blues)

this garden universe vibrates complete
some we get a sound so sweet
vibrations reach on up to become light
and then thru gamma, out of sight
between the eyes and ears there lie
the sounds of colour and the light of a sigh
and to hear the sun, what a thing to believe
but it's all around if we could but percieve
to know ultra-violet, infra-red and x-ray
beauty to find in so many ways
two notes of the chord, that's our full scope
but to reach the chord is our life's hope
and to name the chord is important to some
so they give it a word and the word is om

Without a word (Jack Bruce)

Without a word
The time is mist
The branches twist against the sun
The leaves that left
Had to run
Without a word
Without a word

Without a word
Between the two
I'm losing you, losing you
In proud parades
The plans we laid
We can't get through
Without a word
Without a word

Without a word
To say what's yours
I'm losing you, losing you
In racing streets, where ends
don't meet
Tomorrow's train
Has closed it's doors
Without a word


António Ramos Rosa

Um caminho de palavras (António Ramos Rosa)

Sem dizer fogo
vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso
duramente, são pedras e não são ervas. O vento é fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que eu sei, já lá está, mas não estão os meus passos e os meus braços. Por isso caminho, caminho porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo, caminho e descubro o meu caminho.

Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedra, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.

Caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim

E porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-me sol porque o sol existe

Mas a noite existe
e a palavra sabe-o


Lost for words (Pink Floyd)

I was spending my time in the doldrums
I was caught in a cauldron of hate
I felt persecuted and paralysed
I thought that everything else would just wait

While you are wasting your time on your enemies
Engulfed in a fever of spite
Beyond your tunnel vision reality fades
Like shadows into the night

To martyr yourself to caution
Is not going to help at all
because ther'll be no safety in numbers
When the right one walks out of the door

Can you see your days blighted by darkness?
Is it true you beat your fists on the floor?
Stuck in a world of isolation
While the ivy grows over the door

So I open my door to my enemies
And I ask could we wipe the slate clean
But they tell me to please go fuck myself
You know you just can't win


António Ramos Rosa

Quem escreve (António Ramos Rosa)

Quem escreve quer morrer, quer renascer
num ébrio barco de calma confiança.
Quem escreve quer dormir em ombros matinais
e na boca das coisas ser lágrima animal
ou o sorriso da árvore. Quem escreve
quer ser terra sobre terra, solidão
adorada, resplandecente, odor de morte
e o rumor do sol, a sede da serpente,
o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho,
o negro meio-dia sobre os olhos.


Write away (Paul McCartney)

You need love, write a letter, you need love write away
Get it down, you'll feel better, send it now, write away
Hey Cinderella, did you need that other fella?
On the wrong side of midnight your defences slipped away
You need attention, so I think it's worth a mention
That if I can deliver
Well there wouldn't be no heavy price to pay

You need love, write a letter, you need love write away
Get it down, you'll feel better, send it now, write away

You need love, write a letter
You need love write away


A palavra é uma estátua submersa, um leopardo
que estremece em escuros bosques, uma anémona
sobre uma cabeleira. Por vezes é uma estrela
que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua, mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada. Rápida é a boca
que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos, os cabelos ardentes
e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugídio
que canta num mar musical o sangue das vogais.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Yanni

Ligações
Moody Blues, Jack Bruce, Pink Floyd, Paul McCartney

Textos:
António Ramos Rosa

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012