Sons da Escrita 038

3 de Dezembro de 2005

Segundo programa do ciclo António Sem

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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António Sem

As minhas mãos (António Sem)

As minhas mãos afagam a doçura
e estendem-se gentis e tranquilas
pelas horas infindáveis
de muitas coisas passadas
em anos vividos
abraçados num destino
que transporta consigo
pedaços de uma vida

As minhas mãos afagam a doçura
e trazem novos afagos de lua cheia
buscando ansiosas e aflitas
o conforto de uma pele macia
de tanto prazer abraçado
e de tanta delícia sentida


Singled handed sailor (Dire Straits) 

Two in the morning dry-dock town
The river rolls in the night
Little gypsy moth she's all tied down
She quiver in the wind and the light 

Yeah and a sailing ship is just held down in chains
From the lazy days of sail
She's just a lying there in silent pain
He lean on the tourist rail 

A mother and her baby and the college of war
In the concrete graves
You never wanna fight against the river law
Nobody rules the waves
Yeah and on a night when the lazy wind is a-wailing
Around the Cutty Sark
The single handed sailor goes sailing
Sailing away in the dark 

He's upon the bridge on the self same night
The mariner of dry dock land
Two in the morning but there's one green light
And a man on a barge of sand 

She's gonna slip away below him
Away from the things he's done
But he just shouts 'hey man what you call this thing'
He could have said 'Pride of London'
On a night when the lazy wind is a-wailing
Around the Cutty Sark
Yeah the single handed sailor goes sailing
Sailing away in the dark


António Sem

Esta noite (António Sem)

Esta noite
no silêncio destas paredes sombrias
cheias de palavras consumidas
a lua dança com gestos de encantamento
e as estrelas sorriem de prazer

Esta noite
invento-te nesta distância magoada
onde as palavras repousam
nos lábios ausentes que riem e se alimentam
de sabores sonhados 

Esta noite
arde uma fogueira de nostalgia
e o mistério absorvente da tua luz
entra em mim mansamente

Aqui
longe de ti e de tudo
sinto-me bem dentro de ti
e deixo-me ficar


One Night (Barclay James Harvest)

You took all my money
I gave you no name
My love and my money
Did you think I would chase it in the rain?
My eyes are now open
But what do I see?
One ride after midnight
Had I thought it would mean that much to me? 

Everybody needs someone to love
Everybody needs a friend
Everybody needs someone to care
Do you think you can make it in the end?
Do you think that you can make it, my friend? 

I thought it was easy
But what did I know
Of old men and first blood
Or the drunk who gets taken blow by blow? 

The dice are all loaded
You pay by the throw
But you pay the loser
Seems the rain is turning into snow 

We stand round your doorways
You hang on the walls
Your frames are your windows
Put your bodies on the stalls
You take all our money
We leave you no name
We're dealt just the one card
But the dealer plays in every game


António Sem

Noite mágica (António Sem)

Nesta noite mágica
em que persisto silenciosamente
a lucidez se excede e se espreguiça
na distância que nos abraça
Invento-te nesta ausência magoada
pássaro cortando a minha boca
ainda imaginada do teu sabor
Viajo no escuro insustentável
das palavras íntimas e lisas
que o corpo adoça e sustenta
Nesta noite húmida de ti
ficam as palavras sonhadas
neste caminho de eterno retorno
à luz etérea do desejo nocturno
Fogueira de Silêncio
Cais sobre o meu corpo
e eu dispo-me de toda a ansiedade
onde a forma e a transparência dos afectos
se espreguiçam neste deserto que sabe a desejo
preparo o leito onde repouso
não há tempo nem distância
para a tua chegada serena
que me cobre e me protege
como brisa que traz até mim
o aroma de um tempo renovado
depois de me sobrevoares
deixa o eco da tua voz percorrer
o mutismo desta fogueira de silêncio


Wonderful tonight (Eric Clapton)

It's late in the evening
She's wondering what clothes to wear
She puts on her make up
And brushes her long blonde hair
And then she asks me
Do I look alright
And I say yes, you look wonderful tonight

We go to a party
And everyone turns to see
This beautiful lady
That's walking around with me
And then she asks me
Do you feel alright
And I say yes, I feel wonderful tonight

I feel wonderful
Because I see the love light in your eyes
And the wonder of it all
Is that you just don't realize
How much I love you

It's time to go home now
And I've got an aching head
So I give her the car keys
She helps me to bed
And then I tell her
As I turn out the light
I say my darling, you are wonderful tonight
Oh my darling, you are wonderful tonight


Adornos
o meu quarto é mudo
e não tem adornos
apenas um lençol branco
no chão 

absorvo o mutismo
deito-me
e continuo com frio

Ainda e Sempre
chorei lágrimas
para que não precisasses de chorar
amordacei a minha boca
para que não precisasses de gritar
ceguei meus olhos
para que não precisasses de ver
e quanto mais amordaçado
mais tu gritavas
e quanto mais cego
mais tu vias
e quanto maior é a dor
maior é o canto que te quero cantar


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Will Ackerman

Ligações
Dire Straits, Barclay James Harvest, Eric Clapton

Textos:
António Sem

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012