Sons da Escrita 049

18 de Fevereiro de 2006

Primeiro programa do ciclo António Sem

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Arsélio Martins

A casa do ferreiro (Arsélio Martins)

A minha vontade naquele dia de inverno era fugir. Mas a minha mãe é quem decide quando é que as foicinhas precisam de ser afiadas no ferreiro. E para mandar um filho a casa do ferreiro são precisas palavras cortantes. De modo a que se vá até lá num pé e se volte noutro. De modo a que se voe. De modo a que a bicicleta vá tão depressa como se se evaporasse e voasse como a poeira voa quando se solta, partícula a partícula, sob os cascos das bestas aladas. Ela disse quase meigamente: Vai lá! O gado pode esperar.
Só me lembro de  ter trepado para a encosta da  bicicleta e, com um impulso vigoroso do pé no pedal,  arrancar dali para o lameiro, seguido pelo aplauso das poeiras estremunhadas.
Ainda hoje me pergunto o que terá acontecido. Mas esqueci-me de todas as chaves que abrem a porta da aldeia.

Outras vezes, a memória é assaltada pelas pedras da forja. Vejo-as  a bater asas incandescentes  e a voar porta fora. E ouço ainda o uivo negro, o silvo do sopro mineral sobrevoando o largo do ferreiro, quando se molda o malho do guerreiro e se amolam as navalhas  para o combate que sangra o campo de batalha esventrado por uma mágoa que cresce até ser mais que dor.
Vejo nitidamente os olhos criminosos  que brilham na escuridão e nem em sonhos quero saber de quem são, raiados de golfadas de sangue. Há  mortos frescos a dormir na minha infância. Talvez antigos animais domésticos.


Sledgehammer (Peter Gabriel)

you could have a steam train if you'd just lay down your tracks
you could have an aeroplane flying if you bring your blue sky back
all you do is call me, I'll be anything you need
you could have a big dipper going up and down, all around the bends
you could have a bumper car, bumping this amusement never ends
I want to be your sledgehammer, why don't you call my name
oh let me be your sledgehammer, this will be my testimony
show me round your fruitcage 'cos I will be your honey bee
open up your fruitcage where the fruit is as sweet as can be
I want to be your sledgehammer, why don't you call my name
you'd better call the sledgehammer put your mind at rest
I'm going to be-the sledgehammer this can be my testimony
I'm your sledgehammer,  let there be no doubt about it
sledge sledge sledgehammer
I've kicked the habit, shed my skin
this is the new stuff I go dancing in, we go dancing in
oh won't you show for me and I will show for you
show for me, I will show for you
yea, yeah, yeah, yeah, yeah, yeah, I do mean you, only you
you've been coming through
going to build that power
build, build up that power, hey
I've been feeding the rhythm
going to feel that power, build in you
come on, come on, help me do
yeah, yeah, yeah, yeah, yeah, yeah, yeah, yeah, you
I've been feeding the rhythm
it's what we're doing, doing
all day and night


Arsélio Martins

A casa do ferreiro (Arsélio Martins)

À chuva e ao vento, a vida corre numa estrumeira nevoenta que a criação debica, infatigável, como se fosse algodão doce este nevoeiro sólido.
Na casa do ferreiro  o pátio é um poço fundo  e escuro, as paredes negras de carvão.
A luz é ateada pelo vento.  Dirás que é  réstea solar um resto da labareda da  fogueira  avivada pelo fole ofegante na tentativa vã de moldar e soldar a  asa de cobre nas costas do santo,  de costas em seu nicho de glória. Polida até dar luz;  a asa de cobre cega o santo e a  senha e abre uma nesga.
Uma filha asmática busca ali o consolo de ver o ar suspenso em suas gotículas de luz.


Light of hope (Chris Rea)

This is the garden that I know
Ten thousand summers wait me here
You lead and I will follow
Your heart is mine tomorrow
Into your womb I fade away

And while she laughs
Your pride is turning into snow
And melting on the face of this light of hope
Shine on, light of hope
Light of hope

And while she laughs
Your pride is turning into snow
And dancing on the graves of what you thought you used to know
And in this garden I will burn my callous robes
And forever love my darling
Light of hope


Arsélio Martins

A casa do ferreiro (Arsélio Martins)

Eu vi como a  família do ferreiro adora todos os seus bichos, quase todos aleijados ou com maleita que não podem esconder.
Mais que todas, a família do ferreiro adora os seus animais domésticos. Como noutras casas, também a prole do ferreiro cata  pulgas e piolhos, limpa e escova. Acaricia mansamente os animais tão docemente como os mata para a festa canibal.  Matam a fome das crianças sem memória com a carne dos amigos.
Em casa do ferreiro, as bestas são mais  úteis e, por isso, mais amadas. Nelas, o ferreiro  experimenta a eficácia das ferramentas: Aguilhões supliciais que sangram nos costados domésticos como bandarilhas na arena da casa. Aquelas facas curvas de poda que desbastam os cascos até que cada pegada na estrumeira se encha de sangue.
Cheio de medo e repugnância, vejo a gratidão animalesca nos olhos postos na manjedoura que cheira a milho verde e a sal grosso.


Pigs - 3 different ones (Pink Floyd)

Big man, pig man, ha ha charade you are.
You well heeled big wheel, ha ha charade you are.
And when your hand is on your heart,
You're nearly a good laugh,
Almost a joker,
With your head down in the pig bin,
Saying "Keep on digging."
Pig stain on your fat chin.
What do you hope to find.
When you're down in the pig mine.
You're nearly a laugh,
You're nearly a laugh
But you're really a cry.

Bus stop rat bag, ha ha charade you are.
You fucked up old hag, ha ha charade you are.
You radiate cold shafts of broken glass.
You're nearly a good laugh,
Almost worth a quick grin.
You like the feel of steel,
You're hot stuff with a hatpin,
And good fun with a hand gun.
You're nearly a laugh,
You're nearly a laugh
But you're really a cry.

Hey you Whitehouse,
Ha ha charade you are.
You house proud town mouse,
Ha ha charade you are
You're trying to keep our feelings off the street.
You're nearly a real treat,
All tight lips and cold feet
And do you feel abused?
You gotta stem the evil tide,
And keep it all on the inside.
Mary you're nearly a treat,
Mary you're nearly a treat
But you're really a cry.


Eu vi a pá de bicos aguçados da forquilha marcada na barriga de uma cadela meio cega como ordem de expulsão de uma estrangeira. Em casa do ferreiro.
Não tínhamos ensinado o horror e ter piedade e compaixão é coisa que não se ensina. Bastará compreender, com medo, o pavor que vai nos olhos da besta?
Uivando e batendo  pés em roda a família cega lapida em vida um céu de pó. Muito tempo passado e no chão  sangrado ainda sobra um lombo de sangue seco. Entretanto, os bravos guerreiros voltaram a zurzir os tambores de cobre martelado.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Suzanne Ciani

Ligações
Peter Gabriel, Chris Rea, Pink Floyd

Textos:
Arsélio Martins

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012