Sons da Escrita 050

25 de Fevereiro de 2006

Segundo programa do ciclo António Sem

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Arsélio Martins

A casa do ferreiro (Arsélio Martins)

Se tapamos  os olhos às vacas é para que não enjoem. Nunca disputamos a distracção das vacas na dança de roda. A vaca em volta do poço,  faz rodar um eixo vertical que, chumbado no engenho, por sua vez,  transmite a sua rotação roda contra roda dentada  até, alcatruz após alcatruz,  inundar a caleira e matar a sede ao ar seco.
Esse é o engenho do ferreiro. O meu engenho é outro, criou raízes em pés da criança nómada que  deslizam no rodado de poeira finíssima, dentro da tempestade  de areia dos cascos  que dançam.
Os meus braços esticados, cintilantes de suor,  acrescentam-me como cauda  à vaca cega.
Os cômoros rasgam-se para que a poeira venha encaminhada pelas estreitas regueiras caudalosas.

Quando o meu avô voltou nem nome tinha por ter sido americano até  se ter esquecido do tempo em que tinha sido português. E vagueava pelos caminhos sem saber porque voltara para ali e sem cuidar de saber quem tinha na aldeia. Ele queria ser o que se mostra, o que se apresenta. Só que a  aldeia não aceita quem se mostra como é  e  foi preciso que a minha avó o crismasse como o homem do seu passado apesar de ele já não ser o ferro em brasa, a queimadura  na sua juventude de nove sementeiras.
Ela rasgou a blusa para mostrar as marcas e ele a reconhecer longínqua.


Don't be a stranger (Frances Black)

You've been avoiding
Catching my eyes for so long
So let's stop pretending
That there's nothing wrong
We haven't been talking
Only mouthing the words
We have to do something
Before it gets any worse

Chorus
So be my friend or my enemy
Be whatever you have to be
But don't, don't be a stranger
Don't be a stranger
Don't be a stranger to me

I wish you would tell me
What I'm doing wrong
We could talk it over
And try to get along
So I try to imagine
My imaginatino runs wild
Maybe you're only leading
To telling me goodbye


Arsélio Martins

A casa do ferreiro (Arsélio Martins)

Lembro-me de gritar às vacas e aos bois, de os picar com os aguilhões que eram braços, longas varas afiadas  em vez dos meus braços que arrastavam  pelo cabeçalho  os caminhos e o mundo. Ao contrário dos meus, os braços do meu avô eram raminhos para  afagar as vacas e sacudir moscas e sem as matar.  Era o que diziam os vizinhos  a rir-se de mim e do ferreiro que era  afinal  quem aguçava todas as pontas das armas da aldeia em armas, em alerta.
O meu avô não era daquele lugar. Pelo menos, tornara-se um espantalho pregado num caminho pedregoso,  os olhos vazados virados  às armas silvestres.


Brothers in arms (Dire Straits)

These mist covered mountains
Are a home now for me
But my home is the lowlands
And always will be
Some day you'll return to
Your valleys and your farms
And you'll no longer burn
To be brothers in arms

Through these fields of destruction
Baptisms of fire
I've witnessed your suffering
As the battles raged higher
And though we were hurt so bad
In the fear and alarm
You did not desert me
My brothers in arms

There's so many different worlds
So many differents suns
And we have just one world
But we live in different ones

Now the sun's gone to hell
And the moon's riding high
Let me bid you farewell
Every man has to die
But it's written in the starlight
And every line on your palm
We're fools to make war
On our brothers in arms


Arsélio Martins

A casa do ferreiro (Arsélio Martins)

O ferro vermelho, depois de batido na bigorna, era temperado  a negro pelas águas da dorna vertidas na celha do velho Calças do Lameiro.  E era esse ferro que procurava a primeira maçã  de adão, a mais saliente, para colher, do  porco do vizinho, a vida, o sangue, o sangue. O curto guincho estridente do dia do juízo insuportável é um ferro que entra no coração da gente, vindo do pescoço.
Com um ramo de louro,  batemos a  tona do sangue, o sal, o vinagre e o cobre. O estertor ainda se sente e já o sangue vai a cozer. Um alguidar fica como que abandonado por ali a receber os pingos da morte.


Sunday, bloody sunday (U2)

I can't believe the news today
Oh, I can't close my eyes
And make it go away!
How long? How long must we sing this song?
How long?? How long??
'Cause tonight, we can be as one, Tonight
Broken bottles under children's feet
Bodies strewn across the dead end street!
But I won't heed the battle call
It puts my back up
Puts my back up against the wall!
Sunday, Bloody Sunday
All right let's go !
And the battle's just begun
There's many lost, but tell me who has won?
The trench is dug within our hearts
And mothers, children, brothers, sisters
Torn apart!
Sunday, Bloody Sunday
Sunday, Bloody Sunday (tonight)
(tonight)Sunday, Bloody Sunday(tonight)
Wipe the tears from your eyes
Wipe your tears away
...Sunday, Bloody Sunday...
Oh, wipe your blood shot eyes
...Sunday, Bloody Sunday...
And it's true we are immune
When fact is fiction and TV reality!
And today the millions cry
We eat and drink while tomorrow they die!
(Sunday, Bloody Sunday)
The real battle yet begun(Sunday, Bloody Sunday)
To claim the victory Jesus won(Sunday, Bloody Sunday)
On... ...Sunday, Bloody Sonday... Sunday, Bloody Sunday...


O cobre martelado ouve-se bem quando canta a forma que toma na bigorna. E brilha reflexos de ouro, na paz do dia para que te preparaste: as tuas bodas.
O ataque de coração que temias demais, acontece como acontece um toque a rebate, a finados. Vem lembrar-nos, no bronze do alto sino, quem fomos no nosso tempo, os homem que viram as suas máquinas bombeando veneno em seu movimento sem-fim, perpétuo, sístole-diástole-sístole,...,  fim.
Dizem-te que até o fim é efémero.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Terry Marshall

Ligações
Frances Black, Dire Straits, U2

Textos:
Arsélio Martins

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012