Sons da Escrita 051

4 de Março de 2006

Terceiro programa do ciclo António Sem

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Arsélio Martins

A casa do ferreiro (Arsélio Martins)

As mulheres da minha aldeia dispensam as lâminas das facas quando separam o bordado rendado, a teia de gordura, a elástica estrutura na nave das tripas cheias.  E para  fazer as partilhas comunais do sangue talhado ou para  desmanchar o corpo que o pino enxugou.
São  as unhas que cavam  fronteiras  entre as peças como se sentissem linhas de soldadura, prontas a ceder à carícia de uma mão assassina.
A feminina lascívia  vai solta em seu passeio  pela carne.

Morres um pouco cada dia de vidro que é cada noite das brilhantes meninas dos olhos ou das meninas do ferreiro do espeto de pau.
Na casa da eira sofrias as ausências  entre os sacos, enquanto ouvias moer o  milho  e a verdade até ser farinha.
O ciúme era um fio de ferro ao rubro dentro da tua cabeça, de uma orelha à outra.
Voa ainda hoje pelos capilares do corpo, subindo até à alma, o ciúme. E é por isso que finges não ter alma essa  e assim sofrer menos.
Pelo menos  é isso que mostras. É isso que parece. É assim que parece. Que apareces.


The great pretender (Queen)

Oh yes I'm the great pretender (ooh ooh)
Pretending I'm doing well (ooh ooh)
My need is such I pretend too much
I'm lonely but no one can tell

Oh yes I'm the great pretender (ooh ooh)
Adrift in a world of my own (ooh ooh)
I play the game but to my real shame
You've left me to dream all alone

Too real is this feeling of make believe
Too real when I feel what my heart can't conceal

Ooh Ooh yes I'm the great pretender (ooh ooh)
Just laughing and gay like a clown (ooh ooh)
I seem to be what I'm not (you see)
I'm wearing my heart like a crown
Pretending that you're still around

Yeah ooh hoo
Too real when I feel what my heart can't conceal

Oh yes I'm the great pretender
Just laughing and gay like a clown (ooh ooh)
I seem to be what I'm not you see
I'm wearing my heart like a crown
Pretending that you're
Pretending that you're still around


Arsélio Martins

A casa do ferreiro (Arsélio Martins)

Quanto pau tem uma faca a mais que ferro? Ou a roda  de um carro ou a gadanha da morte? Ou a foicinha ou a enxada que abre a regueira?
No lagoaceiro e guia a água até se sumir no leve areal onde o milho não sobrevive e a abóbora raquítica e bêbeda da tua água boleca te serve de desculpa  para veres as pernas das cachopas  passando, com seus carregos de  feijão arrancado pelo pé.
Mal se endireitam as cachopas  na voz e é para murmurar coitado do rapaz!  Tão mordido pelas leituras que nem sabe que fazer do entrepernas!

Por onde quer que passes o beijo verás. Nas esquinas das casas, a argola que amarra as bestas e  o cano da fonte, na praça, tudo são marcas da oficina do ferreiro.
Que raiva! Quando a  filha do ferreiro desinfectava a agulha da seringa no álcool ardente e  te distraíam até que,  em teu delírio,  perdesses  a vergonha antes que te perdesses  na dor.
Na ideia absurda, mas verdadeira, que atazanava os teus cornos de aço, a razão era a tua. A tua razão não tinha que ser razão para toda a gente.


Reason enough (Andreas Vollenweider/Elysa Gilkyson)

All The King’s Men Stand Still In A Thunder Storm
Diamonds Of Rain On The Skin Of The Battle Worn
Eyes Touching Eyes In The Sight Of Their Long Range Guns
The Bough That Breaks, The Cradle Falls
Could This Be Reason Enough
The Beast That Down To Eden Crawls
Reason Enough
Staring Into The Depths Of The Darkest Dream
Hurling Your Stones In The Eye Of The War Machine
Howling Like Wolves To The Moon For The Sons Of Our Daughters
The Bough That Breaks, The Cradle Falls Could This Be Reason Enough
The Beast That Down To Eden Crawls  This Could Be Reason Enough
Hush Little Baby, Dry Your Eyes  Claro Que Sì, Reason Enough
Stars Will Fall For Love To Rise 
Reason Enough
Little Drops Of Water Little Grains Of Sand
Make The Mighty Ocean And The Pleasant Land
The Bough That Breaks, The Cradle Falls  Could This Be Reason Enough
The Beast That Down To Eden Crawls  This Could Be Reason Enough
Hush Little Baby, Dry Your Eyes  Claro Que Sì, Reason Enough
Stars Will Fall For Love To Rise  Reason Enough
Lady Bug, Lady Bug
Fly Away Home
Your House Is On Fire
Your Children Are Gone
All The King’s Horses, And All The King’s Men
Couldn’t Put Humpty Together Again
She Went To The Cupboard,  The Cupboard Was Bare
Eight Little Indians Never Heard Of Heaven
One Went To Sleep, And Then There Where Seven
Ashes, Ashes, We All Fall Down, Hark, Hark, The Dogs Do Bark
Beggars Are Coming To Town
And If The Great Man Cut Down The Great Tree
What A Splish-Splash That Would Be


Arsélio Martins

A casa do ferreiro (Arsélio Martins)

O meu avô sentava-se na berma da 109. Lia o jornal do dia e dormitava  livros americanos acenando a quem passava.  Pouco falava. Se me lembro de coisas que ele fez?
Uma guitarra e piões em madeira. Bustos de mulher em pedra de ançã de antigas lápides  do cemitério,
Melhor me lembro como  a minha avó as desfez a golpes certeiros do machado afiado para o outono da lenha do inverno e de todo o ano.
Antes fosse bêbedo meu avô sem  arte, sem literatura e  sem mistério. Assim ninguém o via quando ele vagueava no seu modo translúcido de uma garrafa para outra de aniz escarchado depois de já ter bebido toda a genebra que havia na aldeia, todo gin e todo o whisky.
Por via dele  tinham entrado no comércio local. Por via da minha avó tinham saído, que as proibia à medida que se esgotavam os stocks.

Escondido entre pinheiros e incêndios, masturbaste a tua aldeia. Ou foi outra aldeia qualquer? Ou foi mulher que o desejasse e não te desejasse em mais que à tua mão decepada na guerra colonial e logo substituída por um toco de madeira verde para depois ser puída pela tua vida. És uma carícia de pau envernizada. Honesta caricatura de carícia, mas não mais que isso. 
Antes assim que peso morto em contentor de chumbo! — dizias tu para quem te queria ouvir. Não sei se acreditavas nisso que dizias. Eu acreditava.


Help me to believe (Paul Brady)

I guess it's time to face the whole truth
This situation's here to stay
We keep returning to this same place
I watch my courage slip away
I look for something in your eyes
A sign of anything between us
Come on and help me to believe
That we can save our love
Come on and help me to believe
In blessings from above
I'd get down on my bended knees
If wanting was enough
Is there some thruway in my mind
Or will I find that love is over?
love is over?
You walk towards me like a memory
We pass each other in a dream
Outside the rain falls on a new world
A world of things that might have been
I hear an echo from inside
It speaks of never ending heartbreak
Come on and help me to believe
That we can save our love
Come on and help me to believe
In blessings from above
I'd get down on my bended knees
If wanting was enough
Too many nights we hold this line
For us to find that love is over


De que me hei-de lembrar? Se a aldeia tal como a conheci nem existe já e as pessoas fugiram a sete pés de lá para fugir dos seus mortos que não páram de as atazanar com as promessas por cumprir e a inveja da vida que levam antes da morte que as leve. A aldeia é a cobrança coerciva de uma dívida que nunca existiu senão como sentimento de culpa pelos gatos que se afogaram cumprindo ordens ou outras maldições menores tais como pecados mortais que não matavam, da cobiça da mulher alheia, da inveja e da preguiça. Os outros nomes dos pecados nem sabíamos o que queriam dizer. Como podíamos cometê-los? Devo dizer que ninguém cobiçava a mulher alheia que para ali estava como se não estivesse neste mundo. Nós só pensávamos que era maldade da parte de Deus não a ter levado quando era um anjo leve e não aquele peso que a aldeia inteira não conseguiu carregar aos ombros nem ninguém consegue contar o que a aldeia fez para a levar até à cova. Estavam lá todos e ninguém se lembra. Não é estranho?


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Paul Brady

Ligações
Queen, Andreas Vollenweider, Elysa Gilkyson

Textos:
Arsélio Martins

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012