Sons da Escrita 141

13 de Novembro de 2007

Prémio Nacional de Professores/Prémio Carreira

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Arsélio Martins

Discurso das águas (Arsélio Martins)

E a ti, que foste o companheiro do companheiro, apontarei o poente do infinito, ou apenas a luz da tarde em que brilham a rosa e o ouro, ou apenas a solidão junto ao mar, ou apenas a notícia do amor entre as pequeníssimas folhas dos choupos.

A ti, que foste companheiro do companheiro, apontarei o dia seguinte, um nascente vermelho, uma nascente, ou apenas o cheiro da água corrente, ou apenas o lugar do novo primeiro e original encontro para outra sagração da primavera, outro início de luta.

A ti, que foste companheiro do companheiro, lerei a sina. Do passado ao futuro, acácia batida pelo vento ou rasto de fragrância de louro colhido, vai devagar, para que, o menino que também és, te possa seguir.

Isto não é um discurso, mas eu sou aquele que fala. Olhem para mim. se puderem, vejam como eu estou aqui entre outros, um entre outros.

Não vim fazer um discurso, mas dar palavra às águas que nos atravessam, quando a emoção galga das nuvens do peito para se sumirem como as ondas se somem nos areais ressequidos em que nos esculpiram os rostos.

Não vim fazer um discurso. Vim dar a um mar de palavras de água e são as líquidas palavras por dizer que não me deixam calar.

Amanhã, o nosso rio retoma o seu curso e, com ele, partem as palavras em que nos afogámos hoje.

Um homem com consciência, que abandonou este nosso mundo para abraçar a loucura, colecciona palavras na foz deste rio. Ele guarda-as porque guarda a areia em que foram escritas pelos dedos da água nos bolsos do seu passado sem futuro.

E eu vim aqui para defender a felicidade sem futuro: a felicidade de hoje.

Quem tudo faz em nome da felicidade do futuro, sacrifica a felicidade de cada momento. Em nome da felicidade do futuro, se forjam todas as tiranias do presente que tentam ser tiranias de todos os hojes daqui até ao futuro.

Apresentam-nos a felicidade como uma linha do horizonte e a linha do horizonte afasta-se à medida que dela nos aproximamos.

Eu vim aqui para defender que a nossa felicidade de hoje é uma parte imprescindível da felicidade do futuro. 

Pode não ser, mas a escola em cada dia de hoje deve ser escola de pessoas felizes e (que) é essa a escola que pode construir algum futuro que importe. Uma escola que se faz em nome do futuro sem ter um presente, que valha a pena lembrar, é uma velha tirana a estragar o presente em nome do futuro que está a envenenar com um presente envenenado.

Eu quero viajar de hoje até amanhã voando. A linha do meu voo é uma estaladura que atravessa a chávena. Como um morcego fendendo a porcelana da noitinha, assim eu quero sair do seio, do ninho de hoje.

Quem é que assim nos virou, de tal forma que, em tudo o que façamos, estamos sempre na atitude de alguém que parte?

Eu quero viajar pela noite entre os dias, sentindo o ar como quem atravessa as águas, modulando todos os lados do corpo. como o peixe fusiforme atravessa desde profundidade até à luz.

Sabemos das tuas partidas, mas não sabemos que partido tomas: nem és peixe nem és carne, dizem-me. Professor ou aluno? De que lado da vida te perdes? 

Eu sou peixe e sou carne! Sou a carne do peixe e sei que vivo para ser comido. Não há angústia nisto, é o que vos digo. Quem é que me quer pescar?

Minha mãe pescou-me das suas águas, olhou as minhas escamas brilhantes ao sol, limpou-me cuidadosamente e educou-me para o ar. Só por isso não voltei para as águas, neblinas do limbo. Foi a minha fraqueza que me inibiu as asas para os vôos que ela planeou para mim.

Não usem anzóis afiados!

Podem usar palavras afiadas, na escola (e não será assim nas outras?).

As pessoas usam as palavras, sussuram palavras, segredam palavras, disparam palavras. Há palavras para amar, para animar, para repreender, para replicar, para censurar; há palavras para abraçar e há palavras para esmurrar; para esfaquear o vento, as ondas mais altas, o mar. Há palavras para explicar as cores, os odores.

A escola é, antes de mais, a galáxia das palavras e das imagens que as palavras desbotam. Usam-se palavras como calhaus afiados. Há navalhas e palavras para ferir. Há quem as dispare dos bolsos, onde as teve sempre escondidas.

Eu uso as palavras nas palmas das mãos abertas, como calhaus rolados pelas águas de mil marés vivas, palavras lavadas pela água, expostas para corar, ao sol destas luzes.

É a água do mar que escorre pelas linhas da minha mão ou do rosto ou do corpo. Pela linha da vida, pela linha da morte, pela linha do coração correm e morrem as águas que galgaram as margens dos olhos.

E eu? Que faço eu?

Na escola, como peixe na água, deixem-me respirar esta água, este ar!

Por estas águas troquei o meu passado e o meu presente anunciado na palma da mão de minha mãe nos gestos de me educar para o ar!

Onde estão os meus amigos? Quase como sombras longínquas, postais de Lisboa e Porto, escritos apressadamente com tinta de água
Como vais?, que é feito de ti?
Que resposta tenho para este passado?

Mãe! Minha Mãe, que quero eu senão voltar ao princípio para que tudo recomece e possa acariciar os meus sonhos, os meus amigos que se perderam e são uma sombra espelhada nestas águas em que me movo em vez de tudo o resto?

Mas os caminhos de regresso estão todos fechados e é por isso que a escola é um mundo em que me tenho de reconstruir e reconstruir os catelos no ar! Nem que sejam outros os arquitectos, outros os alcaides, outros os actores.

Os estudantes que brilham no escuro e me reflectem no que vale a pena ou valeu a pena, é aqui, Mãe, entre as ruínas deste presente que, das águas desta escola, pescamos os filhos da escola, os educamos para o ar e, que nos dera, Mãe, que lhes pudéssemos dar as asas!

Está descansada, Mãe! Já ninguém se ri do teu filho, porque ele envelheceu demais no discurso das águas e porque ele deixou, por momentos, de ser quem era
o outro, aquele que não está no espectáculo. Olham para ele e não o vêem, as palavras que ele disse eram água pelos dedos abertos.
Amanhã, à luz do dia, não haverá lembrança deste gesto insensato e todos viverão, como antes, em nome do futuro!



Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundo
Lito Vitale

Textos:
Arsélio Martins

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012