Sons da Escrita 111

27 de Abril de 2007

Terceiro programa do ciclo Ary dos Santos

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


•••

Ary dos Santos

Na mesa do Santo Ofício (Ary dos Santos)

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não existimos;
que nascemos da noite, das árvores, das núvens;
que viemos, amámos, pecámos e partimos
como água das chuvas.

Tu lhes dirás, meu amor, que ambos nos sorrimos
do que dizem e pensam
e que, a nossa aventura,
é no vento que passa que a ouvimos,
é no nosso silêncio que perdura.

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não falaremos
e que enterrámos vivo o fogo que nos queima.
Tu lhes dirás, meu amor, se fôr preciso,
que nos espreguiçaremos na fogueira.


Hymn to her (Camel) 

Look to the mirror
I can tell no lies
Time drawing nearer
Still I wonder why
You are the giver
Me I never try
Now we're together
Still I wonder why

Please can you tell me
When you're by my side
And when my eyes see
Will I wonder why
If you are with me
I can only try
To find the answer
In the words that ask the question

Why don't we know
And why don't it show
I wanna find out
Try let it all out


Ary dos Santos

Soneto presente (Ary dos Santos)

Não me digam mais nada senão morro
aqui, neste lugar, dentro de mim,
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.

Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer, eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo,
de pé como deve estar quem é.

Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo, os que eu entendo,
os que podem ser tanto como eu.

Aqui ninguém me põe a pata em cima,
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que fôr o meu.


Nowhere man (Randy Travis)

He's a real nowhere Man,
Sitting in his Nowhere Land,
Making all his nowhere plans
for nobody.

Doesn't have a point of view,
Knows not where he's going to,
Isn't he a bit like you and me?
Nowhere Man, please listen,
You don't know what you're missing,
Nowhere Man, the world is at your command.

He's as blind as he can be,
Just sees what he wants to see,
Nowhere Man can you see me at all?
Nowhere Man, don't worry,
Take your time, don't hurry,
Leave it all till somebody else
lends you a hand.

Doesn't have a point of view,
Knows not where he's going to,
Isn't he a bit like you and me?

Nowhere Man, please listen,
You don't know what you're missing,
Nowhere Man, the world is at your command.

He's a real Nowhere Man,
Sitting in his Nowhere Land,
Making all his nowhere plans
for nobody.
Making all his nowhere plans
for nobody.
Making all his nowhere plans
for nobody.


Ary dos Santos

Cavalo à solta (Ary dos Santos)

Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura. 

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa. 

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo. 

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura. 

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo. 

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.


Wild horses (Rolling Stones)

Childhood living is easy to do
The things you wanted I bought them for you
Graceless lady, you know who I am
You know I can't let you slide through my hands 

Wild horses couldn't drag me away
Wild, wild horses, couldn't drag me away 

I watched you suffer a dull aching pain
Now you've decided to show me the same
But no sweet, vain exits or offstage lines
Could make me feel bitter or treat you unkind 

Wild horses couldn't drag me away
Wild, wild horses, couldn't drag me away 

I know I dreamed you a sin and a lie
I've got my freedom, but I don't have much time
Faith has been broken, tears must be cried
Let's do some living after love dies

Wild horses couldn't drag me away
Wild, wild horses, we'll ride them some day 

Wild horses couldn't drag me away
Wild, wild horses, we'll ride them some day


Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Suzanne Ciani

Ligações
Camel, Randy Travis, Rolling Stones

Textos:
Ary dos Santos

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012