Sons da Escrita 112

1 de Maio de 2007

Quarto programa do ciclo Ary dos Santos

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Ary dos Santos

Mulher-Maio (Ary dos Santos)

Bom dia, minha amiga, digo em Maio
és uma rosa à beira de um tractor
neste campo de Abril onde não caio
a nossa sementeira já deu flor.

Bom dia, minha amiga, eu sou um gaio,
um pássaro liberto pela dor;
tu és a companheira donde saio
mais limpo de mim próprio, mais amor.

Bom dia, meu amor, estamos primeiro
neste tempo de Maio a tempo inteiro,
contra o tempo do ódio e do terror.

Se tu és camponesa, eu sou mineiro.
Se carregas no ventre um pioneiro,
dentro de ti, eu fui trabalhador.


Maio, Maduro Maio (Zeca Afonso)

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou
Raiava o Sol já no Sul
E uma falua vinha
– Lá de Istambul
Sempre depois da sesta
Chamando as flores
Era o dia da festa
Maio de amores
Era o dia de cantar
– E uma falua andava
Ao longe a varar
Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre depois do trigo
Se cantará
Qu'importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutar 
Numa rua comprida
El-rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor
Venham ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça
A turba rompeu


Das prensas, dos martelos, das bigornas,
das foices, dos arados, das charruas,
das alfaias, dos cascos e das dornas
é que nasce a canção que anda nas ruas.

Um povo não é livre em águas mornas,
não se abre a liberdade com gazuas,
à força do teu braço é que transformas
as fábricas e as terras que são tuas.

Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Yanni

Ligações
José Afonso

Textos:
Ary dos Santos

Edição e voz:
José-António Moreira

© José-António Moreira 2012