Sons da Escrita 046

28 de Janeiro de 2006

Primeiro programa do ciclo Herberto Helder

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Herberto Helder

Há cidades cor de pérola (Herberto Helder)

Há cidades cor de pérola onde as mulheres existem velozmente. Onde às vezes param, e são morosas por dentro. Há cidades absolutas, trabalhadas interiormente pelo pensamento das mulheres. Lugares límpidos e depois nocturnos, vistos ao alto como um fogo antigo, ou como um fogo juvenil. Vistos fixamente abaixados nas águas celestes.

Há lugares de um esplendor virgem, com mulheres puras cujas mãos estremecem. Mulheres que imaginam num supremo silêncio, elevando-se sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora. Emoções onde vivo sem orelhas nem dedos. Onde consumo uma amizade bárbara. Um amor levitante. Zona que se refere aos meus dons desconhecidos. Há fervorosas e leves cidades sob os arcos pensadores. Para que algumas mulheres sejam cândidas. Para que alguém bata em mim no alto da noite e me diga o terror de semanas desaparecidas. Eu durmo no ar dessas cidades femininas cujos espinhos e sangues me inspiram o fundo da vida. Nelas queimo o mês que me pertence, a minha loucura, escada sobre escada.

MuIheres que eu amo com um desespero fulminante, a quem beijo os pés supostos entre pensamento e movimento. Cujo nome belo e sufocante digo com terror, com alegria. Em que toco levemente a boca brutal. Há mulheres que colocam cidades doces e formidáveis no espaço, dentro de ténues pérolas. Que racham a luz de alto a baixo e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde a treva, de crime em crime — espero a felicidade de loucas delicadas mulheres. Uma cidade voltada para dentro do génio, aberta como uma boca em cima do som. Com estrelas secas. Parada.

Subo as mulheres aos degraus. Seus pedregulhos perante Deus. É a vida futura tocando o sangue de um amargo delírio. Olho de cima a beleza genial de sua cabeça ardente: — E as altas cidades desenvolvem-se no meu pensamento quente.


Ain't no love in the heart of the city (Whitesnake)

Ain't no love in the heart of the city,
Ain't no love in the heart of town.
Ain't no love, sure 'nuff is a pity,
Ain't no love 'cos you ain't around.
Baby, since you been around.

Ain't no love in the heart of the city,
Ain't no love in the heart of town.
Ain't no love, sure 'nuff is a pity, child
Ain't no love 'cos you ain't around.

Every place that I go,
Well, it seems so strange.
Without you love, baby, baby,
Things have changed.
Now that you're gone
Y'know the sun don't shine,
From the city hall
To the county line, that's why

Every place that I go,
Well, it seems so strange.
Without you love, baby, baby,
Things have changed.
Now that you're gone
Y'know the sun don't shine,
From the city hall
Woman, to the county line, that's why

Ain't no love in the heart of the city,
There ain't no love in the heart of town.
There ain't no love, sure 'nuff is a pity,
Ain't no love 'cos you ain't around.

There ain't no love in the heart of the city,
There ain't no love in the heart of town.
Ain't no love, sure 'nuff is a pity,
Ain't no love 'cos you ain't around,
'Cos you ain't around.


Herberto Helder

Os animais carnívoros (Herberto Helder)

Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era preciso chamá-lo sem voz — difundia uma colorida multiplicação de mãos, e aparecia depois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante um parque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornais diziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada, descobria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estava impressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia o que fazer, ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina e urgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e então os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanha intensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agora era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todos eles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele era uma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancas abertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.


Man gave names to all the animals (Bob Dylan)

Man gave names to all the animals
In the beginning, in the beginning.
Man gave names to all the animals
In the beginning, long time ago.

He saw an animal that liked to growl,
Big furry paws and he liked to howl,
Great big furry back and furry hair.
"Ah, think I'll call it a bear."

He saw an animal up on a hill
Chewing up so much grass until she was filled.
He saw milk comin' out but he didn't know how.
"Ah, think I'll call it a cow."

He saw an animal that liked to snort,
Horns on his head and they weren't too short.
It looked like there wasn't nothin' that he couldn't pull.
"Ah, think I'll call it a bull."

He saw an animal leavin' a muddy trail,
Real dirty face and a curly tail.
He wasn't too small and he wasn't too big.
"Ah, think I'll call it a pig."

Next animal that he did meet
Had wool on his back and hooves on his feet,
Eating grass on a mountainside so steep.
"Ah, think I'll call it a sheep."

He saw an animal as smooth as glass
Slithering his way through the grass.
Saw him disappear by a tree near a lake...


Herberto Helder

Se houvesse degraus na terra (Herberto Helder)

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu, eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.

No céu podia tecer uma nuvem toda negra. E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas, e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se, levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho. Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra, e a fímbria do mar, e o meio do mar,

e vermelhas se volveram as asas da águia que desceu para beber, e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo. Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata. Correram os rapazes à procura da espada, e as raparigas correram à procura da mantilha, e correram, correram as crianças à procura da maçã.Deste sem fim que escuto e sou no seu passar.


Apple scruffs (George Harrison)

Now I've watched you sitting there
Seen the passers-by all stare
Like you have no place to go
But there's so much they don't know about Apple Scruffs

You've been stood around for years
Seen my smiles and touched my tears
How it's been a long, long time
And how you've been on my mind, my Apple Scruffs

Apple Scruffs, Apple Scruffs
How I love you, how I love you

In the fog and in the rain
Through the pleasures and the pain
On the step outside you stand
With your flowers in your hand, my Apple Scruffs

While the years they come and go
Now, your love must surely show me
That beyond all time and space
We're together face to face, my Apple Scruffs

Apple Scruffs, Apple Scruffs
How I love you, how I love you



Alguém há-de tocar-me com um dedo, alguém há-de pôr-me um selo.

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado. 

Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos, com livros atrás a arder para toda a eternidade. 

Não os chamo, e eles voltam-se profundamente dentro do fogo. 

— Temos um talento doloroso e obscuro. Construímos um lugar de silêncio. De paixão.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Lito Vitale

Ligações
Whitesnake, Bob Dylan, George Harrison

Textos:
Herberto Helder

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make


© José-António Moreira 2012