Sons da Escrita 048

11 de Fevereiro de 2006

Terceiro programa do ciclo Herberto Helder

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Herberto Helder

O amor em visita 1 (Herberto Helder)

Dai-me uma jovem mulher com a sua harpa de sombra e o seu arbusto de sangue. Com ela encantarei a noite. Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher. Os seus ombros beijarei, a pedra pequena do sorriso de um momento. Mulher quase incriada, mas com a gravidade de dois seios, com o peso lúbrico e triste da boca. Os seus ombros beijarei. Cantar? Longamente cantar, uma mulher com quem beber e morrer.

Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave o atravessar trespassada por um grito marítimo e o pão for invadido pelas ondas, o seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes, ele — imagem inacessível e casta de um certo pensamento de alegria e de impudor.

O seu corpo arderá para mimssobre um lençol mordido por flores com água. Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa; e enquanto o dorso imagina, sob os nossos dedos, os bordões da melodia, a morte sobe pelos dedos, navega o sangue, desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.

— Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito, mulher de pés no branco, transportadora da morte e da alegria. 

Dai-me uma mulher tão nova como a resina e o cheiro da terra. Com uma flecha em meu flanco, cantarei.  E enquanto manar da minha carne uma videira de sangue, cantarei o seu sorriso ardendo, as suas mamas de pura substância, a curva quente dos cabelos. Beberei a sua boca, para depois cantar a morte e a alegria da morte. 

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro pescoço de planta, onde uma chama comece a florir o espírito. À tona da sua face se moverão as águas, dentro da sua face estará a pedra da noite. — Então cantarei a exaltante alegria da morte.  Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela despenhada da sua órbita viva. — Porém, tu sempre me incendeias.

Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite, imagem pungente com o seu deus esmagado e ascendido. — Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.  Entontece meu hálito com a sombra, a tua boca penetra a minha voz como a espada se perde no arco. E quando gela a mãe na sua distância amarga, a lua estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo se desfibra — invento para ti a música, a loucura e o mar. Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso, a inspiração. E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa. Vou para ti com a beleza oculta, o corpo iluminado pelas luzes longas. Digo: eu sou a beleza, oseu rosto e o seu durar. Os teus olhos transfiguram-se, as tuas mãos descobrem a sombra da minha face. Agarro a tua cabeça, áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou aquilo que se espera para as coisas, para o tempo — eu sou a beleza inteira, a tua vida o deseja. Para mim erguem-se os teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.

Então sento-me à tua mesa, porque é de ti que me vem o fogo. Não há gesto ou verdade onde não dormissem a tua noite e loucura, não há vindima ou água em que não estivesses pousando o silêncio criador. — Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos originais. Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra a carne transcendente. E em ti, principiam o mar e o mundo.


From the beginning (Emerson, Lake & Palmer)

There might have been things I missed
But don't be unkind
It don't mean I'm blind
Perhaps there's a thing or two 

I think of lying in bed
I shouldn't have said
But there it is 

You see it's all clear
You were meant to be here
From the beginning 

Maybe I might have changed
And not been so cruel
Not been such a fool
Whatever was done is done
I just can't recall
It doesn't matter at all 

You see it's all clear
You were meant to be here
From the beginning


Herberto Helder

O amor em visita 2 (Herberto Helder)

A minha memória perde na sua espuma o sinal e a vinha. Plantas, bichos, águas cresceram como religião sobre a vida — e eu nisso demorei o meu frágil instante. Porém, o teu silêncio de fogo e leite repõe a força maternal, e tudo circula entre o teu sopro e o teu amor. As coisas nascem de ti como as luas nascem dos campos fecundos, os instantes começam da tua oferenda como as guitarras tiram o seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta que a pedra e a morte, a carne cresce no seu espírito cego e abstracto, tinge a aurora pobre, insiste de violência a imobilidade aquática. E os astros quebram-se em luz sobre as casas, a cidade arrebata-se, os bichos erguem seus olhos dementes, arde a madeira — para que tudo cante pelo teu poder fechado. Com minha face cheia de teu espanto e beleza, eu sei quanto és o íntimo pudor e a água inicial de outros sentidos. 

Começa o tempo onde a mulher começa, é a sua carne que do minuto obscuro e morto se devolve à luz. Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras com uma imagem. Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade uma ideia de pedra e de brancura. És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves, que te alimentas de desejos puros. E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola, a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua, onde a beleza que transportas como um peso árduo se quebra em glória junto ao meu flanco martirizado e vivo. — Para consagração da noite erguerei um violino, beijarei as tuas mãos fecundas e, à madrugada, darei minha voz confundida com a tua. 

Oh teoria de instintos, dom de inocência, taça para beber junto à perturbada intimidade em que me acolhes. 

Começa o tempo na insuportável ternura com que te adivinho, o tempo onde a vária dor envolve o barro e a estrela, onde o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida ingénua e cara, o que pressente o coração engasta o seu contorno de lume ao longe. Bom será o tempo, bom será o espírito, boa será a nossa carne presa e morosa. Começa o tempo onde se une a vida à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna salina, imagem fechada na sua força e pungência. E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado em torno das violas, a morte que não beijo, a erva incendiada que se derrama na íntima noite — o que se perde de ti, minha voz o renova num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade inteira, eu estou no fruto como sol e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada matriz de sumo e vivo gosto. E as aves morrem para nós, os luminosos cálices das nuvens florescem, a resina tinge a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.

E estás em mim como a flor na ideia e o livro no espaço triste.


Book of days (Enya)

One day, one night, one moment,
my dreams could be, tomorrow.
One step, one fall, one falter,
east or west, over earth or by ocean.
One way to be my journey,
this way could be my Book of Days.
Ó lá go lá, mo thuras,
an bealach fada romham.
Ó oíche go hoíche, mo thuras,
na scéalta nach mbeidh a choích.

No day, no night, no moment,
can hold me back from trying.
I'll flag, I'll fall, I'll falter,
I'll find my day may be, Far and Away.
Far and Away.
One day, one night, one moment,
with a dream to believe in.
One step, one fall, one falter,
and a new earth across a wide ocean.
This way became my journey,
this day ends together, Far and Away.
This day ends together, Far and Away.
Far and Away.


Herberto Helder

O amor em visita 3 (Herberto Helder)

Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento na cevada pura, de ti viriam cheias as minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisse sem a minha espuma, que frescura indecisa ficaria no meu sorriso? — No entanto és tu que te moverás na matéria da minha boca, e serás uma árvore dormindo e acordando onde existe o meu sangue. 

Beijar teus olhos será morrer pela esperança. Ver no aro de fogo de uma entrega a tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus, será criar-te para luz dos meus pulsos e instante do meu perpétuo instante. Eu devo rasgar minha face para que a tua face se encha de um minuto sobrenatural, devo murmurar cada coisa do mundo até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram, onde marcaste o peso jovem da carne, aspiram longamente a nossa vida. As sombras que rodeiam o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto o seu bárbaro fulgor, o rosto divino impresso no lodo, a casa morta, a montanha inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo — aspiram longamente a nossa vida. Por isso é que estamos morrendo na boca um do outro. Por isso é que nos desfazemos no arco do verão, no pensamento da brisa, no sorriso, no peixe, no cubo, no linho, no mosto aberto —  no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz o perfume da tua noite. Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua e branca das mulheres. Correm em mim o lacree a cânfora, descubro as tuas mãos, ergue-se a tua boca ao círculo de meu ardente pensamento. Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam sobre o teu sorriso imenso. Em cada espasmo, morrerei contigo. 

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente das urzes, um silêncio, uma palavra; traz da montanha um pássaro de resina, uma lua vermelha. Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos, casa de madeira do planalto, rios imaginados, espadas, danças, superstições, cânticos, coisas maravilhosas da noite. Ó meu amor, em cada espasmo,  morrerei contigo.

Do meu recente coração a vida inteira sobe, o povo renasce, o tempo ganha a alma. O meu desejo devora a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma de crepúsculos e crateras. 

Ó pensada corola de linho, mulher que a fome encanta pela noite equilibrada, imponderável —em cada espasmo, morrerei contigo. 

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se, entre a nuvem e o arbusto, o cheiro acre e puro da tua entrega. Bichos inclinam-se para dentro do sono, levantam-se rosas respirando contra o ar. A tua voz canta o horto e a água — e eu caminho pelas ruas frias com o lento desejo do teu corpo.

Beijarei em ti a vida enorme, e, em cada espasmo, eu morrerei contigo.


Love of my life (Queen)

Love of my life - you've hurt me
You've broken my heart and now you leave me
Love of my life can't you see
Bring it back, bring it back
Don't take it away from me
Because you don't know -
What it means to me

Love of my life - don't leave me
You've stolen my love and now desert me
Love of my life can't you see
Bring it back, bring it back
Don't take it away from me
Because you don't know -
What it means to me

You will remember -
When this is blown over
And everything's all by the way -
(Oooh yeah)
When I grow older
I will be there at your side to remind you
How I still love you - I still love you

hurry Back - hurry back
dont take it away from me
Because you don't know
What it means to me

Love of my life
Love of my life ...



Um poema cresce inseguramente na confusão da carne. Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto, talvez como sangue ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência ou os bagos de uva de onde nascem as raízes minúsculas do sol.

Fora, os corpos genuínos e inalteráveis do nosso amor, rios, a grande paz exterior das coisas, folhas dormindo o silêncio a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema. Insustentável, único, invade as casas deitadas nas noites e as luzes e as trevas em volta da mesa e a força sustida das cisas e a redonda e livre harmonia do mundo.

Em baixo o instrumento perplexo ignora a espinha do mistério

E o poema faz-se contra a carne e o tempo.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Lito Vitale

Ligações
Emerson, Lake & Palmer, Enya, Queen

Textos:
Herberto Helder

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make


© José-António Moreira 2012