Sons da Escrita 001

19 de Março de 2005

Primeiro programa do ciclo Hugo Santos

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.

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Primavera (Arsélio Martins)

De ontem para hoje, uma noite foi jovem e teve a sua despedida.

A noite não é pretexto para a claridade.

E as palavras também não são a claridade.

O equinócio é um bom pretexto para anunciar outros pretextos. Este ponto vernal anuncia a primavera e, apesar de não termos visto o inverno em parte alguma deste tempo em que devia ter vivido, saudamos a ressurreição  da primavera. 

De ontem para hoje, a noite foi igual ao dia em todo o planeta azul e é este e outros equilíbrios, ou a falta deles, que nos vão servir de pretexto para falar. 

Afinal o movimento do sol é aparente e somos nós que nos aproximamos ou afastamos dele.

Aqui se encontra outra fonte de equilíbrio. O equilíbrio, e, com ele, a vida e o amor, não reside  em estar próximo todo o tempo, porque gostamos do calor, ou em estar todo o tempo longe quando gostamos do frio. O equilíbrio reside em estar ora perto ora longe do sol.


Primavera (Carlos Santana)

Lluvia de sol
Como Una Bendicion
La vida renace con su luz
La primavera ya llego

Todo es asi
Regreso a la raiz
Tiempo de inquieta juventud
En primavera ya

La tierra negra se vuelve verde
Y las montanas y el desierto
Un bello jardin

Como la semilla
Lleva nueva vida
Hay en esta primavera una nueva era

En el aire de este nuevo universo
Hoy se respira libertad
En primavera ya

La tierra negra se vuelve verde
Y las montanas y el desierto
Un bello jardin

Como la semilla
Leeva nueva vida
Hay en esta primavera una nueva era


HugoSantos

A casa – 1 (Hugo Santos) adapt.

Com os rios da casa, ensinou-me minha mãe o lento e paciente ondular das palavras.

Um imensurável adeus me coube sempre, entre o olhar e o longe.

Lembro-me dos barcos carregados de pólen e do contrabando de asas dos açores vagabundos.

Quando os barcos voltaram, a minha mãe pintou o quarto de lilás. «Não tardam aí as andorinhas», disse ela. E nos seus olhos brilhavam já as primeiras chuvas de Abril.

Da casa, guardo, imóvel, o teu corpo. (De tantos ventos fiz outros silêncios…)

Da mesa, a memória do pão e os dedos habitando a terra.

De azuis voos se encheram as paredes, se adubou a palavra.

Aí estão na memória, intactas, as mãos, sobre o teu corpo, refazendo a espera, recuperando vozes, reconstruindo a casa, tão devagar dobando, que se doem.

Estás parada a meio da casa e nas janelas abertas para o sol, pássaros e gestos, mutuamente, se respiram. Há, nas paredes, o sinal breve dum olhar que abarcou o mundo e a doçura de quem, sem se cansar, aguardou a colheita de todos os regressos.

Meu pai — domador de ventos, furtivo caçador de astros — aí estendeu a sua rede de presságios. As grandes verdades couberam assim numa ampulheta de terra, enquanto os dialogados silêncios persistiam.

A casa fez-se, pois, das fugidias sombras de todos os ausentes.

Com eles, conversámos de mil viagens interrompidas, enquanto, de fora, nos chegava o ruído das bicicletas que corriam para longe e consigo levavam um cabaz de sonhos, uma mala de incertezas, um coração subitamente tangível e surpreso.

Passaram por aí, sob os teus pés, os rios da nossa casa. Nas suas margens, cultivou minha mãe nenúfares, com a paciente resignação de quem sabe, há muito, dos dispersos fios com que se tece a esperança.

Lembro-me das gralhas que corriam para sul, montadas nos seus trapézios de nuvens, e do sibilino vôo dos açores, vigiando a planície, como se fossem interlocutores de astros, malabaristas de azul. Com eles aprendi a eloquente voz da terra, quando as chuvas tardavam e bichos, homens e sonhos se entreolhavam. Tantas vezes troquei as minhas palavras pelas suas asas. Tanto azul me sobrou entre as janelas da manhã.

Foi nosso, da terra, o seu rumor de estevas, o canto dos ralos e a inesperada germinação duma asa nas ravinas da noite.


Our house (Crosby, Stills, Nash & Young)

I'll light the fire
You place the flowers in the vase
That you bought today

Staring at the fire
For hours and hours
While I listen to you
Play your love songs
All night long for me
Only for me

Come to me now
And rest your head for just five minutes
Everything is good
Such a cosy room
The windows are illuminated
By the sunshine through them
Fiery gems for you
Only for you

Our house is a very, very fine house
With two cats in the yard
Life used to be so hard
Now everything is easy
'Cause of you

And our la,la,la, la,la

I'll light the fire
And you place the flowers in the vase
That you bought today


HugoSantos

A casa – 2 (Hugo Santos) adapt.

Aprendemos, dos dias, os matizes vários com que se lavram os longes, se adubam espaços e, em serenidade e temor, se conquista a broa de trigo que nos foi indisfarçavelmente alheia.

Talvez por isso, as bicicletas continuassem a partir, enquanto, pela noite, os combóios silvavam por dentro do magoado coração da planície e nos traziam novas dos amigos que construíam cidades, entre os muros das palavras amordaçadas.

Tanto a dizer, de tudo! Os nomes aí estão, emboscados de espera, na parede sobre a tua cabeça.

Dir-te-ei: pássaros. Ei-los viajando lentos, sobrevoando a clara peregrinação dos meus olhos. Sabem, eles, da construção da casa, do sabor da cal, dos andaimes erguidos entre as mãos que se davam e escutaram o breve diálogo de quem, voltado para sul, sopesou a ternura que lhe bastava e soube que, com ela, as paredes cresceriam sobre as suas próprias raízes.

Olhava-os o meu pai, quando sobre o restolho caçavam a luz das últimas espigas e decifravam, os olhos do homem que deles aprendia todas as razões pelas quais, por dentro da manhã, se reiventavam os longes de que as bicicletas precisavam para partir.

Aí, sob o círculo dos teus passos, se pôs a mesa. Minha irmã, lembro, cuidava do vôo das andorinhas que haviam alugado casa na segunda trave do nosso sotão. Dos seus longos diálogos pouco sei. Recordo-a sentada defronte do plátano, esperando que as chuvas retrocedessem e as luminosas névoas de Março viessem anunciar a chegada da Primavera. Era o tempo em que um homem amargamente se deitava sobre o linho de certas palavras e esperava que a manhã viesse clarificar os despojos.

Nas pupilas de algas dos olhos da minha mãe, as naves partiam e chegavam quotidianamente, buscando longe o adubo doutros ventos, enquanto a minha irmã carregava um cabaz de tílias e tuteava deuses e pássaros.

Quando vieram buscá-la, fizemos a colheita do silêncio. Meu pai, serenamente, pegou na espingarda e desceu à rua. E, mais serenamente ainda, disparou. Disparou três vezes, lembro. Três vezes contra o claro rosto do dia que passava.

Não sei se os rios de minha mãe se incendiaram. Quando o meu pai partiu, ainda não tínhamos plantado os cravos. Os dedos da minha mãe tactearam o vento, compuseram os meus cabelos. Não inventou grandes palavras. Olhou-me, apenas, profundamente e disse:

— Filho.

Foi a altura em que as primeiras águas de Abril correram para o sul.


Homesick (Kings of Convenience)

I'll lose some sales and my boss won't be happy
but I can't stop listening to the sound
of two soft voices blended in perfection
from the reels of this record that I've found 

every day there's a boy in the mirror asking me:
what are you doing here?
finding all my previous motives
growing increasingly unclear 

I've traveled far and I've burned all the bridges
I believed as soon as I hit land
all the other options held before me
would wither in the light of my plan 

so I'll lose some sales and my boss won't be happy
but there's only one thing on my mind
searching boxes underneath the counter
on a chance that on a tape I'd find 

a song for someone who needs somewhere to long for
homesick because I no longer know where home is


HugoSantos

A casa – 3 (Hugo Santos) adapt.

Mãe de ventos, terra. Deixo aqui o meu nome, entre as diluídas sombras das ervas de Março.

As corças de água estão aí, no tenso e resguardado coração da colina. Tão úbere irá ser esta colheita da memória!

Sobre a húmida face das pedras descansarão os dedos a sua inquieta (amargurada às vezes…) peregrinação. Falo de quem veio tanger o seu acorde de longes, a sua harpa de incertezas. De quem, enternecidamente, sopesou todas as distâncias e recolheu na sua voz o mosto dos grandes silêncios.

«Aqui tens a pedra», disse o meu pai. «Aduba-a de vento, para que as paredes resistam».

De frágeis mãos te ergo, terra. À altura dos meus olhos te respiro, humilhada mãe de tão indecisos passos. Pouco sei das súbitas gradações do teu corpo, quando os quentes potros do suão sobre ti caminham, vindos do sul. Digo apenas dos olhos da casa esperando a súbita revolta do teu sémen e do estranho vôo dos pássaros, circularmente vigiando as tuas líquidas veias indecisas.

Caminho sobre ti com a certeza de que todas as viagens são possíveis ainda. Sinto-me intruso, às vezes, como se a distância fosse longe para a memória que trago em cada olhar. Aqui semeio a minha magoada vara de aloendro. A sua sombra aportará aos gerânios; sob ela descansarão os morenos vagabundos, fiando a sua roca de silêncios.

Peço em troca, apenas, a cúmplice adivinhação de pássaros e ventos.

Sei que no rumor das suas vozes germinará o pão de que preciso e o solitário ritual da palavra, repartindo a sua ânfora de vinho e a serenidade dos seus frutos.

Aqui deixarei a primeira pedra da casa: o mais virgem sinal das mãos. A casa, de vento adubada, como disse meu pai, para que, mesmo sob a argamassa do silêncio, as paredes resistam.


Terra (Caetano Veloso)

Quando eu me encontrava preso, na cela de uma cadeia
Foi que eu vi pela primeira vez, as tais fotografias
Em que apareces inteira, porém lá não estavas nua
E sim coberta de nuvens
Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria

Ninguém supõe a morena, dentro da estrela azulada
Na vertigem do cinema, mando um abraço pra ti
Pequenina como se eu fosse o saudoso poeta
E fosses a Paraíba

Eu estou apaixonado, por uma menina terra
Signo de elemento terra, do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza, terra para a mão carícia
Outros astros lhe são guia

Eu sou um leão de fogo, sem tigre consumiria
A mim mesmo eternamente, e de nada valeria
Acontecer de eu ser gente e gente é outra alegria
Diferente das estrelas

De onde nem tempo e nem espaço, que a força mãe de coragem
Pra gente te dar carinho, durante toda a viagem
Que realizas do nada,através do qual carregas
O nome da tua carne

Nas sacadas do sobrado, das cenas do salvador
Há lembranças de donzelas, do tempo do Imperador
Tudo, tudo na Bahia faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito


Estás a ver?, passaram mais alguns minutos da tua vida!

Não queres dizer nada?! Está bem!

Mas faz-me um favor – sê feliz! Pelo menos sê feliz nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da tua vida, se puderes!


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
George Harrison, Andreas Vollenweider

Ligações
Carlos Santana, Crosby, Stills, Nash & Young, Kings of Convenience, Caetano Veloso

Textos:
Arsélio Martins (introdução) e Hugo Santos

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make


© José-António Moreira 2012