Sons da Escrita 002

26 de Março de 2005

Segundo programa do ciclo Hugo Santos

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Cristovam Pavia

Epitáfio (Cristovam Pavia)

Um barco sem velas e sem rumo, singrando um mar de fumo, mas descobrindo estrelas: nisto me resumo.


A cor do amor (Milton Nascimento/Andreas Vollenweider)

Sai do tormento apaga a dor
dança bem leve ao som da cor
que se encaminha
à paz do amor que chegou

Nossa primeira emoção
nasceu da forma da canção
mesmo que ingénua
veio p’ra sempre e ficou

Marcou as nossas vidas
traçou os passos que seguimos
que éramos felizes bem sabemos
escrito em nossas almas, nossas vidas
total garantia
e a emoção tomou conta da vida
e tanto amor jorrou

Longe o tormento
longe a dor
dançamos hoje a cor do amor
que a canção trouxe
e para sempre ficou


HugoSantos

Os cabelos (Hugo Santos) adapt.

Aprendi, nos teus cabelos, a lenta peregrinação da ternura. Neles incendiei os meus gestos, vi os barcos partirem e, quando chegou a manhã, já os dedos sabiam o ácido pólen das florestas. Aí fizeram ninho os meus silêncios.

É na desalinhada renda sobre a nuca que a mão começa o seu festim de ventos. Enrouparam-se os dedos da dúctil teia que veste todas as ausências. Posso dizer rio, floresta de begónias, púrpura aranha de astros e, no entanto, contento-me apenas, vê, com esta vagarosa recolha de limos, esta silente amostra de naufrágios.

Acordaram cedo os pássaros, hoje. Pousaram devagar sobre os teus olhos e neles beberam a clara dor da manhã. Resistem, agora, no trapézio alado dos teus cabelos, aqui, onde a palma se funde com os ventos e os respira.

Digo: pão! É uma palavra, parece, desajustada deste terno deambular dos dedos. Talvez vá falar do corpo das searas, em Julho, quando os cavalos do trigo sacodem as suas crinas e todas as mesas se dispõem para a solidária festa das papoilas. Mas, tão-só, digo o teu nome e pão, outra vez.

Ouviremos o coro das gralhas que sobrevoam a casa. Os chorões dormem junto ao rio, rente à boca da terra sequiosa. As mãos nos teus cabelos, catando, persistindo, desdobram o seu burel. De quantos mastros, diz, se faz um longe? De quantos deserdados gestos, um adeus?

Ai, o linho dos dedos sob os dedos… Porque a tua mão subiu, lenta, e se funde com a minha. Tão cúmplice este sopro, tão a meias a frágil tessitura destes fios! Tão dolorida, às vezes, a ternura!

Eu falo dos amigos que partiram, dos grandes sonhos subitamente interrompidos, de livros cujas últimas páginas não lemos, de surpreendidos prodígios, até quando?, adiados.

Sem raiva já, recordo. Todas as grandes viagens são possíveis ainda. Tenho os olhos grandes; como não inventar longes para todas as manhãs dos teus cabelos?

Ah, este lento, lento e difícil trajecto dos meus dedos… Este cheiro que fica… Esta imensa e sábia adivinhação do corpo, a construir-se desde aqui, no exacto momento em que as mãos, ambas, acabaram tecendo todos os fios e, voltada de través, serenamente, me olhaste.


You make it easy (Air)

Never been here - How about you?
You smile at my answer
You've given me the chance
To be held and understood

You leave me laughing without crying
There's no use denying
For many times I've tried
Love has never felt as good

Be it downtown or way up in the air
When your hearts pounding
You know that I'm aware

You make it easy to watch the world with love
You make it easy to let the past be done
You make it easy

How'd you do it? How'd you find me?
How did I find you?
How can this be true?
To be held and understood

Keep it coming - no one's running
The lesson I'm learning
Cause blessings are deserved
By the trust that always could


HugoSantos

Os olhos (Hugo Santos) adapt.

Claros os meus olhos escuros. Tão claros, os teus olhos claros. E neles todas as cores, todos os odores, os furores, esperas longas, nunca desejadas. Neles todos os pontos, encontros, desencontros e reencontros.

Dizemos olhos, porque somos testemunhas de nós e temos o céu por limite, quando voamos nas asas da imaginação. Encontramos aves e girassóis de todas as cores, como as cores das palavras e seguimos em direcção a um ponto cardeal desconhecido. Descobrimos que a Terra não é redonda, que a forma da Terra é a de um fruto raro que alimenta e mitiga a sede.

Espantados rodamos no ar e sorrimos e o nosso sorriso é uma borboleta. (José-António Moreira)

Será nos teus olhos que acenderei a lareira da casa. Nela semearei os nenúfares de minha mãe, dispersos aos ventos. Nas tuas pupilas de água reabrirei rios, na espera das marés. Os longes hão-de vir depois, quando os cílios aprenderem o primeiro adeus de uma lágrima desta revolta.

Deixa-me agora descansar nos teus olhos, entre a sombra fresca dos cílios, e viajar daí a planura do meu-país-ao-sul, o «cante-hondo» das cigarras e a vagabunda peregrinação dos duendes da floresta. Assim, em silêncio, para que o corpo recomece inteiro, na água pura desta lágrima de íntima revolta.

Nada é gratuito neste tempo que nos coube. Nem mesmo a ternura.

Hão-de passar por ti os atalhos doutras íntimas descobertas e o arco-íris dos presságios que vierem. Talvez as respostas nos não sirvam, mas que importa? Restar-nos-ão os olhos, carregados de sal, sobre os restolhos do tempo, tão imensamente claros como o vidro tocado pela chuva, tão transparentemente cúmplices que deles beberei, ainda, todas as sedes.

Olha o fundo dos meus olhos, para que, muito devagar, possa morrer, olhando-te.


Bright eyes (Art Garfunkel)

Is it a kind of dream,
Floating out on the tide,
Following the river of death downstream?
Oh, is it a dream?

There's a fog along the horizon,
A strange glow in the sky,
And nobody seems to know where you go,
And what does it mean?
Oh, is it a dream?

Bright eyes,
Burning like fire.
Bright eyes,
How can you close and fail?
How can the light that burned so brightly
Suddenly burn so pale?
Bright eyes.

Is it a kind of shadow,
Reaching into the night,
Wandering over the hills unseen,
Or is it a dream?

There's a high wind in the trees,
A cold sound in the air,
And nobody ever knows when you go,
And where do you start,
Oh, into the dark.


HugoSantos

A boca (Hugo Santos) adapt.

Da boca foge o murmúrio breve dum violoncelo de vento, tão devagar, que parece uma lágrima nos vidros da manhã.

É na boca que acontece o napalm e os rios aprendem a serena foz de todos os silêncios. Com que palavra, sílaba, acorde dum gesto dizer deste mel, desta súbita caminhada inaugurando o dia? Aí centro meus dentes, minha súplice ternura embainhada, e mordo devagar, de olhos cerrados, os gomos, que estendes aos meus lábios.

Cresceram as tâmaras, o plátano arde… Caíu dos teus cabelos a magoada flor de tília e, bêbedos de saliva, os pássaros adormeceram no linho dos teus seios. Sei lá se é possível a poesia!

Entre o marfim célere rasteja a húmida serpente dos sentidos. Ei-la que sorve, toca, ébria de sua lentidão, aspergindo o seu néctar (Outra vez os barcos atravessando o rio…). E grito! Grito o teu nome, como se soubesse já que todas as palavras hão-de confluir aí, no vórtice dos dentes que rasgam astros.

Boca, cratera de lava, lavrada taça de mel onde bebem os deuses da manhã. Acento circunflexo desta ternura que não calo, fruta acontecida, porão de pólen, nascente de ventos, arco-íris de todos os silêncios. Aqui faço a sementeira doutras palavras a vir. Só depois, vagarosa e enternecidamente, recolherei as últimas espigas do silêncio e escreverei a primeira pedra da casa e o longe que há-de cinturá-la.

Contigo, sobre a tua boca, mesmo que uma vez só, acenei lenços, aproximei margens. No intervalo, os dedos levantaram mastros, desenharam gaivotas… Foi possível, por isso, crer que as palavras, sussurradas todas elas como quem deixa escorregar furtivas bolas de mercúrio, suportariam o peso de todas as memórias. Hoje, que te escrevo, exilado já das indecisões que foram cimento e cal do homem a construir, limito-me a beber, ainda das palavras, crescendo e multiplicando nelas o mosto com que se adubam os sonhos, se refaz a esperança, se salivam os beijos e… todos os milagres, sabes?, são possíveis e quotidianos.


One more kiss dear (New American Orchestra)

One more kiss, dear
One more sigh
Only this, dear
It's goodbye
For our love is such pain
And such pleasure
And I'll treasure till I die

So for now, dear
Aurevoir, madame
But I'm how-d'ye, not farewell
For in time we may have a love's glory
Our love story to tell

Just as every autumn
Leaves fall from the tree
Tumble to the ground and die
So in the springtime
Like sweet memories
They will return as will I

Like the sun, dear
Upon high
We'll return, dear
To the sky
And we'll banish the pain and the sorrow
Until tomorrow goodbye

One more kiss, dear
One more sigh
Only this, dear
Is goodbye
For our love is such passion
And such pleasure
And I'll treasure untill I die


Estás a ver?, passaram mais alguns minutos da tua vida!

Não queres dizer nada?! Está bem!

Mas faz-me um favor – sê feliz! Pelo menos sê feliz nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da tua vida, se puderes!


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Suzanne Ciani

Ligações
Milton Nascimento, Air, Art Garfunkel, New American Orchestra

Textos:
Cristovam Pavia (introdução), José-António Moreira (Os olhos) e Hugo Santos

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make


© José-António Moreira 2012