Sons da Escrita 003

2 de Abril de 2005

Terceiro programa do ciclo Hugo Santos

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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Epílogo (José-António Moreira)

Desgraçadamente, temos muito para esquecer e, apenas, uma ou duas coisas para lembrar.

Entre o esquecer e o lembrar, vamo-nos abandonando na espera de um momento capital de que acreditamos ser possível nascer uma vez mais, ao mesmo tempo que nos deixamos esgotar na memória do que parece já irremediável.

Reivindico, com Arrabal, a memória, mesmo que seja uma causa perdida. Afinal, recordo, mas não compreendo. Por isso me espantam as cicatrizes da memória, de uma memória sempre convalescente que se revela no húmido desespero do claro dos meus olhos escuros.

Não!, não sou uma figura histórica; sou apenas um vocábulo da minha própria aflição, da solidão que me persegue e que sigo por entre o fantástico e a tremura do amor, um dia, outro dia e, no final, uma vida – tudo entre o quase tudo e o quase nada.


Gates of delirium (Yes)

Soon, oh soon the light,
Pass within and soothe this endless night
And wait here for you,
Our reason to be here.

Soon, oh soon the time,
All we move to gain will reach and calm;
Our heart is open,
Our reason to be here.

Long ago, set into rhyme.

Soon, oh soon the light,
Ours to shape for all time, ours the right;
The sun will lead us,
Our reason to be here.


HugoSantos

As mãos (Hugo Santos) adapt.

A trigo me soube a tua mão nascente. Com ela circunvaguei rios, suspendi silêncios.

De trémulas asas se fez o meu vento sul: a mesa aí está e, sobre o pão, a tua mão poente.

Diria que nas tuas mãos fundearam as macias harpas da ternura.

Toca, pois. Recolhe com elas o trémulo jeito das minhas. Com elas, retomarás o fugidio perfume duma pergunta que tenteou distâncias.

Toma, então, nos teus braços, o peso de um pássaro que hesitou no azul.

Aconchegada aí, recolhida entre eles como qualquer filho pródigo que regressa, a alegria terá a espessura duma nave que recusou partir. 

Nada, em tuas mãos, será gratuito, ouve. O mínimo gesto, o mais breve adeus terá sempre a dimensão da palavra que ficou por dizer. Perguntarás: para quê querer mais?

Vê agora: nas minhas, as tuas mãos adormeceram.

Recordo, sobre a minha pele, os dez navios dos teus dedos. Lentos caminham, alheios, clandestinos, seguramente recolhendo as suas diásporas de fogo.

Tomo-os entre os dedos, deles me dobo, eu, operário de todos os silêncios, aprendiz de ventos.

As grandes verdades serão sempre feitas de minúsculas palavras, de transparentes diálogos, de silêncios. Respira-me apenas com a doce e incerta serenidade de quem todo se deve e dá. As mãos recolherão depois o seu casulo de névoa.

Já ergueram muros, desenharam paisagens, talharam os seus ritos. São, por isso, duas mãos carregadas de presságios. Podem, seguramente, ensinar e aprender ou, recolhendo a última areia dos despojos, tactear tempestades ou iludir marés. Agora estão a recolher os últimos grãos da poeira da tarde.

Apenas te lembro que nunca é tarde para iludirmos as flexíveis varas da solidão.


Fingertips (Camel)

In the time it takes to laugh,
love can turn the key.
Crystal clear the future lies
and what will be will be.

Don't hold it back,
take the chance you missed.
Don't hold it back,
fill the emptiness.

Soon the time to say farewell,
will come with no return.
Older now but wiser from
lessons we have learned.

Don't hold it back,
take the chance you missed.
Don't hold it back,
fill the emptiness.

Slip through your fingertips,
Speak from your heart don't let it
Slip through your fingertips,
Search for the feeling in it.
Don't let it -
Slip through your fingertips,
Lost if you leave too late.
All at your fingertips,
Gone if you hesitate.


HugoSantos

Os seios (Hugo Santos) adapt.

O subtil acorde das mãos amadurando deu fruto.

Paradas, estão, agora, as mãos, sobre as dunas que mal parecem respirar.

Como doem, de esquecidos, os silêncios! Levemente o polegar tenteou o seu fruto, cresceu com ele como se fosse o seu alibi.

De quantos mundos, se faz a concha ávida e surpresa do meu primeiro punho? Quantos rios, entrelaçados, disputando? Que palavra achada, aqui, nesta memória dos dedos tecendo o seu casulo, sob o sangue?

Sob o rocio da manhã, as minhas mãos catalogaram o rosto e perguntaram as longas avenidas dos teus cílios. Desdobram-se agora no seu persistente dobar sobre as amêndoas dos teus seios, até aflorarem o vale recamado de nenúfares, do ventre.

Vão, inquietas, suspender-se aí. Há já, no mudo diálogo dos meus dedos e na tua inquieta aceitação deles, a incerta promessa de qualquer milagre a acontecer, inesperado.

Como é bom acariciar os fios do teu tear. A cabeça tombou sobre o aroma da terra. Entreabro as narinas; apetece-me cantar, desafiar a meiga harmonia das palavras que me chegam. Mas apenas a língua, açodada de mil sedes, se reparte ao que (nos) vem.

Sal. Sal e trigo e asas sobrevoando as colinas do teu peito. Ensinou-me o meu pai as azuis ogivas de todos os vôos e o napalm dos ventos que viriam do norte. Eis o que sei da terra: a magoada colheita dos nenúfares sob a resignada voz de minha mãe e este incêndio das mãos degladiando o restolho onde se acoitam os últimos bagos duma outra colheita que findou.


Dream now (All About Eve)

The sun is low and the grass is tall
We're butterflies on a garden wall
I am she as you are he
And nowhere will they find us now.

Dream now, dream now,
And find you're not dreaming at all

Reality can cast his net
Come fly away !
We can't let him catch us yet
We're fireflies heading for the clouds
To where they'll never find us now...
Dream now...I'm calling your name
Can you hear me... Can you hear me...
So far away... from you...
Far from home...?


HugoSantos

As pernas (Hugo Santos) adapt.

Subiste com as minhas pernas todos os degraus da planície e com elas aprendeste o ritmo de quem partia. Foi teu o chão dos meus pés e a fresca pegada dos meus sentidos. Foste, assim, um dos meus ventos.

Então, as pernas — jugulando o tempo, aprendendo as ervas…

As mãos tentearão, ainda, o círculo dos joelhos; sobre eles pesará a espera, o espelho adiado dos gemidos, as palavras percutindo, solidárias.

Cantámos até onde a voz do dia foi possível, sem sequer premeditarmos as febris línguas dos incêndios sob as ravinas do ventre.

Aí deponho, agora, mansamente deitado, os meus cabelos.

«Com as tuas pernas», disse o meu pai, «aprenderás o tempo. Nenhum mundo será interdito ao rumor dos teus passos. Quando voltares, recolherás, uma a uma, as pegadas que ficaram. Com elas ser-te-á possível que todos os longes se fazem sempre de minúsculos atalhos».

Deitado agora sobre o teu corpo lembro como foram pequenos os oceanos, para todos os rios que nos chegaram. Colhi todos os gemidos para que, pura e transparente, se levedasse a revolta.

Caminha, pois. Circunda, poro a poro, o verde coração da planície. Já construímos a casa, habitámos ventos, decifrámos marés. Já partilhámos todos os regressos, escrevemos cartas, aprendemos as dúcteis sombras de todas as memórias. Sejamos o barro desta ânfora e recolhamos nela a sede que nos cabe.

Nada, nunca, será gratuito, repito-te. Mas tudo é possível na catedral imensa das tuas pernas, circundando o sol. E tudo tão simples como um filho, um rio ou uma mão clandestinamente solidária.


Fall at your feet (Crowded House)

I'm really close tonight
And I feel like I'm moving inside her
Lying in the dark
I think that I'm beginning to know her
Let it go
I'll be there when you call
Whenever I fall at your feet
And you let your tears rain down on me
Whenever I touch your slow turning pain

You're hiding from me now
There's something in the way that you're talking
The words don't sound right
But I hear them all moving inside you
Go, I'll be waiting when you call

Whenever I fall at your feet
And you let your tears rain down on me
Whenever I touch your slow turning pain

The finger of blame has turned upon itself
And I'm more than willing to offer myself
Do you want my presence or need my help
Who knows where that might lead

I fall at your feet
And you let your tears rain down on me
Whenever I fall


HugoSantos

A última terra (Hugo Santos) adapt.

Cúmplice de ventos fui e, por isso, lego-te o silente rumor de todas as asas.

Do húmido barro desta terra, moldei a ânfora, a sede, multipliquei lábios e deixo-te, assim, a solidária respiração de quem veio tanger uma harpa de distâncias e consigo trouxe o inesperado diálogo de outros rios.

Lego-te uma inquieta mão surpreendida, uma boca ávida de todas as vozes e o adubo de um gesto entre as persianas da manhã.

Calei! Calei até onde é possível um homem esquecer ou silenciar e, no entanto, ao meu lado, alguém gritou. Fui eu! Sim, fui eu!

Breve me foi o medo e a coragem. Mais breve, ainda, o ódio. Recordo, sempre, um rosto para lá do vidro e o duelo das mãos decepando lenços, quando as lágrimas partiam.

Lego-te, por isso, gestos. De raiva uns, de magoada espera, outros. Com eles afagarás a casa, reaprenderás distâncias.

Os ventos permanecem. Nada perguntes. Tudo está aí, tão sensível e explicável que só as mãos, cingindo a sua broa de silêncio, entenderão a cor, o som, a exacta espessura do olhar.

Exilada se escreverá a última terra. Hão-de ser as mãos, depois, a catalogar os despojos. Nada esperes de definitivo. As pernas marcarão, ainda, o compasso doutras esperanças.

Lego-te, assim, a mais verde palavra desta enternecida colheita de memórias. Semeia-a, pois, do lado esquerdo, lugar onde os ventos lentamente se cumprem e os rios reaprendem as nascentes e levantam as pontes levadiças de todos os oceanos.

Talvez já amanhã ou depois. Mas não deixes que amanhã seja nunca mais!


I will find you (Clannad)

Hope is your survival
A captive path I lead
No matter where you go
I will find you
If it takes a long long time
No matter where you go
I will find you
If it takes a thousand years
Nachgochema
Anetaha
Anachemowagan
No matter where you go
I will find you
In the place with no frontiers
No matter where you go
I will find you
If it takes a thousand years
Hale wú yu ga I sv
Do na dio sv I
Wi ja lo sv
Ha le wú yu
Do na dlo sv
No matter where you go
I will find you
If it takes a long long time
No matter where you go
I will find you
If it takes a thousand years
No matter where you go
I will find you
In the place with no frontiers
No matter where you go
I will find you
If it takes a thousand years
No matter where you go
I will find you


Estás a ver?, passaram mais alguns minutos da tua vida!

Não queres dizer nada?! Está bem!

Mas faz-me um favor – sê feliz! Pelo menos sê feliz nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da tua vida, se puderes!


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Eddie Jobson, Nightnoise, Oystein Sevag & Lakki Patey, Lito Vitale

Ligações
Yes, Camel, All About Eve, Crowded House, Clannad

Textos:
José-António Moreira (Epílogo) e Hugo Santos

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make


© José-António Moreira 2012