Sons da Escrita 268

13 de Março de 2010

Quarto programa do ciclo Hugo Santos

Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.


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HugoSantos

Os rios sobre a parede (Hugo Santos)

Os rios de meu pai — 1

Semeou meu pai o primeiro rio sobre a parede.
Com suas sábias mãos de camponês de astros recolheu as chuvas,
entreteceu as névoas, adubou os ventos.
Longas eram as tardes. Às vezes vinham as naves:
desde a colina desciam até ao vale.
Ouvíamos suas prolongadas sirenes interpelar os longes;
suspendia meu pai, então, seu largo gesto de semeador de sonhos
e sobre nós depunha um meigo olhar,
interrogando.
Frágeis como porcelana eram as palavras. E que fazer com elas?
De outros clandestinos rios íamos sabendo
sobre as paredes doutras casas plantados.
Inquiríamos o rumor de suas águas
e o desarmado coração que as sustinha.
Lembro os pássaros crescendo sobre o álamo
e alimentando a luz.
Por eles segurámos a corola azul dos silêncios.

Os rios de meu pai — 2

Intrusa, a morte chegava ao colo dos seus cavalos d’água. De longe viera, carregada dos ritos (outros) da ausência. Os olhos, entrecerrados, amargamente pousavam sobre um trémulo voo das distâncias. Sob suas asas levantávamos um punho de estrelas, uma tília de revolta, uma quente e solidária mão enternecida. Ouvíamos depois tanger os brancos sinos da memória.

Fitando longe, deixava meu pai correr as águas.

Os rios de meu pai — 3

Pedra a pedra se ergueu o primeiro muro da revolta. De inominadas esperanças, clandestinos sonhos, fugazes emoções. Sobre ele desenhámos o cristal duma lágrima, a lança sussurrante dum regresso, o véu de tule de uma furtiva emoção inesperada. Ao lado do rio cresciam álamos e choupos. Pelas catedrais dos seus mastros aprendemos a coloração dos dias, os matizes da chuva, o arco-íris das asas. Com elas viajámos. De seus exílios soubémos, suas pátrias, dos indisíveis nomes dos seus ventos.


Father and son (Cat Stevens)

(Father)
It's not time to make a change,
Just relax, take it easy.
You're still young, that's your fault,
There's so much you have to know.
Find a girl, settle down,
If you want you can marry.
Look at me, I am old, but I'm happy. 

I was once like you are now, and I know that it's not easy,
To be calm when you've found something going on.
But take your time, think a lot,
Why, think of everything you've got.
For you will still be here tomorrow, but your dreams may not. 

(Son)
How can I try to explain, when I do he turns away again.
It's always been the same, same old story.
From the moment I could talk I was ordered to listen.
Now there's a way and I know that I have to go away.
I know I have to go. 

(Father)
It's not time to make a change,
Just sit down, take it slowly.
You're still young, that's your fault,
There's so much you have to go through.
Find a girl, settle down,
if you want you can marry.
Look at me, I am old, but I'm happy.
(Son-- Away Away Away, I know I have to
Make this decision alone - no) 

(Son)
All the times that I cried, keeping all the things I knew inside,
It's hard, but it's harder to ignore it.
If they were right, I'd agree, but it's them They know not me.
Now there's a way and I know that I have to go away.
I know I have to go. 

(Father)
Stay Stay Stay, Why must you go and
make this decision alone?


HugoSantos

Os rios sobre a parede (Hugo Santos)

Os rios de meu pai — 4

Largo e circular o gesto de meu pai.
Recolhia as águas e conversava com o trigo.
Carregava um porão de palavras, deixava amadurar seu canto.
Por uma levadiça ponte de olhares subiam as águas do dia.
À mesa, pão (palavras). Na parede, habitada de memórias, o rio crescia.
Em redor da mesa se faziam grandes viagens. Desde aí atravessávamos a horta,
passávamos o vale, serpenteávamos os atalhos que subiam à colina.
Da inesperada respiração doutras casas nos apercebíamos;
notícias nos chegavam da colheita de seus nenúfares ou das viagens (outras)
que em comum se encetavam entre as frondosas áleas do silêncio.

Sempre um deus ou um pássaro aqui dedilhou sua guitarra de longes,
enquanto as bicicletas partiam pelo entardecer.
De sibilinos voos se fez o acento grave desta terra duplamente humilhada.
Alheio, o fruto. Só a luz, crescendo, reparava o golpe da ausência.

Os rios de meu pai — 5

Nada nos foi fácil, nem sequer o sonho.
Pegávamos uma vara de aloendro e com ela medíamos
a anunciada florestação dos ventos que corriam para sul.
Com eles partiam as palavras. Trémulas de incertezas,
voejavam como pássaros tontos
entre os altos álamos do nevoeiro.
Foram então longas e tristes as cartas do exílio.
Clandestinos nomes vinham catalogar as emoções e recolher
as maduras tâmaras de qualquer esperança subitamente renovada.
Pelo olhar se media a torrente doutros rios
que para lá da casa resguardavam as ânforas do dia.
O sol da terra aí estava.
Sob o fechado punho de meu pai ouviam-se as harpas do trigo
tangidas pelas sábias mãos da luz que antecedia a chegada do crepúsculo.
Hora exacta em que os potros do vento recompunham a frágil cabeleira das estevas
e as mãos de minha mãe reaprendiam o ritual da espera, o êxodo das naus.
Serenamente depunha o pão sobre a mesa. Adormecia seus nenúfares.

Os rios de meu pai — 6

De incontáveis presságios, amargas adivinhações, solidários murmúrios se compôs o quente coração das palavras. Partiam os ventos, quando as rolas vinham recolher os rubros grãos do estio. Acalmava meu pai as águas de seus rios. As grandes verdades tinham o gosto apetecido das velhas sombras das nogueiras. Agricultor de espaços, buscava meu pai a estrela polar que habitava as longínquas planícies da solidão. Víamo-lo partir, aos ombros carregando o último sol da tarde. Dialogava com a terra e com os ventos, soubémo-lo depois. As mãos levantavam, sob a luz, a catedral maior da floresta. Pelas enleantes veredas do silêncio continuavam partindo as bicicletas. Recordo delas um adeus antecedendo a noite, o embaciado cristal de uma lágrima, a irrespondida pergunta duma memória tão humilhada como a terra — uma memória que (ficando) partia com as bicicletas e estreitava a distância entre a voz recontando as areias da distância e um braço recolhendo os primeiros despojos da ausência.


Take us father by the hand (Emi Fujita)

Take us father by the hand
And lead us to that fair land
Where joy shall not pass away

From danger keep us free
And our comforter be
Let we stray from the narrow way

So journeying on and on
You're all we lean upon
For God He never shall fail

Take us Father by The hand
And lead us to that fair land
That waits just beyond the vale


HugoSantos

Os rios sobre a parede (Hugo Santos)

Os rios de meu pai — 7

“Um amigo que parte é uma ferida na luz”.
Isto disse o meu pai, enquanto seguia com um olhar triste
o voo ziguezagueante das narcejas entre as franjas do canavial.
Não tinha (ele) grandes palavras para explicar uma ausência ou um regresso.
Eram os olhos que falavam.
Pegava uma mão de terra, erguia-a ao rés da boca,
profundamente respirava o odor dos seus barros.
Pelos rios da nossa casa corria, célere, o pólen doutras águas.
Suas margens cresciam. Crescíamos nós com elas.
Nós e as palavras. Das naves que chegavam retomávamos
os dispersos fios de névoa com que se faziam os regressos.
Vimos morrer homens, renascer árvores, repatriarem-se as emoções.
Com os pássaros aprendemos os furtivos sons da floresta
e os matizes (tantos!) dum braço saudando suas naves
e construindo os dias.
A solidão coube, inteira, numa folha de nenúfar
devagar deslizando pela corrente.
Por aí se perderam os olhos de algas de minha mãe.
À soleira dos dedos deixava adormecer as exiladas aves de Outono.
Delas inquiriria as iluminadas paisagens
onde álamos e silêncios se confundiam.
Quando a tarde chegava ao fim subia as mãos aos lábios, entrecerrava os olhos
e deixava que o vento viesse colher o espólio duma furtiva lágrima
de ternura.

Levantava meu pai sua vara de aloendro
e num certeiro gesto media o úbere coração das chuvas que tardavam.
Os olhos perdiam-se-lhe para lá do azul-gris que rodeava o cimo da colina.
“Uma amigo que parte é uma ferida na luz”, repetia.
E, outra vez, recollhia as águas e deixava falar os ventos.

Os rios de meu pai — 8

Conto-vos, repito, duma terra humilhada
e das longas viagens em redor dos silêncios.
De perguntas nunca respondidas;
de nomes escritos à hora em que a luz vinha recolher
os justos dividendos duma lágrima de revolta.
De incontáveis rios sussurrando entre as paredes duma pátria
tantas vezes ferida e atraiçoada — vos aviso.
Em nome das águas acuso.
Do alheio se fez, às vezes, a colheita das palavras
traídas também elas pelos facetados olhos de verdades que nos eram desconhecidas.
Indecisa já a mão de meu pai. Víamo-lo pegar a luz e rodá-la sobre a palma;
mas o seu braço não tinha a amplitude e a certeza dos antigos gestos.
Duro fora o estio, frio e longo o inverno;
esquecidos da terra, os deuses já não desciam ao vale.
Os seus brancos cavalos de névoa percorriam agora (contaram-nos)
as virgens planícies doutros continentes.

Quando a Primavera veio entreabrir as persianas rosas da alba
ainda as cegonhas não tinham voltado.
O eucaliptal que rodeava a casa emudecera subitamente.
Um ou outro vagabundo vinha, às vezes, contar-nos a história
dos incêndios que deflagravam para lá da colina.
Abria ante nós o mapa das suas grandes mãos de arquivador de astros
e apontava o lugar onde inimagináveis rios haviam sobrepassado as margens
e regressavam às nascentes.
Incrédulos, olhávamo-lo. Era como se as grandes palavras
(tão cuidadosamente guardadas no celeiro das emoções)
não servissem já a colheita a que nos propuséramos.
Calada, minha mãe entretecia os nenúfares da casa.
Pegava o braço de meu pai, descia com ele ao vale
e apontava o voo das gralhas que planavam sob o azul.
Talvez se desse conta de mais rios crescendo sobre as paredes da casa
e tentasse aquietar, assim, a rumorosa corrente das águas de meu pai.
Ouviam-se, pela noite, os comboios atravessando a planície
e pressentíamos pela cansada respiração os seus potros d’aço
as infindáveis caminhadas que o exílio lhe propusera.
De clandestinos nomes aprendemos, por isso, sua casa e seus álamos.
Tão fácil (tão frágil…) o magoado coração das coisas.

Foram e vieram ventos, outros ventos…
Quando chegaram as primeiras chuvas desse ano os torcazes invadiram a floresta.
Meu pai sorriu. Estendeu para eles uma trémula mão reconhecida
e afagou seus voos.

Os rios de meu pai — 9

De sussurados presságios, invioláveis naves de palavras
se encheram aos poucos as cisternas do tempo.
Pela luz se mediram as fugidias areias da memória
e se deixou impresso o abecedário solar de novas esperanças.
Pelo voo dos pássaros que voltavam do sul
se tornou a medir a distância entre o olhar e o fruto que nos cabia.
No muro que rodeava a casa se escreveu um nome, uma data,
o rumor das naves que se aproximavam.
Corriam então as águas de Março. De quentes chuvas se lavraram
as sequiosas virilhas da terra. Voltaram as cegonhas.
À soleira da casa espreitava meu pai as persianas de sol
abrindo-se entre as folhas das oliveiras.
Cansado, levantou até si outra mão de terra, levou-a aos lábios
e sobre ela, sem palavras, se deixou adormecer.

Eram os primeiros dias de Abril. Rios e pássaros corriam para sul.


Dear father (Pete Ham)

Don't let tomorrow be just any day
Look inside, dear father
The world just carries on
Tell me, must I wait so long?
Forget me, if you'd rather
But don't forget this day
And the things you wanna say
Don't let tomorrow be just any day
Look inside, dear fatrher
Are there good things there to see
Or do you see only me?
If you look much harder
I'm sure that you will find
There's a picture of your mind
Don't let tomorrow be just any day
Think of me, dear father
I need, somebody needs me
And that's how it's got to be
Forget me if you'd rather
But don't forget this day
And the things you want to say
Don't let tomorrow be just any day
Don't let tomorrow be just any day


Talvez tenhas um pai
Talvez já não tenhas pai
Talvez nunca tenhas tido um pai

Mas, Pai é sempre assim.


Música:

Genérico
Davy Spillane (abertura e fecho), Beatles (Fecho)

Fundos
Dan Gibson

Ligações
Cat Stevens, Emi Fujita, Pete Ham

Textos:
Hugo Santos

Edição e voz:
José-António Moreira


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And in the end

the love you'll take

is equal to the love you make


© José-António Moreira 2012